Entre o regresso, para uns, e a novidade, para outros, assiste-se por estes dias a um certo “estado de graça”, previsivelmente reinante na maior parte das escolas do país…
Como em quase todos os “regressos” e como em praticamente todas as “novidades”, paira no ar uma certa alegria e uma certa animação, típicas do entusiasmo de quem está prestes a encetar uma nova jornada, na mesma escola ou noutra diferente…
Muitos discursos de boas-vindas, muita simpatia, muitos sorrisos, muitas estratégias de integração, muita aparente benevolência e tolerância para com todos…
Mas os “estados de graça” costumam ser transitórios e efémeros e este também o será certamente… As benesses iniciais desvanecer-se-ão e tudo voltará a ser como antes, ou pior…
Em pouco tempo tudo mudará: a azáfama e a vertigem do dia-a-dia; a pressão para o cumprimento de inúmeras tarefas de natureza burocrática, muitas vezes de relevância duvidosa, mas quase sempre sobrepostas ao que realmente importa; ou a adaptação ao ritual dos velhos hábitos e das velhas rotinas, todos estarão de volta…
Estarão de volta, e porventura até, ainda mais marcantes e evidentes, expectável consequência da imensidão de Programas, Projectos, Roteiros, Guiões, Regulamentos e Receituários, inscritos no Plano de Recuperação das Aprendizagens 21/23 que cada escola tiver já elaborado ou que vier a elaborar…
A par disso, existirá todo um “cerimonial de evangelização”, no sentido de fazer acreditar que as “novas” fórmulas agora “descobertas” se constituirão como um remédio ou como uma mezinha infalível que tudo e todos “curará”… Desgraçadamente, não chegarão sequer a ser um placebo…
E é isto: dentro de pouco tempo, voltará a “normalidade”, perfeitamente anormal e falhada, em que está submersa grande parte das escolas…
O défice democrático não desapareceu…
As tarefas burocráticas em catadupa não desapareceram…
As injustiças, da mais variada ordem, não desapareceram…
A insanidade e o delírio não desapareceram…
A hipocrisia e a pantomima não desapareceram…
A indiferença e o alheamento não desapareceram…
Por seu lado, o Ministério da Educação continuará na senda da ilusão e da manipulação da opinião pública, coadjuvado pelo silêncio de muitos Directores… Aos profissionais de Educação continuará a ser exigido que façam sempre mais, com cada vez menos recursos, e que, de preferência, consigam ignorar as suas próprias vidas, assim como as pessoas que são significativas para si…
Em suma, as escolas continuarão a Funcionar, mas não a Viver…
Evitando o discurso, muitas vezes oco, do politicamente correcto: o próximo Ano Lectivo não vai ser bom para ninguém…
Conseguir Sobreviver, talvez seja o lema mais adequado… Nada mais do que isso: Sobreviver por nós e por aqueles que nos são próximos e que precisam da nossa atenção e da nossa presença… Tudo o resto são balelas e discursos para entreter…
Ter consciência da realidade é muitas vezes o melhor caminho para obstar à frustração e ao desânimo… E isso não significa ser pessimista ou “profeta da desgraça”…
(Matilde)