Blog DeAr Lindo

Em nome do bem-estar mental dos professores

 

O Luís não tem com quem falar quando o dia chega ao fim ou a semana acaba e isto não é novidade.
Já aqui o disse.
Mas trabalhando o Luís com alunos com necessidades educativas especiais seria elementar, para não dizer óbvio, um mínimo de apoio psicológico para quem lida regular e diariamente com emoções, insultos, agressões, violência doméstica, criminalidade juvenil, automutilação para não dizer tentativas de suicídio e a lojinha dos horrores continua.
Não, a função do Luís é ensinar e se dúvidas tiver sobre o ensino, as dificuldades de aprendizagem de determinado aluno ou os métodos e estratégias a usar, então sim, todo o apoio e mais algum, até chegarmos aquela parte das cadeiras e carteiras a voar mais o olho negro e as equimoses e hematomas pelo braço acima e a conversa, inopinadamente, chega ao fim.
Porque este é o trabalho e a expectativa e as crianças não têm culpa.
E o Luís concorda e não disputa se o instinto natural de quem foi rejeitado a vida toda é, precisamente, rejeitar quem agora se propõe a dar a mão até, e às vezes dura alguns meses, ao dia no qual o petiz apreende finalmente a presença contínua deste adulto para, aos poucos, estender igualmente a mão.
Na verdade, a grande dificuldade do Luís é ser lembrado constantemente pelos demais colegas e direção sobre a premência de não falar, comer e engolir até chegar ao fim do dia e ao café da esquina e então sim, poder deitar tudo cá para fora.
Houve uma altura na vida do Luís onde o mesmo se interrogava sobre a possibilidade de sofrer de alcoolismo e se juntarmos a isto o facto de no dia a seguir os mesmos colegas do café voltarem à conduta autónoma e automática de todos os dias então não vale a pena ir ao café.
Mais, era precisamente no café onde a coragem ébria revelava mais pormenores sórdidos sobre a vida destas crianças e lá vai o Luís com um litro e meio de cerveja em cima telefonar para os serviços sociais.
Estão a ver o lindo resultado, não estão?
Em nome do bem-estar pessoal mais o bem-estar das crianças, hoje o Luís deixou de ir ao café e quanto às cervejas só ao fim-de-semana, preferindo literalmente estar só, resguardado e distante.
Pelo menos até fechar os olhos e dedicar as noites a sonhar estar na escola a resolver os problemas dos alunos, a resolver os problemas dos pais e dos outros professores cheios de problemas também e todos os alunos, pais e professores a correrem para apanhar o Luís e o Luís a privar-se de dormir.
Solução da direção: para promover o bem-estar mental dos professores, na terça-feira durante a reunião semanal sobre o bem-estar dos alunos, a direção contribuirá do seu salário para comes e bebes com álcool à discrição ao fim do dia no refeitório da escola.
“É um truque?”, interroga-se o Luís, para depois afirmar veementemente ser um truque ou não estivessem as câmaras de circuito fechado em todo o refeitório e basta aparecer para se perder o emprego.
Ou então o mundo está mesmo do avesso e sabe Deus quanto sairá daquelas bocas enquanto se desbragam sobre o bem-estar, ou a falta dele, dos alunos e respectivas famílias e todos os comentários, opiniões e quebras de confidencialidade devidamente registados na acta pela colega da secretaria devidamente instruída para apenas beber sumo de laranja.
Em nome do seu bem-estar mental, o Luís não estará presente na reunião semanal, invocando uma indisposição ou uma urgência familiar.
Para poder continuar na certeza de quem sabe, e vê, no seu trabalho, não todos os dias mas todos os meses, o regresso de um sorriso ao rosto de uma criança e ninguém perdoa como as crianças perdoam.
Um dia chegará o dia sem mais crescidos na Terra depois de uma virose misteriosa (até porque as guerras dão muito trabalho) e as crianças, com o mundo nas mãos e entregues a si mesmas, brincarão felizes para sempre.