Blog DeAr Lindo

A minha excelentíssima casmurrice – Luís S. Braga

 

Hoje entreguei o meu relatório de auto avaliação.
Termina como cito abaixo porque há dinheiro que não merece ser ganho.
Da mesma forma que não ando à estalada e ao empurrão para entrar primeiro num comboio, não ando à “estalada” e a prejudicar outros para levar um “muito bom” ou “excelente”.
Se ninguém se mobilizasse para ter muito bons ou excelentes pela quota, o sistema implodia. Mas isto é uma bizarria só minha.
Por isso, quero ser só bom: é uma forma de sobranceria que herdei da minha avó. Há certas coisas que o melhor é dá-las ao desprezo.
Quem conhece o princípio da história sabe que no tempo em que a coisa foi lançada defendi que só ia em frente porque muita gente ia ficar aguado de excelentes… E não me enganei.
Os nossos carrascos são os que correram a entregar objetivos, correram a ser titulares e são contra a ADD mas pedem aulas observadas para poderem ter excelente.
O que escrevi:
“Declaro a minha total repugnância moral pela forma como o Estado impõe o processo de avaliação de desempenho, cuja configuração regulamentar e operacionalização prática, que se vem constatando, pelos serviços do Ministério da Educação considero, além de eventualmente ilegal, injusta e violadora de liberdades e garantias constitucionais.
Como tenho direito à progressão mínima na carreira, que escolhi e que considero exercer com zelo, mérito profissional e rigor científico, como a minha consciência e opiniões generalizadas de colegas, alunos e pais me testemunham, colaboro com o sistema, no limite da minha consciência, aceitando ser avaliado e realizar aulas observadas, quando obrigado a tal, para não ficar na total estagnação profissional e salarial.
Declaro que, para todos os efeitos, não pretendo e recuso terminantemente, no limite com interposição de requerimentos e recursos, menções classificativas superiores a bom, independentemente dos valores numéricos que lhe sejam atribuídos, devendo sempre ser colocado no lote dos excluídos de menções superiores pela quota.
Esta opção individual irrevogável fundamenta-se na objeção de consciência ao sistema, de que considero não dever beneficiar na sua componente excludente de outros profissionais, que classifico como irracional e não ética e, por isso, reputo de imoral dela tirar benefício.
Estou plenamente consciente das consequências desta opção, contra as quais nunca litigarei. Fico feliz por declarar que, tendo na vida muitas situações de avaliação excelente (nomeadamente, nos vários níveis de ensino e todos os cursos superiores que frequentei) posso prescindir de colaborar com atos imorais para obter um benefício financeiro, cujo valor não serviria nunca de desculpa para limpar a mancha moral de beneficiar de um sistema tão injusto e violador do nosso Estado de Direito.
Pedia que esta minha posição vinculativa seja comunicada ao Conselho Pedagógico e Secção de avaliação de desempenho para que a respeitem nas suas decisões de aferição de avaliações.”