Blog DeAr Lindo

À vista de tempestade… com mar de siglas

(Por Pedro Alexandre Franco)
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Há um ponto no calendário escolar em que os professores começam a olhar o horizonte com desconfiança. O céu escurece, o ar pesa e o mar, que até então se agitava apenas com pequenas marés de reuniões e grelhas, começa agora a rugir.
Sou navegador e a minha rota é a escola. Mas, por esta altura, deixo de navegar por estrelas e passo a orientar-me por siglas. Muitas siglas. Um alfabeto afogado, um código de navegação inventado sabe-se lá por quem, que exige leitura avançada em linguagem burocrática. PEI, PAP, PAA, PASEO, NEE, DT, TIC, PAT, RTP, AE, DAC, DGE, APA, PCT, PIA, ACS, ACNS … Já perdi a conta e a paciência.
Se um náufrago desse à costa numa escola portuguesa em junho, acharia que tinha sido resgatado por uma tripulação de criptógrafos soviéticos dos anos 60.
– “Professor, já preencheu o PEI do aluno NEE que está no PAT?
– “Ainda não, porque a plataforma TIC estava em baixo e tinha a ficha do PAP por lançar no RTP do NEE da minha DT…
Ninguém se riu… Sabem porquê? Porque é verdade…
Sou professor com 9 turmas, o que, traduzido em carga real, equivale a tocar em mais de 200 mentes distintas, com mais de 200 humores distintos, mais de 200 vidas que pedem atenção. Também sou Diretor de Turma, o elo entre a escola e o mundo exterior, uma espécie de diplomata com papéis para preencher e chamadas e emails para devolver. E, como se não bastasse, “Professor Tutor” (PT) de alunos com dificuldades, ou seja, alguém que tenta ensinar a remar enquanto segura o leme, cola as velas e esvazia água do porão ao mesmo tempo.
Mas nesta altura do ano, tudo o que é essencial, as pessoas, os miúdos, as conversas, as ideias, vai sendo empurrado para os cantos da embarcação, enquanto o centro é ocupado por burocracia em forma de papelada. Há muitos momentos em que as aulas deixam de ser o mais importante: administro tabelas, despacho ficheiros, alimento plataformas. Sou menos pedagogo e mais gestor de grelhas.
A tempestade não é súbita. É minuciosa. Vai surgindo em notas de serviço, lembretes, “só mais um documento”, reuniões extra, e-mails com anexos de trinta páginas enviados às 22h45 com prazos para o dia seguinte. Tudo com muita importância. Tudo com prazos “improrrogáveis”. E tudo, curiosamente, tão urgente que parece eternamente adiado todos os anos.
O mais irónico? Parte significativa desta tempestade burocrática não melhora o mar  não repara barcos e não orienta rotas. Serve apenas para que, de longe, se diga que temos “instrumentos de monitorização” e “protocolos de atuação em rede”.
Chego a sonhar com um mundo onde o professor possa ensinar, conversar com os alunos, criar, ouvir, desafiar. Onde o tempo não seja engolido por códigos, plataformas e reuniões sobre reuniões.
Mas por agora, resta-me agarrar bem o leme. O mar está revolto. Os papéis voam como gaivotas tresloucadas. A tinta escorre dos formulários.
E lá ao fundo, talvez uma ilha de  de férias, talvez…