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Eu quero ser estónio – José Afonso Baptista

 

Confesso: esta manhã acordei com um desejo inusitado. Não era café. Nem um aumento nas pensões. Era… ser estónio. Ideia maluca, ou sonho tonto, com a leitura do The Guardian de 26 de maio passado.
Sim, estónio. Esse pequeno país do Báltico que cabe inteiro no Alentejo mas aparece gigante nos relatórios internacionais de educação. No último PISA, a Estónia foi o país europeu mais bem classificado em literacia, matemática e ciências. Os alunos estónios não só lêem melhor como resolvem problemas com mais lógica, e fazem tudo isso com naturalidade digital, sem medo dos ecrãs nem dos algoritmos. E para cúmulo, gastam menos por aluno do que nós. Uma afronta!
O The Guardian contou que a Estónia recusou a moda de banir os telemóveis nas escolas. Em vez de panos quentes ou interditos cegos, apostou naquilo que por cá se considera perigoso: inteligência (natural e artificial). Desenvolveram uma estratégia nacional de digitalização, criaram plataformas públicas interoperáveis (como a eKool), formaram professores, envolveram os pais e colocaram a tecnologia ao serviço da pedagogia, e não o contrário. Os telemóveis não foram proibidos: foram integrados, com regras e propósitos.
Na prática, isso significa que há escolas onde a IA já ajuda a detetar dificuldades precocemente, recomenda percursos personalizados, e apoia a avaliação formativa. Professores recebem alertas, não só circulares. E os alunos aprendem desde cedo a programar, a pesquisar com sentido crítico e a compreender o impacto social da tecnologia. Uma literacia digital real.
E nós? Bem, por cá estamos em modo fado: ora se proíbe tudo, ora se impõe tudo. A ideia de dar autonomia às escolas parece radical. Debater com pais e professores? Uma ameaça. Confiar nos profissionais? Um risco. Adotar uma abordagem experimental por territórios? Utopia. A solução mais confortável é nacionalizar o medo e regulamentar o pânico. E depois queixamo-nos que os alunos estão distraídos com os telemóveis, como se o problema estivesse nos aparelhos e não na pedagogia.
Por isso, digo-vos com convicção: quero ser estónio. Quero viver num país onde a escola é levada a sério, não como tema de campanha mas como política de Estado. Onde a tecnologia é uma aliada da equidade e não uma desculpa para a desigualdade. Onde os professores são formados e ouvidos, e não apenas “implementadores” de decisões superiores. Onde os alunos não são “vítimas do digital”, mas cidadãos do século XXI.
Descansem, não vou emigrar, mas, teimoso como sou, deixo, com algum realismo, uma sugestão final: não proíbam nem imponham. Deixem que as escolas, com os seus professores e pais, assumam as suas responsabilidades. Experimentem durante três anos, com liberdade e acompanhamento sério. Depois, ausculte-se o universo das escolas e veja-se onde é que os resultados foram melhores. Talvez se descubra que temos estónios entre nós, à espera apenas de confiança e meios para mostrar o que valem.
José Afonso Baptista | Ciências da Educação |