Na rua, ao anoitecer, o vento glacial de inverno rodopia pelo meio de uma multidão de professores que empenha cartazes e grita slogans, fustigando-os, como se testando a sua resiliência, na tentativa de os desmobilizar. Lá em cima, numa das muitas janelas de luz acesa, aproveita-se o momento sagrado em família – a janta.
A mãe senta-se à mesa de jantar e anuncia – Escuta, Gregório, o nosso tesourinho já consegue ler. – Vira-se para a princesinha e encoraja-a – Vá Juju, mostra ao papá. – O rebento, embevecido, soletrando e tropeçando nas palavras que não compreende, lá conseguiu ler a manchete do jornal que o pai segurava nas mãos:
“TAP RECUSA DIVULGAR INDEMNIZAÇÕES A EX-ADMINISTRADORES – São mais de 20 os administradores e diretores convidados a sair de empresas do grupo TAP que receberam indemnizações milionárias.”
– Ó, que dia memorável! – rejubila o pai, prosseguindo – Sempre disse que a nossa menina era um prodígio!
O irmão, quatro anos mais velho, carente de atenção, procura exibir os seus dotes na leitura verbalizando o que lê no seu smartphone – Fernando Medina, ministro das Finanças, a empenhar-se em fazer passar a mensagem de que “O país não tem só professores”. – O pai, anota – Se soubesses inglês tão bem como português, isso é que era! – A mãe corre em sua defesa – Se não fosse a professora ter feito três dias de greve, o nosso menino até tirava um excelente. Vê como ele mexe bem no telemóvel. Anda sempre a praticar. Não sei com é que a professora de TIC só lhe deu um três…!?
A filha mais velha, interrompe – Eu também não tenho culpa de não perceber népia de Matemática. Não tenho professor desde o início do ano!
Do televisor, que até então tinha estado a falar sozinho, o grito orgástico da locutora irrompe pela mesa de jantar perante o olhar atónito de todos, soando pelo ar como se anunciasse o fim do mundo – O ministro das Infraestruturas, João Galamba, acaba de afirmar que “o Estado é pessoa de bem” e vai cumprir o que foi acordado relativamente ao bónus da presidente da TAP. Afinal, são 3 milhões… – O pai aproveita para passar uma lição de moral aos filhos, antes que estes voltem o olhar para os equipamentos digitais que os acompanham para todo o lado – Veem, cumprir a palavra é a coisa mais importante que deus deu ao homem. Ética e honra é isto!
A pivô prossegue, informando – Mais outra secretária de estado envolvida num escândalo financeiro… – muda-se de canal e a máquina falante berra – … secretária de Estado do Tesouro que recebeu meio milhão de euros de indemnização… – o botão mágico é acionado e a melodia é a mesma – … ex-ministro, afinal, lembra-se de ter sido informado, pelo WhatsApp… – e noutra emissão – … meio milhão gasto numa frota de luxo para as chefias, é substituído por voucher-Uber de 450€ para administradores da TAP… – mudada a emissora, o televisor não dá tréguas e – … buscas na câmara voltam a pôr em causa Fernando Medina… – a pequena Juzuzinha, larga por momentos os seu tablet e, na inocência dos seus seis anitos, pergunta – Papá, tudo isto que vimos, também é ética e honra? – Em silêncio, o progenitor apressa-se em despachar o zapping que estaciona numa manifestação de professores, onde uma docente revoltada se queixa – Já que o Estado se autointitula “pessoa de bem” que honra os seus compromissos de milhões em prémios e indemnizações, então que cumpra os acordos que assinou com os professores e lhes pague os 6 anos, 6 meses e 23 dias de serviço prestado que lhes foram roubados. – Visivelmente arreliado, o pai muda de canal, vociferando – Estes professores e o seu corrilho de disparates, sempre a pedirem dinheiro! Se fossem trabalhar…!
A filha mais velha discorda – A stora de EV disse que há dinheiro para tudo e para todos, menos para os professores… – A mãe, surpreendida, averigua – Quando é que ouviste isso? – A filha conclui – Há pouco, ali em baixo na rua, durante a greve, enquanto se manifestavam… – A mãe explode, quase dando-lhe um chelique – Não me digas que te juntaste a essa gente?! – Noutra estação, a arte noticiosa de contar brota pelo meio da conversa – Marcelo justifica não ter recebido os professores na manifestação que juntou cerca de cem mil em Belém, argumentando não querer causar ruído nas negociações entre sindicatos e governo. – O telecomando volta a ser acionado e, com o dedo lesto no gatinho, a emissão passa para outra estação que anuncia – Continua a polémica sobre os milhões de euros que custará o palco para a receção da Jornada da Juventude. – A mãe rejubila – Não sou jovem, mas irei. Ah, que alegria que sinto… –, mas do ecrã gigante, a voz continua – Marcelo disponibiliza-se para servir de intermediário entre autarquia, igreja e o governo… – e a matriarca, comenta – Más-línguas! O que nos vale é o nosso presidente, que está sempre em cima de tudo o que é importante! – Mas a jornalista, acrescenta – Recordamos as palavras do presidente em 2019. “Conseguimos, conseguimos, Portugal, Lisboa! Esperávamos, desejávamos, conseguimos! Vitória! Vitória, obviamente de Portugal…”
O pai, orgulhoso, bate no peito – Somos os maiores! Mais uma vitória. Amanhã até vou sentir que tenho mais um palmo de altura!
O jantar prossegue e a novela, a bola e os shows em direto, distribuindo gratuitamente todo o género de brutificação intelectual, pressagiam um serão bem passado, gentilmente disponibilizados pela indústria do entretenimento para desligar a consciência. Na mesa de jantar, nada mais há a dizer acerca dos professores, pelo menos até amanhã, quando for hora de despejar os rebentos no espaço destinado aos guardadores de crianças. Os pais já podem voltar a dormir descansados, uma vez que o depósito de crianças, por decreto, voltou a estar de portas abertas.
A rua deserta tornou-se silêncio sobre uma Educação mergulhada numa total escuridão.
Lá de cima, ainda se ouve a voz abafada do pai a barafustar – Finalmente calaram-se! Estava farto de os ouvir! Francamente, não consigo entender o quê que os professores querem?!
À janela, a pequena Juju exercita a leitura, lendo em voz alta a palavra escrita num cartaz esquecido na calçada – “RESPEITO”!
Carlos Santos