A escola de “atividadistas” ou como a ADD das “atividades que os alunos gostam” afetou aos professores…
(Ou como promoveu um desvio de função na profissão e esse foi o maior crime da Lurditas e do PS)
Texto longo, para curar desilusão concreta, mas em que, no fim, revelo o que os alunos gostam….
1. Imaginem que um médico cirurgião não era avaliado pelas operações que faz, mas pela quantidade de posters que afixa nos corredores do Hospital.
2. Ou, para um polícia, deixava de ser importante o número de detenções ou de autos, mas sim os videos que fizer na internet a explicar como é dinâmico.
3. Ou que, para um jardineiro, realmente importante, não era que as flores que plantou estivessem coloridas e viçosas, mas a cordialidade com que trata os seus colegas enquanto cavam canteiros.
4. Ou que uma enfermeira, que recolhe sangue para análise, era avaliada pelo número de utentes sorridentes com as anedotas que conta, sem se ligar aos erros de etiquetagem
No caso do cirurgião, o item de cordialidade, medido na avaliação de desempenho, daria mal resultado.
O meu cirurgião ortopedista, que todos dizem ser um génio da colocação de material de osteossíntese, era intratāvel….
Mas esse item existe nos formulários de ADD nas escolas. Ser cordial é obviamente interpretado como “não fazer ondas e que alinha com todas as baboseiras que o consenso escolha”.
Nalgumas escolas a palavra cordialidade é substituída por colaboração (o que já é fruto da ignorância histórica que grassa….não sabem o que foi colaboracionismo).
A ADD que, diziam os seus promotores, em 2010-11, ía levar a excelência aos píncaros, promoveu a difusão de práticas medíocres, meramente lúdicas, sem fio condutor, ou alicerces, que confundem ensinar e aprender com divertimento.
Já é admissível dizer-se que.o fundamento para uma visita de estudo a um parque de diversões é “os alunos gostarem” e a coisa fazer-se porque se escrevem num formulário umas balelas, que adequam a festa a uns supostos objetivos pedagógicos, mal medidos e descontextualizados.
E quem contesta o excesso de lúdico leva logo com a ameaça de que vão chamar os pais (sic)… “porque os alunos gostam da atividade”.
Há uns anos num projeto sobre direitos humanos tive de explicar numa escola porque é que encenar com alunos a entrada de prisioneiros numa câmara de gás era mā ideia pedagógica.
Responderam-me: mas eles divertiram-se tanto.
E não perceberam que a minha objeção era precisamente por isso.
Transformar o genocídio num carnaval é uma coisa limite de “atividadistas” mas os exageros do “atividadismo” são comuns e crescentes.
Dizer que deslizar num tubo de parque aquático não justifica suspender um dia inteiro de aulas é verberado como atitude de reacionarismo primário contra “o que os alunos gostam….”
Por isso, os influencers meio strippers andaram em escolas sem limites e bem acolhidos.
Dizer isto choca, mas a questão é a atitude instalada da “escola que diverte” ou do “atividadismo” sem conteúdo pedagógico ou cultural.
As escolas estão cheias de posters (às vezes, com erros ortográficos, que ninguém corrigiu).
Desenhar um cravo tosco não ensina grande coisa sobre o 25 de Abril se só se fizer o desenho, sem mais.
A Arte nem é só lúdica. É dar-lhe pouca dignidade, fazer da Arte uma mera atividade desregrada. Um artista não faz bonecos…. pensa, cria, reflete e não o pode fazer no vazio sem cultura e sem ideias.
Eu faço poucas “atividades”: colaboro em palestras e projetos com conteúdo, pouco afixo do que os alunos fazem (tem de ser bem feito), ajudo em visitas de estudo culturais e educativas e não apenas lúdicas e todos os anos levo grupos de alunos e pais ao sábado (todas as turmas de 6º ano) a visitar a cidade onde vivem e os seus monumentos.
Ao almoço fazemos um piquenique e uma futebolada (eu não jogo, porque só ando graças ao cirurgião intratável).
Na prisão onde lecciono pus os reclusos a ler e a encenar essa obra literária irrelevante do escritor nada lúdico Aquilino Ribeiro. E gostaram.
A minha falta de atividade (mesmo assim, este ano preparei e lecionei umas quase mil horas de aulas….) faz-me ouvir bocas de que faço pouco, dos que não perceberam a ironia do RAP com o “falam falam mas não fazem….”
Ainda estes dias ouvi uma gabarolice sobre uns programas de “rádio” numa escola. Como sou “pouco cordial” e tinha ouvido os programas critiquei a obra.
E lá veio o leitmotiv dos “atividadistas”: os alunos gostaram…
E não adianta dizer, gostaram mas não estava bem feito….
E nem me dá liberdade para o dizer o facto de ter sido profssional da coisa uns 4 anos e tal.
O atividadista típico faz uma formação online e em 20 e tal horas é o juiz final do que é um programa de Rádio bem feito.
E nem ousem sorrir da presunção ignara: levam logo com um sermão com Piaget e a vossa falta de cordialidade ao barulho….
Os ativididadistas são assim….
O problema é que nunca ouviram o que um sábio ensina…..sobre o que os alunos gostam.
No fim de contas o que os alunos gostam é de que os ensinem….
(e daqui a 20 anos vão gostar ainda mais)
PS: O “sábio” é o meu irmão, professor de escola que eleva, que há décadas ensina coisas complicadas de robótica e técnicas que não sei o nome a muitos alunos, que antes de estarem com ele, gostavam era de tiktok e fazer cavalinhos e que ele recebe, muitas vezes, sem a matemática básica e saem de lá com oportunidades, mesmo se, às vezes, bulir cansa…