PROFESSORADO E AXIOLOGIA / O PROFESSOR HOJE
AS INTERACÇÕES SOCIAIS NA ORGANIZAÇÃO ESCOLA
A escola pública contemporânea é multicultural, inclusiva, pluridimensional e massificada. Axiologicamente é muito diversificada, em que coexistem valores díspares e na qual os alunos e respectivas famílias têm diferentes ideias de escola. Ao professor cabe o papel dificílimo de trabalhar com todas as sensibilidades valorativas e alcançar a meta do sucesso dos educandos no processo de ensino-aprendizagem. As interacções sociais/societais acontecem na organização escola envolvendo toda a comunidade educativa.
Donde, nesta reflexão vamos dissertar sobre o trabalho do professor hoje, a escola actual, os valores e o nosso tempo, e as interações socializantes na instituição/organização escolar. A qualidade/não qualidade da escola pública é um reflexo da educação-ensino/sensibilidade-não sensibilidade do poder político/vontade-não vontade política dos governantes.
O actual poder político, destruidor da Escola Pública, peca sem perdão na sua missão fundamentalista contra todo o professorado. Lamentável e miserável visão/acção política contra a profissão docente, comprometendo o futuro de Portugal. Este comportamento contranatura tem o mais absoluto e total repúdio dos educadores e professores portugueses.
Havendo conivência convergente no erro entre Governo e Presidência da República, apaticamente amorfa e catatónica, assistimos ao definhar de toda uma classe sócio-profissional e em vias de extinção. Paralelamente, a classe política inculta e de carácter deformado em muitos e multiplicantes casos de podridão de bastidores, indiferente e irresponsavelmente prepara-se para dar a estocada final nos professores. A História julgará!!!
Esta reflexão sobre a Escola Pública dos nossos dias, é um “ensaio” conciso na abordagem às várias vertentes. Fica o nosso modesto contributo, em homenagem nobre a todos os colegas em Luta. Obrigado.
Carlos Calixto
“É sobretudo na República, onde Platão dá início à sua teoria da educação filosófica dos futuros governantes, que aparece defendida a pretensão de tornar os filósofos reis ou os governantes filósofos, para que o Estado possa ser melhorado”. (Werner Jaeger, Paideia, p. 568).
Na sua demanda pela Paideia/Educação (deriva da palavra grega “paidos” e significa educação da criança; é a denominação do sistema de educação e formação ética da Grécia Antiga) dos governantes, na “República”, Platão defende a ideia da necessidade do aprofundamento do problema da Educação, que redundaria em proveito e mais valia de um melhor conhecimento da Justiça.
Donde, atingir a meta da verdadeira Educação É realizar a meta da verdadeira Justiça. Para Platão, a justiça dentro do Estado assenta na virtude e princípio segundo o qual, cada membro deve cumprir, com o maior rigor e perfeição possível, a sua própria função. A ideia de cooperação do Estado é de governantes sábios. (op. cit., pp. 755 e 756).
A contundente crítica de Platão, na “República”, a um mundo desumano, ávido e a precisar de justiça e respeito pelo outro, visto como um campo fechado onde os animais (pessoas) estão dominados (possessos) pelos seus desejos (interesses) e disputam o pasto (recursos). “Olhando sempre para o chão, como os animais, ou debruçados para a mesa, empanturram-se de comida, ou sujam-se uns aos outros e, disputando a ver quem terá mais desses prazeres, escoicinham, matam, e matam-se à cornada, com tamancos de ferro para satisfazerem as suas insaciáveis cobiças”. (André Bonnard, A Civilização Grega, p. 552).
Donde, os professores enquanto pensadores e intelectuais, educadores e pedagogos, “constroem” pessoas humanas únicas, críticas, livres, melhores e mais sábias; com valor acrescentado.
Os valores e o nosso tempo. Vivemos num mundo em convulsão.
Convulsões sociais que significam mudança, transformações profundas a nível social, económico, geo-político e das próprias mentalidades, com alterações no sistema internacional, antes bipolar, agora unipolar, em metamorfose, erguendo-se um novo cenário, desempenhando os actores internacionais (países/estados/povos-nações), papéis diferentes na cena internacional. Mas os actores/nações são muitos. Não é apenas a questão do jogo e do equilíbrio da relação de forças a nível mundial. É também o problema já há muito latente e agora explosivo dos conflitos raciais, das invasões/violação de países soberanos, das guerras civis, da violação dos direitos humanos e, não podemos esquecê-lo, as manifestações do neo-nazismo, do terrorismo, da intolerância religiosa, de massacres afirmativos da animalidade humana crescente e da violência e vandalismo que vão dando sinais de vida, numa visão e interpretação perturbada e deturpada de sermos, estarmos e vivermos aqui, condicionados pelos “ismos” da História.
Vivemos um início de século que é simultaneamente um início de milénio. Estamos no 3º milénio d.C. Há os “profetas” do fim do mundo. É inevitável. Foi assim no passado e é-o agora, esta apetência pela paixão do fim que é princípio. Os esquemas milenaristas repetem-se ciclicamente. Para alguns, nostálgicos, ansiosos pela realização dos Textos Messiânicos, os sinais dos tempos já foram desencadeados – o Alfa (princípio) e o Ómega (fim) não são utopias; é só interpretar a Bíblia/Sagrada Escritura.
Outros, o caso das sociedades ditas “primitivas”, ou “pré-modernas” ou “tradicionais”, falam a linguagem do símbolo arcaico, do mito e do rito, conjunto coerente de afirmações concretas sobre a realidade última das coisas, sistemas que poderão parecer incongruentes, desprovidos de lógica (a nossa, a do mundo ocidental). Apelidamos de metafísico, arquétipos a que a História dá vida, à repetição da Cosmogonia e transformação do caos em Cosmos pelo acto divino da Criação. Olhamos o simbolismo, vemos teses, antíteses e sínteses, teorias e vivências, e o Homem volta como acto da Criação, réplica da Cosmogonia, no centro do mundo, in illo tempore, ab origine, (mito do eterno retorno).
Por oposição, a radicalização dos adeptos e defensores da oficina do processo de hominização/evolução humana.
E há os niilistas (niilismo), cepticismo e negação, total ausência de valores e do sentido da Vida.
Há ainda os agnosticistas (agnosticismo), do grego “agnostos” que significa a impossibilidade do conhecimento da natureza ou existência de Deus. Há também os ateístas/ateus (ateísmo), negam a existência de Deus e do transcendental/sobrenatural/metafísico; recusam a cognoscibilidade/perfeição dos atributos morais divinos.
Já para os hedonistas (hedonismo), vem do grego “edonê” e significa prazer. Doutrina filosófica que faz a apologética da negação do sofrimento e defende como valor supremo da Vida, o(s) prazer(es) para atingir a felicidade. O prazer é o bem supremo e a finalidade da vida humana.
Vivemos realidades onde misturamos a confusão de Fé, deriva do grego “pistia” e do latim “fide” (etimologicamente significa a adesão/certeza/crença das coisas que não se vêem, sem critério e evidência de verificação) e ciência verificada por métodos experimentais; de mésinhas, de teorias e psicologias criacionistas e evolucionistas, longínquas da pedra de toque, confundindo indiferentemente sagrado e profano, opondo-se Criacionismo e Evolucionismo. Com vontades alienadas e alienantes, e razões por afirmar, viajamos na vida presente de costas voltadas. Crentes fiéis, agnósticos, ateus, cépticos e niilistas, hedonistas, uns e outros apontam o dedo, atribuem culpas, alucinados pela prisão axiológica fervilhante nas mentes em clausura. Subsiste o atropelo avesso de não escutar e respeitar o outro, próximo e semelhante. Fala-se tanto de paz, mas é a psicose da guerra que prolifera.
As reuniões na O.N.U. sucedem-se, mas as flores humanas vergadas sucumbem num caos violento feito de balas, sangue, da miragem do pão, do ostracismo e incompreensão dos narcisos contemporâneos. É a política das massas acéfalas, sem voz, que definham. Carneirada/rebanhos mé, mé, com acefalias colectivas.
E tudo isto porquê? Por causa dos valores! O perfume da vida que despoleta paixões. É imperativo e urgente a imediata díade dialéctica de cada um para cada qual com todos. Todo o ser humano tem uma escala axiológica inalienável, na qual os valores estão hierarquizados, variando de pessoa para pessoa. Em primeira e última instância, enquanto pessoa humana, somos decisores segundo uma ética e uma moral próprias, usando o nosso livre arbítrio e seleccionando/objectivando as nossas representações do mundus real. O semper excelsius (em todo o tempo) concreto de cada pessoa concreta.
Se pararmos para reflectir, se fizermos um exame introspectivo consciente, não por lapsos de tempo momentâneos e com horizontes de espaço limitados, mas ao contrário, rasgando a nossa visão e libertando-a, percebendo que somos contestatários contestados, lado a lado, na tentativa esforçada de compreender e descobrir o nosso próximo, igual e tão diferente, tão perto de nós que o ignoramos, colocando-o às vezes lá longe, separados por fronteiras ideológicas exacerbadas por preconceitos e ameaçadas pelo abismo insondável de todos os “ismos”, palavras perigosas alicerçadas por líderes mentores de mensagens dúbias, despoletando de quando em vez crises medonhas, pesadelos irreversíveis, levando a humanidade que sendo de cada um per si é de todos nós, a abeirar-se dos genocídios e holocaustos; “leviatãs” apocalípticos que a História vasculha e testemunha com discernimento, método e razão clarividente.
O Homem é por excelência um ser gregário. O isolamento é uma abstracção. É intrínseco à estrutura e essência humana a ligação com o seu semelhante. Devemos e temos de estar predispostos à abertura aos outros. Esta acção é interacção. O respeito pelas diferenças do outro é salutar. Olhemos o outro responsavelmente.
Não há culturas superiores nem inferiores; apenas diferentes, com outros valores. O processo universal da endoculturação ou inculturação, e da própria aculturação reflecte a vivência dos valores. Valores cuja interiorização leva à socialização. Donde, o relativismo cultural ser uma realidade constante, com a qual devemos ser compreensivos e tolerantes, tendo a obrigação de ser colaborantes, de conviver com a pluralidade cultural.
A Escola, instituição privilegiada na divulgação dos valores (ensinados, aprendidos, partilhados e respeitados empaticamente), bem assim como a família e a Igreja, devem cumprir esta sua responsabilidade. A Escola Cultural e da Educação Pluridimensional é a Escola dos Valores, pelos valores e para os valores. A organização pedagógica da Escola Axiológica apela à formação integral do indivíduo enquanto pessoa, à Felicidade e realização plenas do Homem. Seres na plenitude autêntica. Os Clubes Escolares propostos por este modelo de escola, ajudam à concretização objectiva da integralidade realizacional da pessoa humana do educando.
A Escola deve alertar para o perigo informacional. Os mass media invadem as nossas vidas, “escravizando-nos” com super-informação, sub-informação e pseudo-informação (triagem). A rádio com os gingels, o lead nos jornais/revistas e o próprio elemento icónico, e a publicidade na televisão, estão imbuídos de valores, têm uma missão ad hoc. Condicionam a opinião pública. Atenção aos perigos da internet e da globosfera. Atenção aos influencers e opinion makers.
A Escola tem de formar cidadãos críticos e o professor tem de ser pedagogo orientando, como Mestre, os discípulos no caminho da imunologia ideológica que sub-repticiamente os media, poderosos veículos difusores de valores, nem sempre nobres, nos incutem. “Errare humanum est”. O que não está bem são os pactos que por aí proliferam com as sementes de violência, vandalismo, racismo, propaganda e xenofobia, as quais têm na sua essência a ausência versus imposição de valores.
A Escola hoje é liberal, de massas, inclusiva, multi-ética, multi-cultural, da integração supranacional sociopsicopedagógica, do diálogo inter-cultural, dos valores estruturantes da alma e do espírito humanista socializantes. Escola Comunidade Educativa. O todo. O total absoluto abrangente.
O Professor hoje. O nosso presente é um hoje em mudança.
É imperativo afirmar que a Educação actual constitui uma realidade desafiante diferente do passado. As correntes pedagógicas modernas alertam para uma evolução no(s) sistema(s) de ensino, no sentido de modificações que se têm vindo a operar e, para as quais, urge chamar a atenção.
Contemporaneamente, a condição do professor, ser professor hoje é diferente da situação deste no ontem. A própria Escola, como instituição/organização cultural, científica, pedagógica, didáctica e valorativa que é, deve apostar de forma estratégica na apologia da qualidade da Educação e Ensino ministrados, e não apenas na quantidade massificada do mesmo. Está no ADN da Escola, o Ensino/transmissão de todo o tipo de conhecimentos, (científicos, investigação, pedagogia, didáctica, etc.); a Educação/formação para os valores cívicos e exercício da cidadania na vida em sociedade, vivências de experiências axiológicas; e valorizar/exponenciar toda a herança cultural/antropológica acumulada da Humanidade. De facto, uma tarefa hercúlea. Ser professor neste momento não é fácil pois, implica toda uma série de novas situações, de uma dinâmica dentro e fora da sala de aula(s) e na Comunidade Educativa, que vamos tentar enunciar e dissecar. Donde, por tudo/todo o enunciado supracitado, ser professor hoje é dificílimo e merecedor do mais absoluto Respeito e reverência da sociedade e do poder político. Daremos provas, à frente, deste mais que merecido reconhecimento e merecimento.
A Escola Pública hoje convive com uma realidade populacional multicultural, multi-racial, minorias, pluridimensional e com casos de disrupção. A escola de massas e inclusiva. A escola unidimensional e do currículo único e estruturante a nível nacional (escola cultural clássica) não está ultrapassada. Será sempre um referencial. O magister dixit é incontornável. A aula expositiva é uma mais valia para debitar matéria e transmitir conhecimentos. (A talhe de foice, o tipo de aulas, por excelência, no ensino superior). Há hoje toda uma panóplia de novas ferramentas de trabalho dos professores, em constante actualização: ferramentas telemáticas/novas tecnologias q.b. que complementam o “apenas e só que já não chega”. Há que adaptar, ensaiar, inovar; impõe-se a mudança q.b. A vida em sociedade exige à escola o saber teórico, mas também aponta o pragmatismo das respostas, dos ensinamentos, do ensino-aprendizagem e dos curricula adaptados aos novos tempos. É tempo da escola quantitativa exigir a escola qualitativa, validada socialmente. A escola é um mix de trabalho, estudo, exigência, saber, profissionalidade laboral, deontologia, competências e reconhecimento, valorização/atractividade e respeito da pessoa humana do educador/professor.
Mais que em qualquer outra profissão, o professor tem o cuidado de manter-se constantemente actualizado. Os seus conhecimentos científicos são de vanguarda e aprofundados, dominando as matérias, tendo a preocupação de nas aulas focar o cerne das questões, indo ao âmago dos problemas, dos temas e assuntos tratados (o facilitismo de faz de conta do “eduquês” não serve). A sua experiência e formação científica, pedagógica e didáctica enriquecidas, também é permanente. Formação tantas e tantas vezes paga a expensas próprias.
O professor deve ser/é flexível q.b., no sentido de mudança q.b., estando aberto às inovações q.b. É determinante a assertividade das “mudanças”, “projectos”, (…). Deverá ter espírito crítico, de diálogo, derrubando as “tradicionais” barreiras professor/aluno e, ao contrário, criar uma relação de empatia entre ambos, condições necessárias numa perspectiva sociopsicopedagógica axiológica. A condição sine qua non da díade dialéctica interactiva.
O professor deve ter sempre presente dois factores que se complementam: a escola e a sociedade (respeitar os valores de pertença da família e da Igreja/religião); as quais estão em interacção permanente. Os conhecimentos/valores da segunda não devem ser ignorados/subestimados pela primeira – o ensino, a acção educativa deve pugnar por ser teórico-prática, pragmática e funcional. Há que ter em conta ainda o meio/comunidade em que está inserida a escola. Parafraseando os filósofos do Séc. XIX, uma boa educação/escola fecha muitas cadeias/prisões. O acto de educar faz toda a diferença e muda vidas.
O professor deve actuar a vários níveis: quer individual (conhecendo caso a caso os seus alunos; uma utopia o conhecimento personalizado, dado o elevado número de alunos por turma), quer em grupo (a turma). Deverá ainda ter uma vivência pessoal com os colegas, enriquecendo-se e partilhando conhecimentos. O seu profissionalismo sairá mais valorizado.
Em teoria, na prática utopia e delirius tremendus; condição psicótica irrealizável por culpa do sistema e da burocracia insane. Sendo que a ditadura do digital controleiro e de moldura consome tempo e tempos para perdição.
O professor não deve fazer juízos anacrónicos, isto é, não deve tirar conclusões à priori (preconceito), fruto de um determinado comportamento ou respeitante a certas e determinadas situações. Concretamente, deverá ter presente as variáveis que hipoteticamente poderão estar na origem de perturbações anómalas à natural dinâmica da aula (factores endógenos e exógenos, facilitadores de registos de incidentes críticos).
O professor deve ser um transmissor de conhecimentos, debitar as matérias, mas também deve ser orientador e estar atento ao discente, dar-lhe as ferramentas para ele caminhar, ouvindo-o e aconselhando-o, deixá-lo ir à decoberta, ser um Amigo, companheiro lado a lado, na responsabilidade partilhada. O professor é alguém que corrige e orienta os desvios do caminho a trilhar, o rumo para atingir a meta e alcançar o sucesso educativo no processo de ensino-aprendizagem. O professor é o estratega da relação humana da bipessoalidade /unipessoalidade convergente(s) no final do processo educativo.
Deve criar no aluno o espírito de participação activa, de trabalho e estudo, de exercício da memória e raciocínio, e de exigência no limite. Ajudando-o a desenvolver a argúcia do sentido crítico, exponenciando as potencialidades próprias. O docente será assim o orientador-animador do processo educativo emergente. Com a experiência que tem e Mestre que é, tem a Autoridade do Saber. Com sagacidade, impõe no aluno o caminho da descoberta do saber em construção. Faz acontecer a sinapse intelectual.
O professor tem de ter presente que trabalha com material humano. Quando ensina na sala de aula(s) está a falar para pessoas diferentes, com vocações pessoais, motivações e presenças de espírito muito díspares. O seu discurso terá forçosamente de esforçar-se por/para captar as atenções de todos, sendo um incentivo cativante. Tendo uma dialéctica prolixa q.b., recorrendo a estratagemas retóricos (a palavra, entoação, eloquência da oratória, linguagem gestual, gestos e movimentos corporais, e a assertividade das mãos).
E porquê?!
Porque o professor deverá estar consciente da diversidade e individualização do, no, e para o acto pedagógico de educar e ensinar. O todo da sala de aula(s) é constituído por partes e momentos bem diferentes em cada Eu. Atendendo a este facto, o professor poderá ter de possuir uma maleabilidade intelectual suficiente que lhe permita dar diferentes explicações, no sentido de cada vez mais lúcidas, visando a meta da aprendizagem. O ensino terá de ser diversificado (com diferentes exemplos, perspectivas, abordagens) e individualizado (considerando que cada educando é objecto e alvo de particular atenção por parte do educador; pedagogo adaptante, com “coisa” latente e em preparação, a fazer lembrar a crisálida). Preparar para a vida, o trabalho e a sociedade.
Esta metodologia irá permitir o emergir da real e verdadeira personalidade da pessoa humana em concreto, afirmando as suas capacidades ao máximo. A própria formação do carácter terá a ver com uma análise per si e não global – um imperativo da educação, da pedagogia, é o binómio transformação/evolução no processo de ensino-aprendizagem.
O professor deverá levar o educando a discernir, questionando entre a qualidade/quantidade e o Ser/ter, ensinando na perspectiva de levar este a privilegiar o que realmente e de facto interessa – a qualidade e o Ser. Tudo com auto-disciplina e abandonado o ego. O primeiro terá de mostrar ao segundo a selectividade na atenção prestada às matérias/valores/ideias/mensagens e informações públicas, considerados e hierarquizados. Dar-lhe uma óptica crítica, isto é, levar o aluno a desenvolver a sua capacidade de raciocínio, contraditório, análise, tese, antítese, síntese e crítica fundamentada. A auto-obrigatoriedade responsável e auto-disciplina. A argúcia do sentido e espírito crítico e perspicaz.
O professor deve criar um ambiente de agradável exigência e responsabilidade relacional. Fazer com que os estudantes vão assistir às aulas, não por obrigação nem imposição do sistema educativo (com a tradicional falta a sancionar) mas por prazer, fruição e motivação pessoal genuína em querer; por um querer em aprender, em reflectir, em discutir, em descobrir. Impôr no outro a autoridade e o respeito pela excelência do dom da palavra e do saber e sabedoria científica, pedagógica e didáctica.
Aliar conhecimento e inovação telemática/tecnológica q.b. Por vezes, para desanuviar, recorrerá até à salutar piada, anedota, brincadeira e comentário de ocasião, libertando tensões. Para manter a capacidade de concentração, são importantes as pausas cirúrgicas e os intervalos lúdicos.
Impossível na escola moderna, actual, com a falta de tempo lectivo, exíguo, com inequívoco prejuízo para os alunos.
O professor, actor que representa no “drama” da sala de aula.
O professor, enquanto profissional com ética deontológica, conhecedor dos meândros do ensino/educação, mais que um Mestre, é um pedagogo, mostrando que sabe e que sabe mais do que o que mostra e demonstra saber, não se limitando ao(s) programa(s), preparando para a vida em sociedade, com exemplos práticos, qual fazedor de cidadãos auto-responsáveis, críticos, interventivos na sociedade, realizados e felizes como pessoa humana.
Das considerações que fizemos, uma ilacção nos parece ser importante salientar. O professor, ao ser responsável pelo outro (alunos) e ao formar pessoas para a cidadania (discentes), realiza a sua/do outro humanitas. O objectivo dos objectivos. A plena realização da essencialidade humana, consumadas nas Ideias de Bem e Felicidade.
Donde, o professor sabe(r) que o aluno médio é uma abstracção intelectual, aberrante e utópica. Não existe. Cada aluno é uma pessoa humana em concreto, única, diferente, com valor e capacidades que precisam ser exponenciadas ao máximo, com a mais valia do processo de ensino-aprendizagem.
Na Escola Pública modernaça de hoje, tal não é possível, por perda da essencialidade docente lectiva e de trabalho directo com os alunos, em detrimento da moda dos projectos, experiências ensaiadas e lixo sucateiro redundante burocrático aos montes.
As interacções sociais na organização Escola. A Escola Pública.
A Escola é uma organização onde as relações humanas devem ser privilegiadas. A excelência do contacto humano desenvolve-se no espaço de interacção que é a escola. A condição relacional é assumida e desenvolvida pelos diferentes actores da organização: professores, alunos, funcionários, pais e encarregados de educação; cada um interage com o outro, os outros, todos com todos – Comunidade Educativa.
Cada escola está inserida num determinado meio envolvente, havendo interacções com a comunidade educativa. O professor, uma parte do todo, pode e deve assumir o desempenho de um papel dinâmico ao nível das relações humanas na escola e na comunidade. O que cada vez mais justifica a razão de ser do professor enquanto profissional é a relação humana, a empatia e responsabilidade pelo outro, o aluno. “De facto, o professor é, sobretudo, um profissional da relação. Ser professor é ser capaz de interacção com os outros”. (Manuela Teixeira, 1995, p.161). Segundo Teixeira (op. cit., p. 162), “(…) é relevante que o professor desenvolva o seu Ser profissional como Ser de relação”.
O clima, o contexto, as vivências da organização pelos diferentes actores, resulta de percepções subjectivas. Um relativismo enfatizado e interpretado pela experiência pessoal per si, caso a caso. As imagens, positivas versus negativas variam consoante a realidade intrínseca de cada pessoa humana enquanto sujeito e Eu, situado na organização. Podem ser positivas ou negativas, desmotivantes ou motivadoras. “(…) Nas escolas em que existe um sentido de partilha e de cooperação, hábitos de trabalho em comum, espírito de equipa, existe também, maior motivação dos diversos actores do processo educativo e maior satisfação no trabalho”. (ibidem., p. 166).
Para Teixeira (op. cit., p. 167), “(…) as imagens que os professores têm da escola apresentam uma relação muito significativa com o modo como afirmam implicar-se na acção colectiva; ou seja, o clima parece influenciar as interacções escolares”. Na organização escolar, os actores ao intervirem estão a interagir com uma intencionalidade contextualizada à realidade de cada escola. “(…) Intervir numa escola é interagir com pessoas, situadas num contexto determinado, sujeitos a regras de jogo específicas e cujos comportamentos têm de ser referidos à intencionalidade que lhe está subjacente”. (Alves Pinto, 1995, p. 146).
Para Alves Pinto (op. cit., p. 148), “A escola é um sistema concreto de interacção, de trocas sociais, na medida em que é um sistema de interacção caracterizado pela singularidade”. A escola, ao ser uma organização é um espaço de interacções, de trocas sociais, de relações humanas, socializa intervindo, educando e formando para a vida em sociedade e para a cidadania. Sendo o professor, único, determinante e decisivo para concretizar, inovar e transformar.
No jornal Público, no artigo de opinião intitulado: “Obrigado, professores”, António Nóvoa, defende que: “Os professores são decisivos para o nosso presente e para o nosso futuro. Nada os pode substituir. A transformação da Educação começa com os professores. Merecem o nosso respeito e gratidão”. (António Nóvoa, in Público, 7/1/23).
O professor, no exercício da docência, deve actuar nas margens do sistema, no limite, ter a consciência de uma socialização enriquecedora a nível cognitivo e afectivo, dentro de uma liberdade aprisionada. O professor, um actor mutatis mutandis no “cenário/drama” da sala de aula, arquitecto criador de cabeças axiologicamente bem feitas.
Dito e reflectido tudo isto, é miserável o poder político presente e presentemente em Portugal, não acarinhar, não tornar atractiva e não valorizar a profissão docente. Tem a mais absoluta e total repulsa e rejeição dos educadores e professores portugueses, pela imbecilidade ridícula intolerável das políticas/não políticas para o sector da Educação, e propostas/não propostas que ofendem a dignidade de todo o professorado. Haja seriedade negocial limpa. Haja vontade política e honra.
Disse.
Rematamos com alguns pensamentos que são máximas para a vida hoje:
“Aquilo que não nos mata torna-nos mais fortes” (Nietzsche)
“E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos pelos que não podiam ouvir a música”. (Nietzsche)
“Sem música a vida seria um erro”. (Nietzsche)
“A serpente que não pode mudar de pele deve morrer. Assim como as mentes que são impedidas de mudar de opinião; elas deixam de ser mentes”. (Nietzsche)
“Os tempos são fortes e a hora é grande” (Saint-Jonh Perse)
“A agonia final do nascimento do Homem, ou da sua morte, começou”. (T.E.Bearden)
“O nosso tempo encontra-se no mais profundo da noite do mundo e da penúria”. (M.Heidegger)
“Aqueles que não conseguem recordar-se da experiência estão condenados a repeti-la”. (Santayana)
“O juízo axiológico obriga à ética de responsabilidade pelo outro”.(Carlos Calixto)
“O que segue a justiça e a bondade achará a vida, a justiça e a honra”. (Bíblia Sagrada, Livro de Provérbios, capítulo 21, versículo 21)
Nota: professor que escreve de acordo com a antiga ortografia.
CCX.