Vi um vídeo de um médico pediatra a defender que alguns miúdos com PHDA, deviam poder mexer em objetos, manipular pequenas coisas, ter algum movimento nas mãos ou no corpo enquanto escutam…
E, sinceramente, faz sentido!
Para algumas crianças e jovens, mexer não é desafio. É regulação. Não é falta de educação. É tentativa de manter o cérebro ligado. Há alunos que precisam de movimento para conseguir prestar atenção, da mesma forma que outros precisam de silêncio absoluto para pensar.
Mas também precisamos de dizer a outra parte da verdade.
Numa turma com 25 ou 27 alunos, isto não é simples.
Porque o objeto que ajuda um aluno a concentrar-se pode ser exatamente aquilo que desconcentra o colega do lado.
O movimento que regula um estudante pode irritar outro. O som de uma caneta, de uma bola anti-stress ou de um objeto nas mãos pode transformar-se, em poucos minutos, numa fonte de distração coletiva.
E é aqui que muitos discursos sobre educação falham.
Falam da necessidade individual da criança, mas esquecem a ecologia inteira da sala de aula.
O professor não está a trabalhar com uma criança isolada num gabinete.
Está a tentar ensinar uma turma inteira, com ritmos diferentes, necessidades diferentes, níveis de maturidade diferentes e, muitas vezes, com poucos recursos reais para fazer diferenciação pedagógica de qualidade.
Claro que devemos ser mais compreensivos com os alunos BEM DIAGNOSTICADOS com PHDA.
Claro que devemos permitir adaptações inteligentes.
Claro que devemos parar de confundir inquietação neurológica com má vontade.
Mas também devemos parar de fingir que um professor consegue, sozinho, fazer ensino totalmente individualizado a quase 30 alunos ao mesmo tempo, mantendo atenção, segurança, disciplina, currículo, avaliação, inclusão e bem-estar emocional.
A escola precisa de menos slogans e mais condições.
Menos moralismo contra os professores.
Mais ferramentas concretas.
Menos frases bonitas sobre inclusão.
Mais adultos, mais formação, mais tempo, mais estratégias e mais bom senso.
A pergunta certa não é:
“Devemos deixar os alunos com PHDA mexerem-se?”
A pergunta certa é:
“Como é que criamos uma sala onde esse aluno se consegue regular sem desregular os outros?”
Porque inclusão não é deixar cada um fazer tudo o que precisa, ignorando o grupo.
Inclusão é encontrar soluções justas, funcionais e possíveis.
Para todos.
E para o professor que, todos os dias, tenta fazer o impossível parecer normal.
Alfredo Leite
PS: …não é verdade que TODOS os alunos com PHDA devam simplesmente “mexer em coisas” sem critério. O que é verdadeiro é que muitos alunos com PHDA beneficiam de movimento, pausas motoras, pequenas adaptações sensoriais e formas discretas de autorregulação.
Há diferença entre movimento regulador e distração pública. Uma bola silenciosa na mão pode ajudar um aluno. Um spinner barulhento, uma caneta a bater, um objeto luminoso ou uma brincadeira repetida podem desconcentrar meia turma.
Até onde posso perceber, a literatura sobre “fidget toys” é mista; há estudos pequenos com resultados positivos, mas também estudos que indicam que alguns objetos, especialmente fidget spinners, podem piorar a atenção ou a memória em determinados contextos.
Portanto, a formulação mais correta seria esta:
É verdade que muitos alunos com PHDA precisam de movimento para regular a atenção, mas isso não significa que qualquer objeto, em qualquer momento, de qualquer forma, seja pedagogicamente adequado. A adaptação tem de ser silenciosa, combinada, observada e revista. Tem de ajudar o aluno sem prejudicar o grupo.
Também é verdade que o professor, com 25, 27 ou 30 alunos, não consegue fazer uma personalização fina, constante e individualizada para todos sem condições reais. Em Portugal, as normas de constituição de turmas mostram que é comum haver turmas entre os 24 e os 30 alunos, dependendo do ciclo e da oferta educativa.