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Era manual versus Era digital – Carlos Santos

Até há anos atrás, nos concursos de professores, (épocas idas em que os boletins eram em papel) a análise/seleção era feita manualmente por pessoas e os resultados saem tardiamente.

Atualmente, nos concursos de professores, (na época digital) a análise/seleção é feita em pouco tempo por computadores e os resultados saem tardiamente.

Porque será?

Parece-me perverso que numa era informatizada em que computadores levam apenas algumas horas a processar os boletins de concursos dos professores, seja preciso esperar meses pelos resultados. Da pessoazinha que ministra a pasta da Educação, nada se sabe… deverá ser encontrada algures por aí em algum estádio da bola.

Mas este modus operandi, nada mais é do que uma mera prática de desgaste emocional, intencionalmente aplicada à classe docente, procurando causar-lhe excesso de ansiedade e de expectativa (quase sempre frustrada) para consumir os professores acabando com o pouco poder de resiliência que ainda têm.
Uma técnica de tortura psicológica que, a juntar ao cardápio que se tem acumulado ao longo dos últimos anos, contribui para o estado de elevado desgaste e bournout de uma classe que tem vindo a ser muito maltratada.

Se a esta etapa dos concursos juntarmos a publicação das listas de colocação da fase de mobilidade interna, que durante décadas tem saído apenas no final de agosto, obrigando professores e filhos a partirem de malas e bagagens para longe – onde ainda terão de procurar casa ou quarto, escola para os filhos e reorganizar as suas vidas – conseguimos perceber a falta de humanidade, de decência e de respeito com que nos têm tratado. Noutros países, os resultados saem nos primeiros dias de agosto, para que os professores possam ter umas férias descansadas. Por aqui, como fica claro, prevalece a desconsideração.
Gente que tem tratado deste modo os seus professores, não merece respeito.

Lamento ter de dizer isto, mas a nossa classe política, ao longo de décadas, tem demonstrado ser do mais medíocre que existe, tratando os professores e as respetivas famílias de forma desumana e humilhante.
Distribuíram manuais gratuitos e computadores para comprar pais e alunos (e, infelizmente, também alguns professores), e a classe profissional mais respeitada nos países evoluídos, neste canto, continua a ter trato abaixo de cão (com o imenso respeito que os canídeos me merecem).

Mas nada disto me espanta numa sociedade que, nos nossos dias, revela mais admiração por um pedante inútil, um mentiroso engalanado ou um corrupto aperaltado, do que por um detentor do conhecimento que vai resistindo como uma vela na escuridão.
Mas, enfim, o povo (e alguns professores) também se põe a jeito e deixa-se manipular facilmente em qualquer barata celebração da ignorância.
Lamento desapontar quem esperava que algo mudasse, mas com estadistas que se ocupam em promover a felicidade desta população ingénua com doses industriais de bola para a manter absorta – a qual não se importa em ser eternamente remediada e enganada – não é possível almejar nenhuma mudança para melhor para a classe docente.

Carlos Santos