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A Classe Docente é conservadora?

Uma parte significativa da Classe Docente parece ser conservadora e isso será independente da crença em eventuais ideologias políticas, sejam de Direita, sejam de Esquerda…

 

Ou seja, em termos gerais, o conservadorismo da Classe Docente não estará directamente relacionado com convicções políticas, será, porventura, mais abrangente e profundo do que essa possível dicotomia, assente em doutrinas ideológicas…

 

Uma parte significativa da Classe Docente é conservadora, mas muitas vezes os próprios Professores não aparentam dar-se conta disso…

 

Quem está do lado de fora da Educação também não costuma percepcionar o conservadorismo docente, confundindo frequentemente, por exemplo, adesão a Greves com efectivo activismo de classe profissional…

 

Não creio que exista esse activismo na Classe Docente, mesmo que, em certos momentos, possa verificar-se uma adesão significativa a determinadas Greves e gerar-se, por aí, a ideia ilusória de que há uma real e genuína união entre Professores…

 

Os dicionários online dizem-nos que “ser conservador” significará, mais ou menos, isto:

 

– Apego ao que é conhecido e costumeiro; posição de quem defende a continuidade de um sistema ou posição;

 

– Alguém que não gosta de mudanças em relação ao que é habitual ou tradicional…

 

A Classe Docente que, de resto, costuma andar ciclicamente “a reboque” de políticas educativas, conforme os Partidos Políticos que se encontram no Governo, reage, frequentemente, de forma negativa quando se discute política em certos contextos educativos, nomeadamente em Blogues de Educação…

 

Quando tal sucede, “aqui D’el-rei”, exaltam-se os ânimos, pois que não há neutralidade nem isenção! Num “Blogue de Professores” não se deveria permitir tal veleidade!

 

E a seguir também costuma vir um coro de acusações: ora se acusa alguém de ser de Esquerda, ora se acusa o mesmo de ser de Direita, ora de defender ou de atacar o Partido do Governo, seja ele qual for… Na verdade, existem acusações para todos os gostos e feitios…

 

Exaltam-se os ânimos, parecendo ignorar que as políticas educativas surgem porque existem Partidos Políticos que as conceberam e que são responsáveis por elas, em cada Legislatura…

 

Não assumir isso e considerar que quando se fala e discute sobre Educação não se pode falar nem discutir sobre Política e/ou sobre Políticos é um acto de profunda hipocrisia e de negação da realidade…

 

A neutralidade e a isenção não é fazer de conta que não existe qualquer interdependência entre Educação e Política… A neutralidade e a isenção é conseguir analisar e discutir as políticas educativas, assumindo e reconhecendo as eventuais des(virtudes), sem o apego redutor a ideologias, ainda que as convicções políticas/partidárias de cada um sejam um direito inalienável…

 

Mas, e paradoxalmente, “não vale a pena fazer ondas” ou “não estou para me chatear” também são duas expressões do conservadorismo docente, que se ouvem frequentemente e que acabam por legitimar o status quo instituído e contribuir para a respectiva manutenção…

 

Fazer tudo sempre da mesma forma, mas esperar resultados diferentes, não parece plausível nem congruente… Em termos gerais, em muitas situações, a Classe Docente parece estar refém de si própria, presa num labirinto de contradições…

 

“Não tomar partido” também parece ser o lema de muitos, em particular daqueles que consideram que não se deve falar sobre política e/ou sobre Políticos num Blogue de Educação, pretensamente para não se colocar em causa a isenção e a neutralidade…

 

Perante o anterior, sarcasticamente, apetece afirmar isto:

 

– O Povo é sereno de mais, o rebanho tem muitas dificuldades em admitir ovelhas negras, tende a bani-las ou a “apedrejá-las”, quando as mesmas se revelam como discordantes do status quo vigente ou quando se sai do que é habitual e tradicional, por exemplo, falando-se de assuntos tidos como inusitados ou “tabu”, muitas vezes vistos ou interpretados como potenciais afrontas a certas “convenções” artificiais, existentes na Classe Docente…

 

Mas, e afinal, o que têm ganho os Professores com uma atitude recorrentemente conservadora, conformista, submissa, silenciosa e de acomodação ao ritual? Algum dos problemas que afectam a Classe Docente foi resolvido por essa via? Conseguiram conquistar, dessa forma, o tão almejado respeito ou a valorização do seu trabalho?

 

A realidade mostra que só conseguiram ganhar alguma coisa quando, em momentos excepcionais, conseguiram, em primeiro lugar, desobedecer a si próprios, desassossegar-se e infringir a “lei do silêncio” auto-imposta…

 

Por outro lado, em contexto educativo, os Professores são os principais transmissores daquilo que habitualmente se designa por “currículo oculto”…

 

“Currículo oculto” que, de forma sucinta, corresponderá a um conjunto de aprendizagens informais, implícitas, que não fazem parte do “currículo oficial” ou formal e que vão além deste último…

 

Trata-se, assim, de um sistema de valores, crenças e atitudes, transmitido pelos Professores na interacção com os Alunos e que, de alguma forma, poderá ser interiorizado pelos discentes e servir até como modelo de comportamento futuro…

 

Nas circunstâncias anteriores, será isso isenção e neutralidade? Não, não é…

 

Não, não é… Mas enquanto formos humanos (e espera-se que nunca deixemos de o ser) é praticamente impossível abolir esse aspecto de qualquer relação pedagógica…

 

E, então, isso significa que os Professores serão parciais, tendenciosos ou facciosos?

 

Não, isso significa que a subjectividade é parte intrínseca do comportamento humano e que, como tal, é praticamente impossível eliminá-la… Sendo assim, a isenção e a neutralidade são, por lado, praticamente impossíveis de alcançar e, por outro, nem sempre fazem sentido…

 

Na maior parte das vezes, a isenção e a neutralidade, tão perorados por muitos, não passam de uma fantasia ou de uma expressão do “pensamento mágico”…

 

Revejo-me em Antonio Gramsci, nestas duas convicções:

 

– “ Odeio os indiferentes, viver significa tomar partido”…

 

– “Tudo é político, inclusive o silêncio conivente e fantasiado da neutralidade!”…

 

Enquanto persistir, da parte de muitos, a convicção de que, em Educação, não se deve “tomar partido” e que há assuntos “tabu”, interditos, por poderem ser causadores de algum tipo de melindre, muito dificilmente a Classe Docente abandonará o seu conservadorismo…

 

Quando falar de política em certos contextos relacionados com Educação é visto como uma espécie de “excentricidade despropositada”, abre-se o caminho para que esse tipo de pensamento contribua para reduzir a Educação à ingenuidade e à artificialidade…

 

De qualquer forma, e por motivos óbvios, esse é o género de pensamento que mais convirá aos políticos, sobretudo se forem Governantes…

 

“Viver significa tomar partido!”

 

Paula Dias