[No regresso ao on line]
7 TWEETS PARA UMA JOVEM COLEGA
Inspirado nas “Cartas a um Jovem Poeta”, de Rilke, Agostinho da Silva escreveu um livro sobre pedagogia intitulado “Sete Cartas A Um Jovem Filósofo”. Nele, refletia sobre a função de professor e apresentava conselhos ao Luís, um jovem professor de Filosofia.
Uma vez que a proposta que me foi feita se inspira na ideia de manifesto, resolvi adotar um estilo assumidamente interpelador na forma de pequenos fragmentos, que, por analogia, designei tweets, e que são, num certo sentido, a forma que o discurso polémico e assertivo assume nos nossos dias.
Aqui fica, então, o meu contributo. Julgo fazer o que se espera que o filósofo faça: fazer pensar. Não esquecendo, contudo, as palavras sábias de Agostinho da Silva:
“Os meus conselhos devem servir para que você se lhes oponha. É possível que depois da oposição venha a pensar o mesmo que eu; mas nessa altura já o pensamento lhe pertence.”
1. Pensa. Mas não penses em ti, nem como costumas pensar. Pensa como os teus alunos. Quero que adivinhes as perguntas inseguras deles: fico com o nariz grande no ecrã? A minha voz vai soar ridícula? Tenho a t-shirt da minha banda preferida a lavar; que é que eu vou vestir? O meu cabelo estará bem? Queres que pare com as perguntas? Estás a sentir-te desconfortável? Perfeito. Agora já podes pensar no que vais fazer nas tuas aulas online.
2. Queres estratégias para impedir que os alunos saiam da sala sem tu dares conta? Estás a pensar estipular uma percentagem nas atitudes para isso? Esquece, isso não interessa para nada. A pergunta que tens de fazer é outra: o que devo fazer para que eles queiram estar na minha aula até ao fim?
3. Já reparaste que a maioria das tuas preocupações têm a ver com as dúvidas que tens quanto ao modo como vais avaliar os teus alunos? Para de pensar em como vais dar as notas, para de ter medo de errar, para de ter medo dos recursos dos pais. Mas, acima de tudo, para de pensar em ti e nas tuas avaliações. O objetivo da escola não são as notas que tu vais dar, são as aprendizagens que aos teus alunos vais proporcionar. Não interessa tanto a dificuldade em dar notas, mas sim a qualidade do que se aprende.
4. Eu não estaria tão orgulhoso do monte de fichas e atividades que já criaste para os alunos trabalharem autonomamente. Sim, claro que estão tecnicamente bem feitas: respeitam as Aprendizagens Essenciais, estão organizadas por competências e isso tudo. Mas a questão não é essa. Pensa comigo: se os alunos não têm hábitos de trabalho e precisam que lhes estejamos sempre a explicar o que têm de fazer (como se ouve dizer a toda a hora nos conselhos de turma), que sentido tem esperar que, agora que estão sozinhos em casa, vão superar tudo isso e compensar com trabalho autónomo as aulas que tu não vais poder dar? Repara nesta fórmula, digna de um filme: alunos excessivamente dependentes do professor + menos aulas + mais trabalho autónomo = aprendizagens bem-sucedidas. Sou só eu que vejo aqui a tentativa de encontrar a quadratura do círculo?
5. Tens à mão uma máquina de calcular? Sim, o telemóvel serve perfeitamente. Vamos somar o tempo que tu achas que os teus alunos demoram a resolver as fichas que lhes vais mandar para fazer durante a semana. Já está? Agora multiplica por 2. Sim, porque sem tu lá estares para ajudar eles vão demorar pelo menos o dobro do tempo. Acrescenta 1 hora (no mínimo) para os tempos mortos durante a realização das tarefas (ver o telemóvel, mandar sms, jogar um jogo, etc.). Já somaste tudo? Pois bem, é este o “Plano de Trabalho Semanal” em que te deves focar, não aquele todo xpto que o teu departamento aprovou para ser ratificado no conselho pedagógico.
6. Não, não estou só a dizer mal. Pediste-me que te ajudasse a pensar melhor as tuas aulas online e é isso que estou a tentar fazer. Mas, se é dicas que queres, também te dou algumas. Aqui vão elas, então.
A primeira tem a ver com as expetativas dos alunos face às aulas. Lembras-te de falarmos no receio que tens de eles saírem da aula e não ficarem até ao fim? Pois bem, faz como eu. (Sou um sortudo, não preciso disto com os meus alunos, faço-o pelo prazer que nos dá). Em cada aula, há um aluno que escolhe uma música segundo um critério pouco habitual (música que associamos a uma cor, por exemplo). É com essa música que terminamos a aula. Depois, quem escolheu diz quem vai escolher para a próxima aula e indica também o critério (música que te faz lembrar a infância, por exemplo). E assim sucessivamente…
A segunda dica tem a ver com a avaliação dos alunos, que tanto te preocupa. Queres diversificar e queres que os instrumentos que substituem os testes sumativos que não vais poder fazer sejam credíveis? Estás preocupada porque tens cento e tal alunos (como no meu caso)? Olha, eu estou a pensar fazer perguntas sobre diferentes competências em algumas das aulas síncronas e eles têm 2 minutos para me responder via WhatsApp com mensagem de voz. Eu depois ouço uma a uma e atribuo uma classificação. Tudo deve ser avaliado, mas nem tudo tem de ser avaliado através da escrita, certo? Além do mais, explicar oralmente as nossas ideias com clareza é fundamental. Mesmo os alunos mais céticos acabarão por reconhecer isso, que mais não seja quando tiverem a primeira entrevista de emprego…
Terceira dica: envolve as famílias. Eles estão em casa, é uma excelente oportunidade para envolver os pais, os irmãos e os avós nas suas aprendizagens. Em Filosofia, um exemplo clássico é o dilema do trólei, que normalmente se refere nas aulas de Ética. Desviar o trólei e matar 5 pessoas para salvar 50: sim ou não? Quando, na aula, discutirem o assunto, não serão apenas os teus alunos que estarão lá: serão eles e a riqueza de um debate filosófico improvável que juntou a família ao serão…
Quarta e última dica, esta relacionada com a manutenção dos laços afetivos e a entreajuda. Diz-lhes que criem pares pedagógicos para estudarem online em rede. Como as alcateias: os lobos não deixam ninguém para trás. Estão relutantes, talvez porque receiam que lhes “calhe” um colega que não conhecem ainda muito bem? Cria uma tarefa sobre uma competência mais subtil (raciocínio lógico, por exemplo) com 2 perguntas e 2 momentos: responder à pergunta e avaliar a resposta do colega, com base nos descritores previamente fornecidos por ti. Uma coisa simples, tipo avaliar de 1 a 5. A tarefa conjunta de ambos é, depois, enviada para ti, que a avalias também de 1 a 5. Até podes assumir que a classificação final será uma síntese entre a tua avaliação e a deles. Sim, os alunos podem e devem intervir no processo de avaliação. Já agora, eles são normalmente justos, muitas vezes até bem menos generosos do que nós.
7. Para finalizar: ouve os teus alunos antes de tomares as decisões sobre as adaptações aos critérios e instrumentos de avaliação. Apresenta-lhes as tuas ideias e pede-lhes que te digam as deles. Faz perguntas concretas e intuitivas como: o que sugerem para substituir a avaliação da competência x ou y que fazemos habitualmente nos testes? Eu vou fazer isso antes da reunião do grupo disciplinar para tomarmos esta semana decisões nessa área. Não faz qualquer sentido deixar de fora deste processo os alunos do secundário, pelo menos.
Vê bem: se há momento histórico e profissional em que estamos mais próximos dos nossos alunos e mais necessário se torna pensarmos em conjunto em estratégias para enfrentar uma situação completamente nova para todos – esse momento é precisamente este.
Não me perdoaria se não aproveitasse esta oportunidade para desaprender das ideias feitas e renovar-me pedagogicamente com a ajuda dos meus alunos.
O Futuro pertence-nos e começa a desenhar-se hoje.
*Professor de Filosofia na Escola secundária Manuel Teixeira Gomes, em Portimão