Há coisas estranhas e extraordinárias que parecem ultrapassar os limites da razoabilidade, na medida em que contrariam o que seria mais sensato, conveniente e oportuno…
Particularmente visível nos últimos dias, tem-se assistido a uma espécie de “guerrilha interna” instalada na Classe Docente, pautada por frequentes e, por vezes, intensas “escaramuças”:
Uns porque são contra os Professores mais novos, outros porque são contra os mais velhos; uns porque são contra Petições; outros porque são contra Concursos; uns porque são contra os Professores do Quadro, outros porque são contra os Contratados; uns porque são contra os Professores em final de Carreira, outros porque são contra os Professores no início da mesma; outros são contra apenas porque sim…
Nos últimos tempos, ser contra parece dominar grande parte das discussões sobre Educação, seja qual for o tema específico em apreço… E isso não significa que ter uma opinião é ser do contra, mesmo que esse ponto de vista seja discordante…
Isso significa que, muitas vezes, demasiadas vezes, se aproveita qualquer oportunidade para gerar desnecessárias polémicas e controvérsias e para se entrar no domínio da insensatez, do revanchismo e da personalização…
Em vez de unirem esforços contra quem efectivamente está na origem dos principais males endémicos que assolam a Classe Docente, sobretudo a Tutela e os seus cíclicos apaniguados, os Professores parecem perseguir no ensejo de encetar algumas lutas fratricidas, cujo resultado mais óbvio é a divisão insanável e permanente dessa classe profissional…
Há pouco mais de uma semana, por via das Eleições Legislativas, a Classe Docente teve uma oportunidade soberana para manifestar livremente todo o seu desagrado e indignação pelas políticas educativas emanadas pela Tutela…
Mas, e paradoxalmente, a maioria terá votado a favor da continuidade dessas políticas, manifestando, assim, uma explícita concordância face às mesmas…
Parecem revoltar-se agora, uns contra os outros, elegendo os próprios pares como “bodes expiatórios” de muita frustração e descontentamento…
Ora se censura os novos, ora se censura os velhos, ora se censura os que ganham mais ou os que ganham menos… E não se perde a oportunidade de pelejar, desde que seja contra alguma parte do grupo de pares, trazendo à lembrança aquele impiedoso e implacável aforismo: o pior inimigo de um Professor costuma ser outro Professor…
É muito mais fácil canalizar e dirigir a frustração para o grupo de pares do que lutar em uníssono por resolver os problemas que afectam a Classe Docente… Adia-se sistematicamente a resolução dos problemas de fundo que dizem respeito a todos e que afectam todos, e vai-se aliviando a frustração e a insatisfação daí decorrentes, fustigando os pares…
Luta-se muito contra “moinhos de vento” e inimigos imaginários, esgrimem-se muitos argumentos e contra-argumentos, mas as contestações oficiais e efectivamente válidas acabam por ser sempre tímidas, envergonhadas e aveludadas… Na realidade, não se avança para lado nenhum…
Como exemplo, há quantos anos se queixam os Professores acerca dos mecanismos de progressão na Carreira, dos salários e do actual Modelo de Administração e Gestão Escolar? Há muitos…
Quantas acções concretas foram empreendidas por si no sentido de pressionar a Tutela a efectuar as imprescindíveis alterações? Muito poucas e as que existiram não tiveram qualquer consequência visível, sobretudo por falta de adesão maciça dos próprios Professores…
Quando se trata de contestar em termos concretos, eis que surgem, quase sempre, as mais variadas justificações e entraves para não aderir e não o fazer…
O principal foco dos Professores, no que respeita a mostrar desagrado, parece ser conflituar entre si, sem ter em consideração o alcance do bem comum… Cada um por si e muito poucos por todos…
A luta contra quem manda (mal) nos desígnios da Educação pode esperar… Enquanto os Professores estiverem entretidos com quezílias internas, a Tutela bem pode continuar a mandar fazer o que muito bem lhe aprouver…
Como habitualmente, tudo passará e tudo acabará por ser aceite…
Mas as queixas e as lamúrias continuarão, subsistirão motivos para que a Classe Docente continue a reclamar e persistirá também o pensamento comiserativo de que o Mundo está contra si…
Mesmo que o Mundo esteja contra os Professores, o que têm feito os próprios, enquanto classe profissional, para contrariar esse revés? Que mostras de união, solidariedade e combatividade têm dado?
Em vez de se lutar por sanar o mal na sua origem, pretende-se, muitas vezes, remediar o que não tem remédio, assente na perspectiva do “distribuir o mal pelas aldeias”… “Maquilhar” o que não tem remédio é, na prática, aceitar o irremediável e consentir que não se erradique o mal de nenhuma aldeia…
A “cosmética” ajuda a disfarçar, mas não elimina as perversões nem os vícios instalados…
Na Classe Docente, parece prevalecer este tipo de pensamento: “Enquanto não for comigo, porque me hei-de preocupar?”…
Permitir que o mal afecte alguns, por acreditar que se está a salvo desses danos e que não se será atingido por eles, denota um pensamento dominado por uma certa ingenuidade e pela insensatez…
“Ah, insensatez, o que você fez?” (Insensatez, Tom Jobim).
(Matilde)