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Quando ensinar se transforma numa prova de resistência – Alfredo Leite

 

Há salas de aula onde, nos dias de maior calor, ensinar deixa de ser apenas uma tarefa pedagógica e passa a ser uma prova de resistência física. A atenção diminui, a irritabilidade aumenta e professores e alunos gastam energia a suportar o ambiente antes de a poderem investir na aprendizagem.

Não se trata de conforto ou luxo. Trata-se de condições mínimas para ensinar, aprender e regular comportamentos. Apesar disso, em 2026, a Assembleia da República ainda recomendava um levantamento nacional sobre o conforto térmico, a qualidade do ar e o estado de conservação das escolas!

Quando as condições falham, pede-se às pessoas que compensem o sistema. Pede-se ao professor criatividade, paciência e resiliência (conceito tão mal tratado!), como se a vocação baixasse a temperatura ou substituísse recursos.

A mesma lógica aparece na saúde mental escolar. Penso que a lei estabelece como referência um psicólogo por cada 500 alunos. Contudo, considerando apenas os psicólogos vinculados aos quadros do Ministério da Educação, o rácio era de um por cada 1 656 alunos (deverá melhorar para um por cada 796 após os concursos anunciados).

É uma melhoria importante, mas continua longe do necessário. Um psicólogo não trabalha apenas quando surge uma crise.

Previne, orienta, avalia, apoia famílias, aconselha professores e acompanha comunidades inteiras.

Quando responde por centenas de alunos, a prevenção cede inevitavelmente lugar à urgência.

É neste ponto que a comparação com o poder se torna legítima.

À data da consulta oficial, o gabinete do primeiro-ministro integrava 10 assessores, nove adjuntos e sete técnicos especialistas: 26 profissionais apenas nestas três categorias. O gabinete do ministro da Educação tinha cinco adjuntos e cinco técnicos especialistas, além da chefe de gabinete e de vários profissionais de apoio.

Não considero que estes profissionais estejam a mais. Governar é complexo e exige equipas competentes.

Precisamente por isso, devemos perguntar: se a complexidade do poder justifica especialistas, estruturas e recursos, por que razão a complexidade da escola continua tantas vezes entregue ao sacrifício individual?

Isto não é demagogia. Demagogia seria afirmar que despedir assessores resolveria os problemas da Educação. Não resolveria.

O argumento é outro: quando a complexidade chega aos centros de decisão, o Estado cria equipas. Quando chega às escolas, continua demasiadas vezes a pedir…resiliência…

Alfredo Leite