Durante anos disseram-nos que a educação precisava de mudança. Mais autonomia, mais liberdade pedagógica, mais iniciativa das escolas e dos professores. A ideia parece certa: confiar mais em quem está dentro da sala de aula e menos na rigidez administrativa.
Mas em Portugal existe uma contradição cada vez mais evidente: pede-se inovação a professores exaustos.
Fala-se muito de autonomia escolar, mas raramente se fala das condições necessárias para que ela exista verdadeiramente. Porque autonomia sem tempo, sem recursos e sem valorização profissional transforma-se apenas numa nova forma de pressão.
A narrativa da vocação tornou-se perigosa.
Criou-se quase a ideia de que “ser professor não é para quem pode, é para quem quer”. Como se o querer bastasse para suportar:
- carreiras congeladas durante anos,
- burocracia sufocante,
- desgaste emocional,
- falta de autoridade na sala de aula,
- instabilidade profissional,
- horários incomportáveis,
- e uma crescente desvalorização social da profissão.
Querer ensinar continua a ser essencial. Mas nenhum sistema educativo sobrevive apenas à custa do sacrifício pessoal dos professores.
Uma escola pública forte não se constrói com discursos motivacionais. Constrói-se com políticas consistentes:
- valorização salarial,
- estabilidade,
- redução da burocracia,
- apoio técnico nas escolas,
- respeito institucional,
- tempo para preparar e inovar,
- e capacidade de atrair jovens para a profissão.
Hoje, em Portugal, há cada vez menos jovens a querer ser professores. E isso devia preocupar muito mais o país do que qualquer ranking.
Porque quando uma sociedade deixa de tornar desejável a profissão que forma todas as outras, não está apenas a criar um problema educativo. Está a criar um problema de futuro.
A educação não precisa de heróis.
Precisa de professores respeitados.