Podemos e devemos debater os rankings – a escola pública continua a ter bolsas de excelência. Mas não podemos continuar a mentir – o declínio cresce e a desigualdade dispara. Estar numa destas 47 escolas privadas ou na pública fará a diferença sobre o futuro destes alunos. As excepções de um lado e de outro não contam. Conta a média. O que tem de diferente a escola pública destas privadas do topo?
– Os professores, todos, sem exceção, adoram dar aulas e a sua voz transmite permanente entusiasmo, os olhos brilham quando são aulas – isso pega-se, como se pega a falta de entusiasmo. O contraste com os cenários de burnout e desmotivação na maioria das escolas privadas e públicas é evidente. “Ele está desatento”, carta para os pais, assim é na pública; ele está desatento, “oh João está a meditar? Anda aqui meditar comigo” – tenho que agarrar este miúdo. Na pública é “qual o melhor curso profissional para me livrar dele rapidamente que só faz barulho”.
– A situação é de tal forma na escola pública que é comum ouvir-se dizer da parte de professores “a culpa é dos pais”. Como? Os pais dão aulas? A culpa é nossa, professores. Se os pais não dão educação em casa ou regras, ou ensinam a ler literatura e bons filmes, a escola pública tem obrigação de o fazer. Foi para isso que a escola foi inventada – porque se chegou à conclusão que a educação familiar não chegava.
– Não existe “a escola ensina e os pais educam”. Todos educamos, em todo o lado. Educar e ensinar são dois lados da mesma moeda. A escola pública em grande parte, salvo excepções, demitiu-se da sua função. É o “pobrezinho mas feliz” salazarento, contentem-se com pouco que já é bom.
– Em 75 os professores gritavam que a escola não servia para as classes trabalhadoras, tinha que mudar, tinha que ser excelente para os trabalhadores que as pagavam. Agora explicam corporativamente que a escola “é excelente” os rankings é que estão mal. Os rankings são um erro, mas eles mostram uma catástrofe, o que tem o Ministério, a quem pagamos impostos para ter boas escolas públicas a dizer deste cenário em que 47 privadas estão entre as primeiras 50?
– Nas privadas de excelência os professores têm uma formação cientifica de fazer brilhar os olhos. Escutá-los e vê-los dominar os assuntos é encantador.
– Os alunos são chamados a fazer parte das aulas, a dar aulas para colegas, apresentar temas, debater, fazer trabalhos de grupo, não são máquinas permanentes de fazer testes.
– Não há algazarra nem normalização desta, que é na realidade um enorme desrespeito colectivo. Há silêncio nas aulas – pode-se questionar, intervir, participar mas não é o recreio. Nem silêncio conseguimos ter na escola pública onde, dizem os estudos, os professores levam em média 15 a 20 minutos de uma hora a mandar calar, berrar, chamar atenção?
– Cumprem nestas privadas parte do programa e preparam para os exames, mas uma boa parte da vezes não cumprem, dão outras matérias, muito mais interessantes e densas. Sim, para manter a disciplina numa sala de aula é preciso dar matérias interessantes. Trazer para as crianças e jovens a paixão do conhecimento e não só o que é é útil ao mercado de trabalho das “competências” de um país sem estratégia produtiva. A filosofia por exemplo, em muitas destas privadas, dão obras completas que se deixaram de ler nas metas e “competências” da pública.
– Têm autoridade – aliás, não há reuniões trimestrais de período com pais, a não ser em casos extremos, tudo o resto a escola resolve com autoridade sem infernizar a vida aos pais (conheço casos de pais que recebem cartas da escola pública por tudo e por nada, ele fala muito nas aulas, eles destrai-se, ele não fez os trabalhos de casa) – no privado zero. A escola resolve, não chama os pais para resolver. Os pais não são professores.
– Não há telemóveis na escola, mesmo no intervalo.
– Todos os professores, há anos ali na mesma escola, conhecem todos os alunos, o ambiente é de família, cuidado e protecção. isso cria confiança e confiança cria respeito.
– Os porteiros e afins, todos trabalhadores fixos, conhecem o nome de cada aluno, mesmo quando são 1000 ou 2000.
– Há segurança no emprego em professores e funcionários, e permanecem décadas na mesma escola, em vez de andarem de um lado para outro a tapar “buracos”, longe da família.
– Os salários são decentes.
– Não se tolera má educação. As regras são claras porque só assim há democracia, e são para todos, e são exigentes, quem está mal, pode sair. Um aluno não trata mal um professor ou um funcionário. E não é preciso um frio processo disciplinar e um psicólogo. Os adultos têm autoridade (autoridade conquistada com qualidade do que se lhes dá e afecto, e não à pancada) sobre as crianças e jovens.
– Há papel higiénico nas casas de banho! Imaginem ter que escrever isto – sim, em muitas escolas pública é um bem que precisa ser requisitado na hora. É simbólico. Como tratar bem um espaço que nem consegue deixar o papel higiénico em acesso livre?
– Há visitas de estudo, conferências, debates, encontros colectivos de toda a escola.
– Quando os pais refilam muito com inutilidades, estilo “o meu filho príncipe de Habsburgos não pode comer sopa de alho francês ao meio dia e meia” recebem uma carta a dizer “aqui quem manda somos nós, a sopa é para comer”.
– Por outro lado, não se enviam cartas para pais a toda a hora para assumirem os problemas que são para ser resolvidos na escola.
Como se explica esta desigualdade? A explicação é que nestas escolas privadas de excelência formam-se camadas dirigentes. Nas outras forma-se trabalho barato para um país barato.
Uma parte da esquerda, defensivamente, insiste em defender a escola pública que existe, mas esta não nos serve. É preciso defender qualidade e excelência para a escola pública, que as melhores práticas educativas e pedagógicas não podem ser só para uma elite, da qual se desdenha dizendo que é de “betos”.
– Vem o argumento final. A culpa é da massificação, “não é possível sermos muito bons para muitos”. Desculpem, não só é possível como é urgente e necessário. Como se faz isso? Tornando a profissão de professor na escola pública muito bem paga, com alta formação científica, condições de trabalho excelentes e carreiras atractivas.
É só pensar que o turismo e o futebol não fazem um país.