Na escola, cujo nome omitimos por questões de confidencialidade, estava tudo bem e esteve sempre tudo bem. Até não estar. Até porque a professora de Inglês já vinha a fungar desde as férias. A fungar, mas também a tossir. Os testes rápidos, no entanto, não deixavam margem para dúvidas: negativo, e por conseguinte uma constipação apenas. Até deixar de o ser. Depois foi o professor de Educação Visual a ficar doente. À 5ª de manhã toda a gente faz o teste rápido e como era 5ª e era de manhã o teste deu obviamente negativo mas como o professor insistia em dizer que não se sentia bem, toca de fazer outro teste em casa à noitinha e o teste positivo por conseguinte e por conseguinte já vamos em dois professores em casa. Depois foi o contínuo da escola, o faz-tudo que arranja tudo e tudo arranja a testar positivo e a ficar doente e em poucos dias já vamos em três. Ironia das ironias, quem a seguir ficou doente foi a Directora que nunca lá esteve durante o primeiro ano da pandemia sob o pretexto de ter um pretexto, um familiar doente, ao que parece mas nunca confirmado. Ninguém sabe ao certo, mesmo se todos sabem. Mas como a Directora é a Directora e só quem está por cima é que tem direito a ter medo das duas uma, ou o resto do mundo está cheio de corajosos ou então não temos outro remédio. Outro remédio senão continuar. E continuámos. Ainda aqui estamos. E ai de quem disser alguma coisa, mesmo se todos dizem todos os dias na escola a trabalhar, com ou sem pandemia ao longo dos 18 meses mais longos desta vida. Mas continuemos, a sangria não se fica por aqui e temo estar ainda por continuar e de facto continua ou não estivesse a professora de Ciências agora em casa, professora essa que por acaso não quis ser vacinada e o marido, por acaso, com uma insuficiência renal, só por acaso e eu já não sei o que pensar sobre o que esta gente pensa, ou talvez não haja nada para pensar e se calhar somos nós que somos muito exigentes. Ou preocupados. Ou conscientes. Mas agora é tarde e aqui vai mais uma para casa com o coração nas mãos. De caminho, e no espaço de duas semanas, já são cinco os professores doentes, não, minto, seis, o professor de Informática foi ontem para casa e agora diz que também testou positivo, ele e dois alunos com quem esteve e a pergunta que toda a gente faz é por que carga de água não ficou mais ninguém doente, a escola já é conhecida como a “escola do coronavírus” e entre mais miúdos e pessoal auxiliar supostamente doentes, ou assim lhes dizem entre desculpas esfarrapadas para não vir, a escola já está a metade, tal e qual como nos tempos da pandemia. Mas ainda estamos na pandemia. Por isso é que está toda a gente doente. A única diferença é a ausência de hospitalizações e óbitos e na ausência de hospitalizações e óbitos as autoridades de saúde não lhes dizem nada, continuem a fazer testes rápidos que a escola é para continuar aberta e quanto ao uso de máscara é convosco e a escola ao deus-dará, daqui a pouco sem alunos nem professores mas ainda e sempre aberta, qual aldeia gaulesa, ainda e sempre resistente ao invasor. Porque sim. Porque a imunidade de grupo, a almejada imunidade de grupo tão apregoada pelo governo de sua majestade nos primeiros tempos da pandemia parece ser, lá está, ainda o objectivo final. Até porque na corrida das vacinações o Reino Unido acabou por ficar um pouco para trás, agora com 70% da população vacinada e a precisar de um empurrão extra. Por conseguinte, deixe-se o vírus à solta. Livre. Sem rédeas. Mas a que preço? Na escola ainda ninguém está gravemente doente e ainda bem. Mas do susto já ninguém os livra.