“Um dia irei acordar a meio da noite
invadid@ de profunda tristeza e,
só então irei dar-me conta do que é
estar deitad@ ao lado da solidão
a um mundo de distância de ti…”
Ainda povoa o meu pensamento aquele dia em que muitos foram torturados por aqueles que convidavam os professores a saírem da sua «zona de conforto» e emigrarem. Hoje, como sempre, prevalece a ideia de que eles têm de ter um espírito de missão e aceitar ir para escolas a dezenas ou centenas de quilómetros dos seus lares durante os anos que forem necessários à causa pública.
A todas essas pessoas da nossa sociedade que invejam uma vida de professor que consideram pouco exigente, bem paga, com muitos benefícios, que tirem o curso e se candidatem à profissão para também poderem usufruir dessas tais facilidades de que falam. Que se sujeitem a esses confortos com “a casa às costas”, com os filhos atrás ou compelidos a abandonar a família. Por algum motivo existe um reduzido número de novos candidatos à profissão, demonstrando o desinteresse das pessoas em “calçar os sapatos dos docentes”.
Muitos daqueles que tanto esquadrinham as suas vidas e os expõem a uma infinita galeria de censura, nunca se deram ao trabalho de tirar um curso e os que tiraram uma formação superior não se submetem aos sacrifícios por que têm de passar os professores. Não o fazem nem querem fazer, pois muitos são os que não aceitam ofertas de emprego longe de sua casa e, muitos outros, nem sequer emprego que não lhe interesse por ser mais rentável e cómodo ficar em casa. Não creio que seja necessário dar muito crédito às palavras de quantos criticam a classe docente, mas que a sua zona de conforto é a sua terra e, de preferência, sem necessidade de percorrer uma grande distância para ir para o trabalho, enquanto não se escandalizam com o facto de a zona de conforto dos professores se estender de norte a sul do país até às ilhas.
Todos lhes apontam o dedo, mas ninguém quer a sua profissão, nem o árduo trabalho, nem fazer sacríficos que os prejudiquem a si e às suas famílias. Nesta terra, toda a gente tem direito a uma zona de conforto que propicie o tão necessário aumento da natalidade, menos os professores.
Quanto à classe política, assim que são eleitos, são imediatamente recompensados com diversificadas ajudas de custo, de alojamento e de deslocação (já para não falar daqueles que mentem sobre o seu local de residência para extorquir numerário ao erário público). Só aos docentes lhes é exigido que tenham viatura própria para se deslocarem diariamente para poderem trabalhar ou a arrendem casa a centenas de quilómetros do seu domicílio não tendo direito a nenhum subsídio nem apoio. Mas para que a classe política possa ter a sua zona de conforto, corta-se nas verbas para a Educação.
Na realidade, o que sabem eles deste e de outros desconfortos dos profissionais da educação?
O que sabem sobre tantos sacrifícios e incómodos pelos quais têm de passar para exercerem a sua profissão?
O que sabem eles dos horários de trabalho que não têm um lugar, um dia ou hora para cumprir, pois invadem constantemente a privacidade do seu lar?
O que sabem eles de todas essas zonas de conforto reservadas aos professores que mais ninguém quer?
O que sabem eles, afinal, do que é ser professor?
Só mesmo a ignorância e o hábito da maledicência os leva a que tanto asneirem; e o insinuam porque não sabem do que falam, uma vez que não o sentem na pele.
“Ao fim do dia, ao regressar à noite àquela cela onde vou cumprindo esta pena, a este quarto, este refúgio, esta alcova, a esta jaula invisível que se transformou num leito de solidões, prova viva de vidas desconjuntadas, encontro-me desprovid@ de tudo o que mais prezo.
Nas ocasiões em que me sinto tão só que me é impossível pôr sentimentos nas palavras, deixo-me levar por esse rio de lágrimas e deixo as palavras escorregarem dos sentimentos.
Então, um dia, talvez um dia…
Um dia irei acordar a meio da noite
e não estarei sozinh@.
Não te enviarei mais mensagens ou telefonemas
nem sentirei a tua falta ou vontade de chorar.
Porque nesse dia irei acordar a meio da noite
e estarás deitad@ a meu lado
e não a um mundo de distância.”
Carlos Santos