Quando abrimos os jornais ou espreitamos as redes sociais, somos confrontados com a enxurrada de vídeos de miúdos – chamemos-lhes assim, na falta de melhor palavra – a esmurrar colegas, a insultar professores, a transformar os corredores das escolas em ringues com inspiração “gameistica”. E a resposta é sempre a mesma? Uma salada de lugares-comuns: “São casos pontuais”, “Faltam recursos”, “Precisamos de mais psicólogos nas escolas”.
Vamos ser honestos. Não é um caso pontual quando, de norte a sul, se acumulam relatos de violência física e psicológica, com professores a meter baixas médicas por exaustão e alunos a saírem da escola como se tivessem sobrevivido a uma travessia de Gaza. Não é falta de recursos quando as escolas estão armadilhadas de projetos “inovadores” que têm tanto de modernidade como de vazio prático. Não é só de psicólogos que precisamos; é de um pacto social para resgatar o que a escola deveria ser.
E não venham com a conversa que “os jovens estão revoltados porque têm vidas difíceis”. O mundo sempre foi difícil e não há vidas fáceis. A diferença é que antigamente havia a noção, ainda que incipiente, de que o respeito pelos outros – colegas, professores e funcionários – era um pré-requisito para qualquer aprendizagem e relação. Agora, a pedagogia do “coitadinho” venceu. O miúdo insulta o professor? Pobre menino, deve estar frustrado com a vida ou tem um qualquer problema que justifique o ato. O aluno parte o nariz a um colega? Uma vítima da sociedade que não sabe gerir as emoções ou sofre de espasmos musculares. O próximo passo? Professores a darem aulas envergando coletes à prova de bala e capacetes? Funcionários fardados com fatos anti bomba?
Vamos ser claros: não estamos a falar de crianças esfomeadas que recorrem à violência como instinto de sobrevivência. Estamos a falar, na esmagadora maioria dos casos, de jovens que vivem imersos em confortos materiais, com smartphones de última geração, zero responsabilidades em casa e um discurso parental de permissividade total: “O meu filho nunca mente”, “Ele é tão sensível”, “A culpa é do sistema”. Mas a frase que mais se ouve é: “Já não sei o que lhe hei de fazer”. E para continuar, a minha preferida no momento: “ele só roubou 5€… não era preciso suspende-lo…”.
A escola é apenas o palco onde se representa a tragicomédia da nossa abdicação como sociedade. Pais que tratam os professores e funcionários como empregados subalternos, direções escolares paralisadas pela burocracia, tutelas políticas que confundem inclusão com indulgência. E no meio disto tudo, os professores – os últimos resistentes – são despojados de autoridade, transformados em animadores culturais de alunos.
É preciso dizê-lo sem rodeios: a violência nas escolas não é apenas um problema da escola. É um problema da sociedade. Uma sociedade que, a cada eleição, discute superficialidades enquanto as escolas se transformam em zonas de guerra. Uma sociedade que tem pavor de impor limites porque tem medo de ser impopular. Uma sociedade que idolatra o discurso da “liberdade” sem perceber que liberdade sem responsabilidade é apenas um convite ao caos. Para ser livre tem que se saber ser, e aprender que a liberdade, também, tem limites.
Enquanto continuarmos a relativizar agressões, a desculpabilizar miúdos violentos e a engavetar relatórios, estamos a cavar a sepultura do conceito de escola como espaço de formação de crianças e jovens. E não, não são só “casos pontuais”. É uma epidemia lenta, tão perigosa quanto invisível.
Porque, convenhamos, uma escola que tem medo dos seus próprios alunos não é uma escola. É apenas um espaço onde o futuro do país se esvai em cada punho cerrado e em cada adulto que vira a cara para o lado.
Se ainda restassem dúvidas sobre a gravidade da situação nas escolas portuguesas, os dados mais recentes dissipam qualquer ilusão. No ano letivo de 2023/2024, a PSP registou 3.441 crimes em contexto escolar, um aumento de 10,6% face ao ano anterior. As ofensas corporais subiram 8,8%, totalizando 1.346 casos, enquanto as injúrias e ameaças aumentaram 14,7%, atingindo 946 ocorrências .
Em paralelo, a GNR registou 103 crimes de bullying, dos quais 12 de cyberbullying, no mesmo período . Estes números são apenas a ponta do icebergue, considerando que a maioria dos casos permanece oculta, vítimas do silêncio e do medo.
O impacto desta violência vai além das estatísticas. As vítimas enfrentam traumas que podem perdurar por toda a vida, incluindo ansiedade, depressão e, em casos extremos, automutilação ou suicídio . A escola, que deveria ser um espaço seguro e de crescimento, transforma-se num ambiente hostil, onde o medo e a insegurança imperam impostos por uma minoria.
Perante este cenário, é imperativo questionar: que medidas concretas estão a ser tomadas para inverter esta tendência? Não basta reconhecer o problema; é necessário agir com determinação e responsabilidade. A escola não pode continuar a ser o espelho da indiferença social, mas deve tornar-se o reflexo de um compromisso com a educação, o respeito e a dignidade humana.
Porque, no final, a violência nas escolas não é apenas um problema educativo; é um sintoma alarmante de uma sociedade que precisa urgentemente de se reencontrar com os seus valores fundamentais para que possa, verdadeiramente, prosperar.