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Mensagem a André Pestana, “olhos nos olhos”…

Mensagem a André Pestana, “olhos nos olhos”…

 

Só “conheço” André Pestana das Manifestações e de o ler ou ouvir, quando algumas declarações suas são divulgadas pela Comunicação Social…

 Ainda, assim, este texto talvez possa ser um elogio explícito e descomplexado a André Pestana e ao que ele representa no momento actual para os profissionais de Educação, de um modo geral, mas também será, seguramente, uma exortação à sua sensatez e coerência…

 Com toda a franqueza, começa a ser fastidioso o discurso, propositadamente alarmista, acerca do presumível “perigo” que significará o “endeusamento” da imagem de André Pestana e o “culto de personalidade” que, supostamente, estará a desenvolver-se, em seu redor…

 O conceito de “culto de personalidade” pressupõe a existência de uma estratégia, intencional e concertada, de propaganda partidária, que vise a apologia e a exaltação das virtudes de um determinado líder, atributos esses, que tanto poderão ser reais como fictícios…

 Esse elogio excessivo também costuma prever o recurso aos mais diversos meios de divulgação e a campanhas articuladas, com o objectivo de difundir e “vender” uma determinada imagem, porventura, até, infundada, fraudulenta e enganadora…

 A Comunicação Social é, por vezes, utilizada com essa finalidade…

 O exemplo mais paradigmático desse tipo de “campanhas positivas”, a favor de alguém e das suas conveniências, talvez possa ser ilustrado pela forma, escandalosamente acrítica, benevolente e condescendente, como José Sócrates foi tratado nos primeiros anos da sua governação…

 Ora no caso de André Pestana, não parece que exista alguma campanha de propaganda partidária, montada com o objectivo de fazer o seu elogio e enaltecimento… E também não parece que a Comunicação Social esteja a prestar-lhe tal serviço, antes pelo contrário…

Notoriamente, em alguns momentos, as declarações de André Pestana foram preteridas, em função das de outros indefectíveis, tidos como ilustres e “anciãos” sindicalistas…

 André Pestana será, por vezes, encarado com a desconfiança de quem é visto como um “outsider” no sector do sindicalismo da Educação, por alguma Comunicação Social, que nem sempre lhe concede o devido protagonismo…

 O facto de André Pestana colher muitas simpatias junto dos profissionais de Educação e de conseguir capitalizar uma significativa adesão às iniciativas por si propostas, não significa que tal se deva a uma concertada estratégia de propaganda, como alguns parecem querer afirmar…

 Os restantes Sindicatos da Educação tiveram uma entrada titubeante na presente luta, sempre a “correr atrás dos prejuízos” causados por André Pestana/STOP…

 Como exemplo disso, na primeira reacção à Greve por tempo indeterminado convocada pelo STOP, a maior Federação de Sindicatos da Educação, a FENPROF, considerou que aquele não era o momento adequado para se convocar uma Greve, com a justificação de que ainda estavam a decorrer negociações com o Ministério da Educação…

 Contudo, e passados poucos dias, os mesmos Sindicatos que tinham considerado a Greve convocada pelo STOP como intempestiva e injustificada, acabaram por também convocar Greves parciais por Distrito e até anteciparam para Fevereiro uma Manifestação, inicialmente prevista somente para o mês de Março…

 Mário Nogueira, que agora já “fala alto”, estava remetido ao quase silêncio, há praticamente sete anos…

 Não vejo André Pestana como um “Messias” ou como um “Herói” e não lhe atribuo as supostas virtudes de um “Santo”, mas reconheço-lhe o mérito inegável de ter conseguido dar voz, audível e visível, às inquietações e ao mal-estar dos profissionais de Educação…

 E também lhe reconheço a virtude de ter conseguido quebrar a hegemonia de um Sindicalismo assaz mofoso, previsível e artificial, coreograficamente bem encenado…

 Queira-se ou não, André Pestana tem uma figura simpática e despretensiosa e a simplicidade com que se apresenta tem cativado muitos Docentes e Não Docentes…

 No fundo, muitos profissionais de Educação olharam para André Pestana e reconheceram nele “um como eles”…

 André Pestana tem afirmado uma nova forma de sindicalismo: tem conseguido que todos os que defendem a Escola Pública se sintam acolhidos na presente luta, independentemente das respectivas convicções partidárias e de serem ou não sindicalizados…

 Mas tal não significa que não existam convicções partidárias… Certamente que as haverá, tanto da parte de André Pestana, como de muitos outros profissionais de Educação, mas isso não se tem sentido ou traduzido em termos de intolerância ou de impedimento da união numa luta comum…

 Acaso existem registos de alguma forma de intolerância ou de condicionante, em função de eventuais convicções partidárias discordantes?

 Defender que André Pestana e o STOP se constituem como um grupo de potenciais lunáticos, pretensamente manipuladores, ou como uma espécie de “seita” dominada por interesses “ocultos” e altamente perniciosos e perversos é, em primeiro lugar, desconsiderar e desrespeitar os muitos profissionais de Educação que têm demonstrado a sua disponibilidade para aderir às iniciativas desse Sindicato…

 Se os profissionais de Educação vierem a sentir que estão a ser instrumentalizados e que o seu descontentamento possa estar a ser aproveitado com fins meramente partidários saberão, com certeza, dar uma resposta adequada a essa eventual baixeza…

 Aconteça o que acontecer, André Pestana já conseguiu o feito histórico de levar muitos profissionais de Educação a contrariar esta “fatalidade”, tão portuguesa:  

Somos, socialmente, uma colectividade pacífica de revoltados” (Miguel Torga)…

 Estamos genuinamente revoltados, mas já demonstrámos que não estamos dispostos a continuar a ser pacíficos ou a ceder e isso, em grande parte, deve-se ao líder do STOP…

 E André Pestana saberá negociar ou terá uma estratégia de negociação eficaz? Pois, talvez não saiba e talvez não tenha…

 Talvez lhe falte essa experiência, ainda que, no caso presente, nem os “melhores negociadores do mundo” conseguiriam, por certo, fazer face à má-fé, à arrogância e à deslealdade institucional, evidenciadas por esta Tutela, ao longo das muitas rondas negociais…

 Mas, e ainda assim, André Pestana tem uma energia contagiante e um carisma natural, que uns têm e outros não…

 E bastou-lhe isso para conseguir mobilizar a maior parte dos profissionais de Educação contra o desrespeito e a humilhação de que vinham a ser alvo, propiciando a sua união e levando, até, uma parte significativa do próprio país a solidarizar-se com essa realidade revoltante…

 Quanto a isso, os restantes Sindicatos pouco ou nada poderão fazer… É difícil mostrar aquilo que não se tem…

 André Pestana é alguém que, no momento certo, teve a coragem necessária para agir e avançar contra o marasmo em que se encontrava a maior parte dos profissionais de Educação…

 No dia 17 de Dezembro de 2022 ocorreu a primeira Manifestação Nacional em Lisboa promovida pelo STOP…

 Nesse dia, foi notória e perceptível a surpresa do próprio André Pestana perante uma adesão tão significativa dos profissionais de Educação…

Agradeço a sua coragem e a sua capacidade de mobilização, e tudo o que, entretanto, ajudou a conquistar, mas também lhe deixo esta franca e despretensiosa sugestão, “olhos nos olhos”, porque a frontalidade também é isso:

 – Não desbarate, por favor, toda a força da união já conquistada e não caia na tentação de apegar a presente luta a agendas partidárias, explícitas ou dissimuladas…

 – Não defraude as expectativas e a confiança, depositadas em si, por milhares de profissionais de Educação… E, sim, o número aqui importa…

 – O pior que poderá acontecer será, de alguma forma, acabar por conceder argumentos àqueles que, neste momento, parecem esforçar-se por lançar boatos e ataques torpes, próximos da “intriga palaciana”, talvez fundados em plausíveis ressabiamentos pessoais e na procura de protagonismo…

 – Os profissionais de Educação estão saturados de traições e de serem “rasteirados”, por superiores hierárquicos, por alguns pares, por Sindicatos e pelo Ministério da Educação, e dificilmente suportariam ou perdoariam mais uma atroz deslealdade…

 – Remetendo para Abraham Lincoln, esta deve continuar a ser uma luta de Pessoas, pelas Pessoas e para as Pessoas, como o próprio André Pestana parece ter defendido desde o início…

 – Não deixe que isso se estrague ou se adultere…

 – E não se esqueça do ensinamento dado pela Raposa ao Principezinho: “Passas a ser responsável por aquilo que cativaste” (Saint-Exupéry).

 

(Paula Dias)