Frase de Salgado Zenha, advogado, antifascista, fundador do PS (no dia 2 de Maio passam 100 anos do seu nascimento)
O balanço do que resulta, para a ação coletiva dos professores, da greve de fome que realizei não me cabe a mim.
Sai do hospital, já era manhã, com uma garrafa de soro nas veias e com análises em bom estado.
A glicemia traiu-me (cheguei abaixo dos 60 e isso é perigoso). De resto, o estado físico (tensão, oxigénio, pulsações, análises) era bom. O ânimo era alto.
Perdi a fé religiosa há muito, mas transferi a fé para a ideia de que devemos lutar pelo que é justo. A justiça é humana e faz-se em atos e diálogo.
Do meu ponto de vista, pus em ato o que digo em palavras: temos de lutar sem hesitações.
Os professores portugueses são tratados com injustiça. Logo temos de lutar, sem violência, até ao limite das nossas forças.
Quase me apetece pedir desculpa aos colegas pelo meu mau hábito das sobremesas no dia-a-dia, que me fazem ter um fígado gordo e preguiçoso, que esta semana de jejum não foi buscar depressa reservas para fazer glicose, quando parei de comer. Se não fosse isso ía conseguir aguentar mais uns dias.
Lamento o meu corpo não ter dado para mais, sem correr risco grave ou até de vida.
Mas a luta prossegue esta semana. Há diferentes e variadas formas de luta. Muito por onde escolher e tudo válido. Porque tem impacto se tudo se agregar.
Desde que se aja. A ação individual é a base da coletiva. Não é “faço se os outros fizerem”. Na verdade é “faço com outros e fazemos todos.”
Acho que agora devemos lutar ainda com mais intensidade e com esperança e focar no Presidente, além do governo.
E ir buscar coisas criativas ao manual da luta não violenta (por exemplo, não pode ser uma ideia sentar as manifestações uns 66 minutos e 23 segundos frente a edifícios simbólicos? Ou ir 6 horas, 6 minutos e 23 segundos sentar-se à porta do presidente, em silêncio? Se estamos à espera de justiça, por que não ter avenidas e praças de gente sentada, silenciosa, à espera?)
Uma das virtudes de um regime semipresidencialista é a força e legitimidade política do presidente para impedir o governo de fazer erros e injustiças. A maioria absoluta do PR é sempre maior que a do Governo. E há veto presidencial.
Houve concertação social ou imposição unilateral no diploma de concursos?
Como se pode promulgar o que se disse precisar de acordo e que acaba imposto num abuso de maioria absoluta?
Nos próximos dias, vou tentar responder pessoalmente a todos os que se interessaram por mim e pela minha saúde e que, em tantos casos, me fizeram gestos muito bonitos de solidariedade. Se falhar alguém é incompetência com o telemóvel, não desvalorização.
Termino a saudar os meus colegas da equipa de apoio. Sem eles e elas, sem o seu esforço, amizade, dedicação e outras palavras que me falham, perante o tamanho da sua solidariedade comigo, teria tido graves dificuldades e nada se teria feito.
Parei ao fim de 5 dias também por respeito ao compromisso com esse grupo e às linhas vermelhas que tínhamos acordado desde o principio.
Mesmo deixando o balanço para os outros, permitam-me só lembrar o dado que me deu mais ânimo, logo no primeiro dia: o spin do governo queria lançar a narrativa na comunicação social de que os professores estavam a esmorecer e derrotados. E que, com a Páscoa, íamos parar.
Quanto mais não fosse, ajudamos a contrariar essa narrativa falsa.
Esta semana temos que o provar. Todos.