Blog DeAr Lindo

É de louvar, mas… burocratizemos!

A opinião dos professores é mais do que necessária para que as escolas possam adotar medidas de desburocratização, mas têm que perceber do que estão a falar.

O ministro veio, e muito bem, pedir a opinião aos professores. Um gesto louvável, dizem uns. Outros, mais atentos, perguntam-se: quantos professores saberão ao certo do que é que ele estava a falar

Na sala de professores, ecoa o refrão: “Temos de acabar com os papéis!”
Sim, os famigerados papéis — essa entidade quase mística, omnipresente, mas raramente identificada com clareza.
Mas que papéis, colegas? Os da avaliação? Os dos projetos? Os planos de turma? Os relatórios de tudo e mais alguma coisa que ninguém lê?

A verdade, crua e sem verniz, é esta: a esmagadora maioria dos professores preenche toneladas de papelada (ou pior: plataformas digitais labirínticas) sem fazer a mais pálida ideia do porquê, para quê, ou para quem.
Fazem-no como quem carimba a sua própria inutilidade profissional. Obedecem, entregam e suspiram. E o sistema agradece: burocratas felizes, professores dobrados.

Escrevem frases com laivos de poesia pedagógica, copiadas e recicladas de documentos anteriores, com adjetivos sonantes mas sem alma. Porque ninguém se atreve a perguntar ao autor da exigência burocrática: “Para que serve isto?”
A resposta seria um eco ou um ficheiro Excel.

Caímos no buraco negro do desinteresse burocrático, onde se faz porque sim, porque “é preciso”, porque “vem de cima”.
Um sistema que produz profissionais exaustos, repetitivos, cínicos  e que depois lhes pede “colaboração” e “visão” para o “futuro da escola”.

Sr. Ministro, a solução não está em mais inquéritos com checkbox com limite de caracteres.
Está em mandar os senhores dos gabinetes, de fato cinzento ou azul céu e PowerPoint na mão, para dentro das escolas. Não para fazer visitas guiadas com direito a foto de grupo — mas para ouvir os professores que suam a camisola entre reuniões, aulas e plataformas que falham.

Talvez assim percebam — ainda que de forma fragmentária — o que realmente sufoca as escolas: não é o excesso de papel. É a ausência de propósito.

No final contabilizarão umas centenas de opiniões de um público de mais 120 mil docentes…