Blog DeAr Lindo

Pensamentos sobre a minha classe ao ver o Sol no meu terraço – Luís Braga

 

Acho muita graça a quem diz “precisamos que os sindicatos façam isto e aquilo”. “Era preciso unidade”. “Se fossemos todos?!.”

A propósito de quase tudo na carreira docente, ou na Add, ou nas questões das escolas, se ouve isso.
Acho graça e rio muito.
Para não chorar.

Alguns têm problemas, muito específicos e limitados a grupos pequenos e, em vez de confiarem na própria luta e ação, aceitam a sua diluição nos grandes temas sindicais, onde questões de 100, não subordinam negociações de milhares.

Publicam nas redes sociais frases bonitas, às vezes mal atribuídas, de Salgueiro Maia, Mandela, Churchill ou Gandhi (ou outros), mas esquecem que esses fizeram a diferença, não porque esperaram o contexto bom de unidade, mas porque agiram, mesmo isolados.

Salgueiro Maia teve medo e chegou a ter uma granada no bolso para o caso de ser derrotado. Mandela era minoritário e um “terrorista”, cujas ideias, antes de ser preso, eram mal vistas.
Um dos heróis da História foi o juiz que praticou o ato individual de não o condenar à morte, quebrando a unidade.
Churchill defendeu guerra a Hitler, quando a maioria unida queria negociar a rendição. E Gandhi começou a Marcha do Sal com umas dezenas de companheiros, que eram os que estavam disponíveis para levar porrada. Consequência que não ajudava muito à unidade.

Unidade é uma abstração. Agir é a questão.

Muitos dos que se queixam estes dias das vilanias das vagas do 5o e 7o escalões roeram há uns anos a corda à greve às avaliações, festejaram a “brilhante negociação”, que as criou para extinguir os titulares ou acharam boa ideia emprestar os seus bens pessoais, sem contrapartidas, para o madraço turista desportivo, que faz figura de ministro, não ter uma crise para gerir à vista do povo.

Há uns meses, foi lançada uma petição para ajudar a atacar a ADD pela via da discussão da sua falta de transparência. Não chegou às 2000 assinaturas.

Estes dias, anda meio mundo confiante na fantasia de que os sindicatos já têm tudo negociado com o governo para os problemas se resolverem no contexto eleitoral.
Fantasia delirante, como as queixas da UGT de que o governo não negoceia, ou os recursos do governo ao tribunal constitucional contra nós, provam.

Um sindicato lançou uma minuta para pedir acesso às avaliações dos concorrentes na quota e provocar uma crise de entupimento burocrático na avaliação. Quantos aderiram, dos que se lamentam e queixam para o ar?

Quantos dos que se queixam de ser avaliadores, ou terem de aplicar quotas nas SADD, que dizem, a bater no peito, ser imorais, já pensaram em simplesmente demitir-se?
Se fosse em massa, acham que o Governo podia gerir a coisa?
O governo inglês começou a achar o Gandhi uma ameaça quando percebeu que não podia prender todos os que o apoiavam. Nem tinha quem os prendesse.
E o governo Sul africano libertou Mandela, depois de anos de luta, porque eram milhões a agir individualmente a pedir a sua libertação.

Quando vejo os habitantes de Hong Kong a lutar pela liberdade contra o poderio chinês tenho tanta vergonha da minha classe profissional.

Quantos estão a reclamar das quotas? E aderiram a uma tentativa de atacar judicialmente a lista das vagas?

Quantos, dos que acham as quotas imorais, declararam prescindir de muito bons mesmo em risco de não subir? Se houvesse essa solidariedade, a ferramenta de salamização que os governos usam ficava inútil. Não se pode corromper com uma vantagem se todos a recusarem.

Muitos dirão, falar é fácil.
Estou no 4o escalão e já declarei que, quando for avaliado para o ano, não quero mais de Bom e que vou prescindir e requerer que, em caso algum, seja beneficiário da quota. Se é imoral e injusta, não quero o benefício.

Fui muito bom aluno toda a vida e acho que sou um pouco melhor que bom professor.
Mas esse “bom” que vou reclamar, mesmo que me tentem dar mais, vai ser a nota de que me vou orgulhar mais, de todas as que tirei.
Porque a minha solidariedade não se vende por 50 paus por mês.
E os 50 euros são roubados de muitas centenas que me vao ficar a dever e continuo a querer reaver.

E os que reivindicam unidade podiam começar o discurso por aí. Que pensam fazer naquilo em que agem por si?

Avaliador externo não posso ser e, se for, impugno a nomeação até ao limite legal.
E, quem me conhece, sabe como sou picuinhas para gerar um efeito desses.
E ensino a quem quiser, porque exige persistência.

E numa SADD não posso estar pois não sou coordenador (uma das razões porque aceitei ser subdiretor da minha escola foi por ser caminho para me afastar da execução da ADD dado que corria o risco de ser eleito coordenador).

Mas se estivesse numa SADD havia de entupir o ministério (e os tribunais e outras entidades) com requerimentos e dúvidas. Até à paralisia, mas dentro da lei.

Se há coisa que aprendi em 31 anos a lidar com a administração pública é como é fácil paralisá-la, dentro da lei, a quem tiver energia e conhecimento.
E como os boys dos gabinetes ficam à nora com coisas dessas bem feitas.

Essa é a única via que nos resta.
Já que os professores, classe aburguesada, apática e politicamente passiva, deram em não fazer greves, faltam às manifestações, ligam pouco a petições, acham a ação política pornográfica e esperam que alguém, ou um milagre, resolva o que só a sua ação pode mudar.
Porque somos tão passivos e estamos ainda parados?

A minha mãe dizia sempre:” fia-te na Virgem e não corras…”
Não temos corrido e milagres não se têm visto.