Blog DeAr Lindo

“Vou fazer greve. E que digo aos pais?”

Primeiro, realmente, realmente, não têm de lhes dizer nada. Nem eles têm direito legal (ou até moral) de lhes exigir explicações ou criticar abordando em público (à porta da escola ou seja onde for).
Na verdade, se se casarem e tirarem os dias para isso, não lhes vão explicar os vossos critérios para escolha de noivo/a. Ou vão deixar de casar se eles protestarem?
Do mesmo modo, se estiverem doentes não vão justificar aos pais, mas ao serviço. Só lhes dizem a doença, se quiserem.
E se estiverem de luto, não vão dizer aos pais como o luto se justifica nas vossas emoções.
E se tem boa relação com eles, têm é de entender a lógica jurídica da situação.
Vejo muitos liberais individualistas recentes que não entendem isto: fazer greve é um direito individual tão forte na Constituição, como a propriedade ou a liberdade de expressão, que se justifica pelo pré-aviso e não precisa de mais explicações a mais ninguém. É a lei.
A greve é um motivo para faltar tão “natural” como outros. Até é protegido legalmente, de forma especial, precisamente por causar animosidade e porque, no passado, foi perseguido.
Esse é um dos motivos que me levam a ser radical nisto: houve gente enforcada para eu ter estes direitos. Fazer greve sem medos é honrá-los.
Ninguém questiona o luto de ninguém, mas, neste país amorfo, que mesmo quando fica debaixo de água, só se lamenta e pouco protesta, toda a gente acha que pode mandar bocas e ofender quem exerce um outro direito constitucional.
A greve não é contra o país ou contra os pais, muito menos contra as crianças. A greve é um ato desesperado, limite, quando se percebe (no caso dos professores, num acumulado de décadas) que não há outra solução.
É contra o Governo porque está a governar mal a situação dos professores.
E, se os pais forem daqueles reaccionários e fascistoides, que acham que a greve devia ser ilegal e proibida, é virar costas.
Se forem daqueles que estimamos, na face pessoal, e têm abertura ao diálogo, até podem mostrar este número do RAP, em que alguém explicava muito boas razões, que eu perfilho, para fazer greve já. (Pena que esse alguém, com taticismo político-partidario deslocado, tenha desistido da luta).
Mas sempre podem perguntar, tentando a pedagogia, como alguém fazia há dias, “se o vosso filho merecer 5 e tiver 4 por causa de “quotas”, ou se for travado na transição de ano (“chumbado”), por não haver vagas na turma do ano seguinte, achavam bem? E ficavam quietos?”
“E se for colocado numa escola qualquer com base em critérios à balda?”
Eu diria aos pais: “pagam impostos para ter uma escola de qualidade. Porque é que os administradores da coisa pública, que escolheram, atacam e prejudicam os professores que a fazem?”
Ou acham que essa coisa dos robots escolares têm algum futuro? Esses não vão fazer greve, mas é capaz de por agora não ter muito jeito.
Luís Sottomaior Braga