Estamos em constante reeducação
O regresso às aulas presenciais está de volta. Na bagagem cabem seis meses de ausência, de compreensão, de confiança, de criatividade, de esperança, de estímulos, de generosidade, de profissionalismo, de orientações, de irreverência, de reinvenção, de socialização, de tolerância… Porém, a incerteza, a insegurança e o medo ocuparão imenso espaço neste reinício escolar!
Ao longo dos trinta e três anos de prática letiva, dos quais dezassete a repartir-me entre a lecionação e a gestão e administração, fica-me a certeza de que a escola pública é, numa sociedade democrática e respeitadora, a alavanca em quem muitíssimos depositam esperanças num mundo melhor. Porém onde muitos, puxando cada um para a sua corporação e umbigo, tentam desvirtuar o seu princípio basilar de fortalecimento de valores e de busca de conhecimentos, de respeitar e fomentar a individualidade; contudo colocando-a ao serviço do respeito e da tolerância pelo semelhante.
Se, entre nós e durante séculos esse papel coube à igreja católica e às comunidades rurais e de bairro, nas últimas décadas tem cabido à escola o papel agregador de tradições, de difusor de conhecimentos, de socialização entre os pares e nas próprias unidades familiares. De forma simples e direta: se há comportamentos que urge mudar, usa-se a escola como instrumento difusor ou de discussão! A visão de escola que enquista muitas cabeças é a contradição entre uma instituição privilegiada e prepotente, rigorosa e repressora ou uma libertina e desregrada… A escola, sendo a amostra da sociedade é também um laboratório de ideias e de práticas que, neste tempo que perdurará nos anais da história, estará sob todos os olhares. Daqueles que esperam, dos que exigem, dos que antecipam desgraças, dos que anseiam milagres. Todavia, toda a sociedade estará fisicamente na escola na segunda quinzena de setembro. Os que tentaram resguardar-se de um vírus invisível e insonoro, mas também dos que andaram por aí aos magotes… Se “uma andorinha não faz a Primavera”, ou como escreveu Nietzsche “aquilo que não me mata só me fortalece”, sou mais apologista de Sun Tzu, defendendo que “a suprema arte da guerra é derrotar o inimigo sem lutar”. Contudo, se baixarmos os braços findamos! Não! Começaremos a vencer a pandemia quando não cedermos à tirania do medo e a combatemos com a cautela de algum distanciamento. Venceremos com o respeito que devemos a todos e em especial àqueles que no aconchego familiar queremos abraçar, se usarmos a máscara mas também se formos coerentes entre o que apregoarmos e o que faremos.
Tempos difíceis? Não! Muito mais do que isso… Diferentes!…pelas aprendizagens, pelo cumprimento básico de regras de sã convivência, pela readaptação criativa, pelo alerta constante, pela sensibilização e tolerância, pela manutenção dos afetos e pela repulsa à promiscuidade… Duma assentada todos esperam que a escola resolva os problemas sociológicos do saber estar, do saber respeitar, do saber confiar para podermos continuar… Chiça! A escola terá de ter a receita para evitar a catástrofe económica e promover a confiança, caldeando quantidades adequadas de cidadania e de bom senso para combater a maior de todas as inseguranças, o medo que amarra, desespera e entrega a outros a liderança do nosso destino individual!
Se algo aprendi em cinco décadas na escola é que estamos em constante reeducação!
Nelson da Silva Martins