Nos últimos dias instalou-se uma pequena tempestade mediática porque algumas escolas receberam influenciadores digitais. A notícia levou o Ministério da Educação a criar um grupo de trabalho para produzir orientações que permitam aos diretores travar atividades “contrárias aos fins educativos”.
Confesso que olho para tudo isto com alguma perplexidade.
Não porque o tema não seja importante. É. Mas porque parece que estamos a olhar para o sítio errado.
A discussão pública tem girado em torno do que acontece dentro da escola: quem entra, quem fala, quem faz uma palestra ou aparece num auditório durante uma hora.
Mas a verdade é bem mais incómoda.
Pior do que ter influencers nas escolas é tê-los em casa. Nos quartos dos vossos filhos.
E esses não entram por convite do diretor.
Entram pela porta que muitos pais deixaram escancarada: o telemóvel.
Sempre que surge um problema com jovens, há um reflexo automático: culpar a escola.
Se os alunos dizem disparates, a escola falhou.
Se repetem ideias misóginas, a escola falhou.
Se seguem personagens duvidosas nas redes sociais, a escola falhou.
Entretanto, em casa, um adolescente pode passar quatro, cinco ou seis horas por dia mergulhado em plataformas como TikTok, Instagram ou YouTube — sem qualquer supervisão adulta.
Mas aparentemente o grande risco educativo é um convidado que entra numa escola durante 50 minutos.
Um influencer convidado para uma escola fala uma vez.
Um influencer nas redes sociais fala todos os dias.
Fala às duas da manhã.
Fala durante o jantar.
Fala quando os pais pensam que os filhos estão “a estudar no quarto”.
E fala de tudo: sexo, dinheiro fácil, humilhação pública, misoginia, exibicionismo, desafios absurdos e uma cultura permanente de espetáculo.
Não há projeto educativo.
Não há conselho pedagógico.
Não há regulamento interno.
Há apenas algoritmo.
Há um facto pouco elegante que raramente entra nestas discussões: para muitos adultos, o telemóvel tornou-se o novo babysitter digital.
É cómodo.
O filho está quieto.
Está no quarto.
Não faz perguntas.
Não interrompe.
E portanto está tudo bem.
Ou pelo menos parece.
Porque enquanto os pais descansam com a ilusão de tranquilidade doméstica, os filhos estão a receber uma torrente diária de conteúdos que nenhuma escola autorizaria.
Nenhuma.
Há aqui uma certa hipocrisia social.
Alguns pais ficam indignados se um influenciador aparecer numa escola.
Mas não fazem ideia de quem os filhos seguem, de que vídeos veem, de que discursos repetem ou de que ideias absorvem.
E quando finalmente descobrem, a culpa volta a ser… da escola.
A escola tem responsabilidades, evidentemente. Mas a educação dos jovens não se resume ao horário escolar.
Os pais continuam a ser os principais reguladores do ambiente cultural em que os filhos crescem.
Isso implica coisas pouco populares: saber que aplicações os filhos usam, conhecer os conteúdos que seguem, definir limites de tempo, conversar sobre o que veem e, imagine-se, dizer “não” de vez em quando.
Sim, dá trabalho.
Mas educar sempre deu.
Podemos criar todos os grupos de trabalho que quisermos. Podemos escrever orientações, circulares e recomendações.
Mas enquanto milhares de adolescentes tiverem influencers a viver permanentemente nos seus telemóveis, a discussão sobre quem fala numa escola durante uma hora é quase pitoresca.
O verdadeiro debate não é “que influencers entram na escola”.
É outro.
Que influencers vivem dentro da casa de cada família — e ninguém parece estar muito preocupado com isso.