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O Xico Lardosa andou na inclusão – José Afonso Baptista

 

A boa inclusão é chumbar ano sim ano não (1)

Quem inventou o chumbo foi o Xico Lardosa, um rapaz do meu tempo do Liceu, mais velho que eu uns cinco ou seis anos que eram os chumbos que já contava. Era um rapaz singular, carismático, conhecido em toda a cidade de Castelo Branco e arredores. O que o distinguia de todos nós era a sua velocidade no jogo da bola e a sua persistência a decorar as lições. A jogar a bola, no campo da Sarangonheira, agora um grande estádio, era o único que conseguia marcar um canto e correr para a baliza a tempo de ser ele a meter o golo de cabeça. Extraordinário, velocidade superior à da bola. No estudo não era menos singular: para ele, a melhor estratégia para aprender melhor era chumbar quantas vezes fosse preciso.

No verão, quando voltava a casa, o pai perguntava logo: então, filho, passaste? E o Xico explicava, paciente: Pai, há alunos que passam todos os anos, mas esses não ficam a saber nada, eu é que aprendo tudo melhor porque não faço dois em um, faço um em dois, e quando é preciso em três anos. O pai ficava inchado com a inteligência e persistência do filho.

Cruzávamo-nos muitas vezes no parque da cidade, sossegadinho, onde se estudava bem, ora sentado, ora caminhando, para não dar o sono. Lembro-me bem, um dia o Xico Lardosa passou por mim dezenas de vezes, a estudar o corpo humano e repetiu toda a manhã a mesma frase: “os dentes estão na boca, os dentes estão na boca, os dentes…”. Ao fim da manhã já tinha interiorizado este raciocínio difícil.

Bendito país onde há rapazes com esta inteligência. O ministério, que gosta muito de tomar medidas, nada lhe escapa, adotou logo esta medida e ficou conhecido em toda a europa por ser o país que mais chumba, logo o que tem a geração de crianças e jovens mais inteligentes em todo o mundo, como diria um senhor que eu não cito para não dizerem que ando a fazer política.

Eu já andei lá pelos países nórdicos a ver escolas, estúpido que eu sou, e não é que eles não sabem o que é chumbar! Ignorantes! Os alunos lá passam todos os anos. Da Inglaterra para cima é esta desgraça, por isso é que eles todos, Dinamarca, Suécia, Noruega, Finlândia, tudo países atrasados por que só formam burros, não têm dinheiro para deixar as crianças aprender melhor repetindo anos a fio. Desculpam-se com a inclusão, sempre a mania da inclusão!…

Uma escola inclusiva, dizem, é a que não rejeita, nem exclui, nem deixa nenhum aluno para trás, “no child left behind”, dizem os américos e os beefs. O nosso ministério, invejoso, também fez uma lei sobre inclusão, que é o conhecido 54, e lá diz tudo, sucesso de todos, dos bons, dos medíocres e dos maus, tudo incluído, igualdade de oportunidades, com medidas para todos os gostos. Isto gerou revolta, claro, passar assim toda a gente sem nunca chumbar, que é isso a inclusão, mas o ministério, Xico esperto, não se esqueceu da lição do Xico Lardosa e no mesmo dia, seis de junho de 2018, publicou o 55, para dizer que afinal, não senhor, temos de ter também chumbo e retenção. Sim, no mesmo dia, um decreto para a inclusão e outro para a exclusão. Como diria Gil Vicente: “E assim se fazem as cousas”.

(1) (Baptista 2020, O meu sobrinho anda na inclusão, Nimba/Amazon, pp.113-115)