Todos os anos, quando chegam os exames nacionais, regressa também um velho hábito nacional: desconfiar. Desconfia-se dos critérios, das classificações, das plataformas, do Ministério e, inevitavelmente, dos professores classificadores. Como se milhares de profissionais deixassem, de um dia para o outro, de saber desempenhar a função para a qual foram selecionados e preparados.
A realidade é menos espetacular e muito mais interessante.
Classificar exames nacionais nunca foi uma tarefa simples. É um exercício de enorme responsabilidade, realizado sob prazos apertados e com a consciência de que cada decisão pode ter impacto no percurso académico de um aluno. Essa responsabilidade sempre existiu, muito antes da digitalização do processo.
Durante décadas, o modelo assentou na circulação física de provas, no transporte de centenas de folhas entre escolas e casas particulares, na gestão de documentação dispersa, em procedimentos administrativos morosos e numa carga burocrática que pouco contribuía para melhorar a qualidade da classificação. Era um sistema aceite por tradição, não por excelência.
A transição para uma plataforma digital veio resolver muitos desses problemas.
A classificação passou a decorrer num ambiente organizado, com acesso imediato aos critérios, sem transporte de provas em papel, sem riscos associados à sua guarda e com ferramentas que facilitam a leitura de respostas difíceis, como a possibilidade de ampliar a imagem. A especialização por item, frequentemente criticada, tem também uma vantagem difícil de ignorar: promove maior consistência na aplicação dos critérios, porque o classificador aprofunda o conhecimento de uma única questão ao longo de dezenas ou centenas de respostas.
Não é um sistema perfeito.
Mas, em muitos aspetos, representa uma evolução evidente.
O problema surgiu quando a modernização tecnológica não foi acompanhada pelo mesmo nível de preparação organizativa.
A distribuição faseada dos itens dificultou a gestão do trabalho e impediu que muitos classificadores organizassem antecipadamente o seu tempo. Erros de digitalização levantaram dúvidas legítimas sobre a integridade de algumas respostas. Pequenas alterações na plataforma foram introduzidas já durante o processo de classificação, quando deveriam ter sido testadas e estabilizadas previamente. As interrupções no funcionamento do sistema alimentaram insegurança num momento em que a estabilidade era indispensável.
E, como quase sempre acontece em Portugal, o ruído acabou por ganhar mais protagonismo do que os factos.
As redes sociais transformaram dificuldades pontuais em sinais de colapso. Comentários precipitados alimentaram a ideia de que todo o processo estaria comprometido. No meio dessa sucessão de críticas, quase passou despercebido o essencial: os classificadores continuaram a fazer o seu trabalho com o rigor e a responsabilidade habituais.
Convém não esquecer esse detalhe.
Uma plataforma informática pode falhar.
Uma digitalização pode conter erros.
Um procedimento pode revelar-se mal planeado.
Isso não significa que a classificação tenha deixado de assentar no profissionalismo de quem a realiza.
É precisamente por isso que a discussão deveria centrar-se onde realmente importa.
Não faz sentido lançar um modelo desta dimensão com a sensação de que ainda está a ser afinado durante a utilização. Sistemas que sustentam os exames nacionais exigem preparação, testes robustos, formação adequada e capacidade de resposta antes de envolverem milhares de professores e centenas de milhares de alunos.
Os encarregados de educação e os alunos têm todo o direito de acompanhar criticamente este processo e de exigir transparência.
Mas também faria bem ao debate público reconhecer um facto simples: os classificadores não são o problema.
São, aliás, a principal garantia de que o sistema continua a funcionar apesar das suas imperfeições.
A digitalização não deve ser abandonada. Pelo contrário.
É provavelmente o caminho certo.
Só não pode continuar a ser percorrido ao ritmo do improviso. Porque modernizar não é apenas trocar papel por ecrãs. É planear, testar e implementar com a mesma exigência que se pede, todos os anos, a quem tem a responsabilidade de classificar os exames nacionais.