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Professor, 24 horas por dia, 7 dias por semana – Carlos Santos

 

Em 27 anos de carreira, recusei-me sempre a dar o meu número pessoal de telemóvel aos encarregados de educação subordinado a um princípio que sempre considerei essencial – a separação da minha vida profissional da minha vida privada. Porém, os confinamentos e o Ensino à Distância forçaram muitos professores a fornecerem os seus números aos pais, sobretudo os que, sendo diretores de turma, não tiveram outro remédio para que o ensino pudesse funcionar. Daí para cá, numa sociedade infantilizada, com dificuldade em cumprir regras e em respeitar os professores, os abusos sucederam-se.
O que me traz aqui foi a simples gota de água que fez transbordar o meu copo. Ontem, sábado, dia de descanso, às 23h35 recebo várias mensagens no WhatsApp de um pai a comunicar-me um assunto da máxima urgência e gravidade – ora vejam só: a simples justificação de uma provável futura falta à escola do seu rebento. Estávamos a dormir e acordámos assarapantados (julgando tratar-se de algum caso familiar de maior gravidade), quando fomos surpreendidos com esta imprópria intromissão na nossa privacidade.
Embora já tenha, reiteradamente, lembrado aos pais que o meu número privado só deverá ser utilizado em casos muito excecionais e no horário laboral, os abusos persistem. Pais a telefonarem à noite informando que o filho está indisposto podendo vir a faltar no dia seguinte, seguido por telefonema antes das 7h da manhã porque passou mal a noite, rematado com nova chamada 1 hora depois comunicando já estar melhor e que irá para a escola. Tudo isto, depois de eu informar logo ao 1º telefonema que não me deveria ter ligado, pois era assunto que deveria ser comunicado à escola, a qual depois me notificaria. A ligarem com não-assuntos em estado de aflição, revelando uma imaturidade superior à dos filhos e uma falta de discernimento. Numa época em que o email institucional é o veículo privilegiado de comunicação casa-escola, esta invasão da vida privada dos professores demonstra um desnorte e uma indesculpável falta de respeito pelo nosso tempo de descanso.
(Hoje mesmo seguiu um email a relembrar os pais da minha DT que o meu número é privado, que só deverá ser utilizado em caso de força maior em horário laboral e que o email institucional deverá ser o utilizado, assim como o número da escola. Um último aviso antes de ter de tomar a medida de bloquear os números de telefone dos encarregados de educação. Seguiu, igualmente, email para a direção do agrupamento.)
Os pais andam completamente alucinados, com falta de sentido de oportunidade, de respeito pela privacidade dos professores, julgando que, desde o período extraordinário de confinamento, estes têm de estar ao seu serviço 24h por dia, 7 dias por semana.
Estes e outros casos têm acontecido com imensos colegas de profissão ao longo dos tempos mais recentes, mesmo depois de insistentemente os professores avisarem sobre o carácter muito excecional do uso do nº privado do professor. Antigamente o contacto da escola chegava perfeitamente para que o ensino funcionasse.
Mas tudo isto advém da falta de regras de uma sociedade repleta de pais inconscientes na educação dos filhos, que não sabem impor regras, horários e prioridades. Pais que habituaram os filhos a telefonar-lhes constantemente ao longo do dia, ou caso lhes tenha corrido mal um teste ou tirado uma nota menos satisfatória, ou se alguém lhes disse uma palavra menos simpática, ou qualquer outro assunto banal que poderia e deveria perfeitamente ser tratado em casa. São esses mesmos pais (tão preocupados) que em casa não têm tempo para conversar com os filhos, acompanhar as tarefas escolares, fazer-lhes companhia e vigiá-los quando estão no telemóvel ou no computador.
Pais que, muitas vezes, não aparecem nas escolas por alegada falta de tempo, mas que, para criarem grupos de Facebook e de WhatsApp para falarem mal dos professores ou das escolas, já têm tempo de sobra. Muitas vezes os miúdos nem comunicam aos professores as situações e vão contá-las aos pais que nesses grupos e redes sociais criam romances ao redor de nada procurando justiça pelas próprias mãos e julgando pessoas sem conhecimento de causa das mesmas nas costas dos diretores de turma que, muitas vezes são os últimos a saber. Em vez de se dirigirem à escola para se acercarem das situações, confecionam enredos e má-língua difamando sem conversar com os visados nem apurar os factos. Falta de valores, de consciência e de educação de uma sociedade pouco polida e pouco responsável.
Mas este abuso e violência sobre os professores não vem de hoje. Começou há 15 anos e tem-se arrastado até aos dias de hoje, quando primeiros-ministros e ministros da educação começaram uma campanha ignóbil de maus-tratos aos professores, inundando a população com mentiras e calúnias que denegriram a nossa imagem, acompanhadas de uma máquina de propaganda esmagadora que, usando-se da comunicação social, difundiram mensagens difamatórias replicadas até à exaustão por comentadores e analistas pouco esclarecidos e de idoneidade muito duvidosa.
Não bastando já a constante invasão da nossa privacidade por parte de muitas direções que inundam as nossas caixas de correio eletrónico com emails a qualquer hora e dia, que em qualquer assunto se colocam sempre do lado dos pais, uma tutela que nos tem tratado como lixo e, agora temos ainda de assistir a este assalto dos pais ao nosso espaço e tempo de descanso.
E ainda há quem tenha dúvidas sobre o motivo desta profissão ser cada vez menos atrativa?
Alguém precisa de se questionar se os professores têm motivos para se queixarem?
Desabafei, vai haver consequências e espero que nós, professores, não permitamos que um estado de exceção pandémica passe a ser regra; não podemos permitir estes horários e sistemas de trabalho invasivos em que, também, somos obrigados a utilizar os nossos meios e equipamentos pessoais; não podemos continuar a permitir que nos continuem a espezinhar. Dignificar a profissão, também é isto, começando por exigir o respeito pelo nosso tempo de descanso, pelo tempo da nossa vida pessoal e familiar. É hora de dizer basta!
Carlos Santos