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Sobre “influencers” e escolas – João André Costa

 

Há dias nos quais a escola mais parece o recreio de outros tempos, do meu tempo, quando o barulho das crianças subia pelas paredes como hera.

O barulho das crianças sobe pelas paredes como hera.

Isto porque agora é moda em Portugal termos as associações de estudantes a convidarem “influencers” digitais para animarem as eleições para as ditas associações.

E quando digo “influencers”, digo homens de corpo feito e, literalmente, tronco nu, cheios de música e abdominais diante de centenas de telemóveis mais milhares de seguidores, e uma biografia digital onde, entre muita dança e agitação, aparecem ligações para plataformas onde o corpo é para vender em parcelas, e quem diz parcelas, diz fatias, e fatias enormes devidamente iluminadas debaixo de néons duvidosos.

Imagino o pátio cheio, os adolescentes comprimidos junto ao palco improvisado, o eco das colunas a reverberar nas janelas da sala de História, e aquela figura ali em cima ainda ontem a filmar outro tipo de espectáculo para outro público, talvez num quarto alugado ou numa cozinha.

A escola, esta escola, em Portugal, mais parece uma casa com a porta escancarada por um sem número de tempestades, e com as tempestades, infelizmente, igual rasto de destruição.

A porta, meus caros, é para fechar a sete chaves e com uma palavra ao melhor estilo de um policial: DBS.

Disclosure and Barring Service, mais conhecido por DBS check, um organismo criado para verificar quem pode ou não trabalhar com crianças, um arquivo interminável de corredores e pastas cinzentas onde cada nome é sujeito às devidas perícias, desde o registo criminal à pegada digital.

Independentemente se quem entra é um putativo, literalmente, professor de matemática, um técnico de informática, um auxiliar de ação educativa, vulgo contínuo, ou um convidado da associação de estudantes.

A todos é requerido a apresentação do papel. Qual papel? O papel, o certificado, o requisito, a chave-mestra e invisível capaz de abrir esta porta, este emprego, esta sala, diante destas crianças.

Até porque sem o papel, a escola permanece fechada na serenidade obstinada de uma grande muralha, a da China de preferência.

Pode esta pessoa trabalhar com crianças?

Se o nome aparecer na lista de indivíduos impedidos de entrar em contacto com menores, a resposta é definitiva e óbvia. O mesmo quando a actividade digital é imprópria para menores.

Esta pessoa não pode ensinar, não pode organizar actividades nem fazer apresentações. Esta pessoa nem sequer pode estar à porta da escola.

Porque em primeiro lugar, e acima de tudo, está o bem estar físico e emocional das crianças com as quais trabalhamos todos os dias.

E para quem pode, e deve, trabalhar com os petizes, cabe a cada escola manter um registo destas averiguações, nomes de gente grande e séria com data, certificado e a autorização devidamente carimbada pela chefia.

Sejamos claros: o salário de um professor em Portugal é equivalente ao salário de um Teaching Assistant em Inglaterra. E em Inglaterra, não é preciso um curso universitário para se ser Teaching Assistant.

O custo de vida? É igual.

Nestes termos, exigir a um professor mil e uma tarefas administrativas e burocráticas não é apenas uma brincadeira de mau gosto. É um insulto. É uma bofetada todos os dias.

E até aqui, estamos todos de acordo.

A discordância surge quando o adulto diante destas crianças vem com o único propósito de angariar mais seguidores à custa de plataformas para maiores de 18 anos de idade.

E num repente os nossos alunos, jovens, influenciáveis, sequiosos de atenção, amigos, aceitação e seguidores, a emularem as mesmas actividades.

Só não vê quem não quer.

Ou quem não sabe.

Ou quem não quis saber.

E quem não quis saber tem a minha idade.

Peço desculpa pelo legado da minha geração.

Porque a fama não abre portas, o número de seguidores não é um certificado e a histeria juvenil não é um pretexto. É apenas histérica.

Ao mesmo tempo, a escola não se pode arrogar a abrir as janelas para deixar entrar o mundo inteiro quando o mundo inteiro são os algoritmos a dançar nos ecrãs.

É elementar.

E sim, em Inglaterra o mundo também entra, mas primeiro tem de mostrar a mala, confirmar a identidade, carimbar um papel.

Só depois se abre a porta.

E mesmo assim devagar, já sabemos bem a força do vento.