Pelo país, escuto dos professores que estão a receber crianças e jovens com mais dificuldades de base e, ao mesmo tempo, com menos tolerância à frustração, menos autonomia e menos treino para tarefas simples que antes surgiam com mais naturalidade.
Vê-se no aluno do 1.º ciclo que pega mal no lápis e se cansa depressa.
Vê-se no do 2.º ciclo que já consegue falar sobre a matéria, mas demora demasiado a copiar do quadro, suja o caderno todo, desiste facilmente e irrita-se quando lhe pedem cuidado.
E vê-se no do 3.º ciclo que até percebe a matéria, mas escreve à pressa, mal, com pouca organização, e perde qualidade por falta de base, de método e de resistência ao esforço…
O que muitos professores me transmitem é uma mistura difícil de explicar a quem está de fora: empatia pelas crianças e jovens, preocupação genuína com as famílias e, ao mesmo tempo, um enorme cansaço por verem cair sobre a escola problemas que começaram muito antes da sala de aula.
Um docente reconhece quando uma criança quase não recorta bem, quando evita desenhar, quando não regula a força da mão, quando não sabe esperar, quando quer desistir ao primeiro erro, ou quando vive tão habituada ao estímulo rápido que tudo o que exige atenção mais lenta parece “uma seca insuportável”.
E o que muitos pensam, a meu ver com razão, é isto: não se pode pedir à escola que repare sozinha aquilo que o estilo de vida atual tem vindo a fragilizar.
Os professores também partilham, muitas vezes, que há uma injustiça nesta conversa.
Quando uma criança chega com dificuldades muito visíveis, há quem olhe logo para o pré-escolar ou para o professor titular como se ali estivesse o centro do problema. Mas quem está na escola sabe que a realidade é outra. Sabe que há crianças com poucas horas de sono, excesso de ecrãs, pouca brincadeira livre, pouco treino de autonomia, pouca persistência e demasiada cedência à volta delas.
Sabe que há pais exaustos, outros desleixados, famílias sobrecarregadas e rotinas frágeis. E sabe, sobretudo, que a escola está a tentar ensinar enquanto também compensa, regula, acalma, organiza e repara. Isso desgasta muito.
Parece-me que o sto já não é só uma questão de “não saber segurar no lápis”. Isso seria quase o sintoma mais visível e mais simples.
É o pré-adolescente que tem dificuldade em ouvir um “não”. É o adolescente que acha insuportável o esforço continuado.
Muitos docentes sentem que estão a trabalhar cada vez mais sobre capacidades humanas básicas que antes vinham mais consolidadas de casa: esperar, insistir, tolerar desconforto, ouvir, cumprir, recomeçar…
Talvez esteja na hora de parar de simplificar. Não é sério culpar educadores de infância ou os professores por tudo.
A infância mudou, o ambiente familiar e digital mudou, e isso tem consequências reais no corpo, na atenção, na motricidade, na linguagem, no comportamento e na aprendizagem.
Acima de tudo, sinto que desejam que alguém diga com honestidade aquilo que eles vivemos todos os dias: a escola pode ajudar muito, mas não pode continuar a ser tratada como oficina geral de reparação daquilo que a sociedade vai desmontando.
…não, não estamos a pedir crianças perfeitas. Estamos a pedir crianças mais acompanhadas, mais treinadas para a vida real, e menos entregues a atividades que anestesiam o desenvolvimento.
Ensinar já é exigente.
Ensinar e, ao mesmo tempo, reconstruir bases que deviam vir de trás, é um peso enorme.