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Resistir à Ignorância, por Hélder Ramos

 

Afirmar que os tempos que vivemos são desusados e difíceis de compreender já é um hábito de tal forma recorrente, que parece nem darmos tanta importância às inúmeras causas que a todos tocam. E acrescentar mais palavras às manifestações recentes espalhadas por inúmeras cidades do mundo também não adiantaria muito, se as não encarássemos com apreensão, sobretudo no que a exageros desmedidos (pleonasmo deliberado) pode e deve ser repudiado.

Como aceitar o que está a acontecer com as estátuas de Cristóvão Colombo, nos Estados Unidos; com a de Baden-Powell, em Poole, no sul de Inglaterra, cuja autarquia teme o desmando descontrolado das turbas e, por isso, se apresta a retirá-la; com a de Padre António Vieira, em Lisboa, defensor dos oprimidos e exímio cultor da Língua Portuguesa, cujos dons oratórios muita inveja causaria, ainda nos dias de hoje, mas só para os que a sensibilidade e esguardo educaram com ponderação e responsabilidade, longe de ideologias facilitistas e sem a consciência histórica que deve nortear a intervenção cívica.

Tudo muito triste, quando vemos lideranças a promover a subversão de valores e instigar comportamentos desequilibrados e conducentes a desfechos vizinhos de causas supremacistas, quando, sob o telhado de razões aparentemente equitativas, vemos interesses aritméticos avançar para mandatos que se querem vitalícios.

Tudo muito triste, quando vemos multidões serem arrastadas para comportamentos precipitados e sem controlo, do saque pelo saque, que invade gratuitamente o espaço alheio e se assenhoreia de bens que tiveram o seu custo. E no lume da aventura e heroísmo grosseiro, ainda pode haver lugar a uma entrevista, de máscara. Não por causa da pandemia, antes pela cobardia de quem arremessa a pedra e esconde a mão. A deseducação leva ao desgoverno dos comportamentos e à incivilidade vazia da capacidade de discernir entre o bem e o mal, valor do qual depende a boa integração numa sociedade regulada por princípios que estimem o esforço coletivo de construção de amplos espaços de integração e de maior justiça.

Por tudo isto, todos devemos entregar-nos à causa da educação, como maior desafio das sociedades contemporâneas, em ordem a termos ferramentas que nos auxiliem a compreender qualquer obra artística, da produção à receção, e para deixarmos de vez as imagens desoladoras de estátuas vilipendiadas pela rudeza de gente ilógica que por aí vai andando sem objetivos coerentes de vida nem civismo decente.

Qualquer expressão artística deve ser interpretada no contexto em que foi produzida, não podendo a sua existência ficar sujeita ao livre-arbítrio de quem a não saiba apreciar na razão fundadora da respetiva criação. Isto significa que ao público deve ser dado o direito de aprender a dominar a linguagem de justa interpretação do património, sob pena de apenas a ver com os olhos e por eles ficar, cheio de certezas movidas pelo empirismo cultural que se enraíza numa ignorância bacoca e totalmente desprovida de racionalidade. Estaremos a jornadear por aí?

Urge, portanto, dotar as gerações coetâneas de capacidades de boa compreensão e leitura séria da História, conquanto tecida de conjunturas sempre incertas e quantas vezes sujeitas a tendências atentatórias da dignidade humana. Ela mede-se com respeito, tolerância e consideração pelos agentes da mudança, que somos, sem exceção, mas sem esquecermos quem nos deu a ser e abriu os caminhos que hoje conhecemos e usamos.

 

Hélder Ramos

Agrupamento de Escolas de Ovar