O senhor Zé da peixaria resumiu logo a coisa, mal alguém falou no resultado das eleições, com o seu acostumado vocabulário refinado.
– Este país é feito de atrasados mentais, valha-me céus. Então levam porrada quatro anos seguidos e ainda querem mais, os f…da…p? Ignoram bancos, submarinos, malta a emigrar, tudo privatizado, ficou tudo p’a trás das costas?
A florista do lado retorque, indignada:
– O povo decidiu, está decidido! Ao menos eu nem fui votar que já sei que são sempre os mesmos, vir’ó disco e toc’ó mesmo!
Agarro as compras e saio da praça inquirindo se o povo se ouve a si próprio. A descrença profunda enraíza-se no corpo das pessoas infelizes.
Mas é muito mais do que isso.
É um síndrome, este de viver dentro de um país tão pequeno quanto fechado.
Síndrome de Portugal.
Ocorre sempre que alguém, submetido a prolongadas sevícias, acaba por desenvolver simpatia para com o seu agressor. É uma particularidade ibérica muito específica deste cantinho geográfico. E explica como se cria um país por cumprir.
Só isto me faz sentido neste momento. Isto e as palavras do talhante para um colega lá do fundo que sorri, maliciosamente, enquanto corta a carne de coelho com desmedida força.
– Pá, os cabrões são mesmo bons…