Ex.mo Senhor Ministro da Educação:
Num período tão conturbado como imprevisto, pretendo, na qualidade de docente da Escola Secundária de Ponte de Lima, manifestar as minhas preocupações e apresentar algumas sugestões para tentar atenuar os efeitos sociais e pedagógicos de um grave problema transnacional, com repercussões imediatas no nosso quotidiano, no sistema educativo e, em particular, no percurso escolar dos alunos .
Estamos confrontados com uma situação excecional, que afeta as relações interpessoais, originada pelo distanciamento forçado nas nossas comunidades educativas, com o qual todos temos de aprender a lidar, demonstrando coesão profissional, solidariedade pessoal e sentido de pertença institucional. As novas aprendizagens são caracterizadas pela incerteza, imprevisibilidade e crescente ansiedade.
Mais do que uma preocupação em cumprir programas e remediar um problema emergente (como gostaríamos de poder continuar a exercer a nossa atividade profissional em contexto escolar!), poderemos ver neste período de exceção uma oportunidade para desenvolver e consolidar determinadas competências transversais. De facto, se conseguirmos que os nossos alunos sejam mais responsáveis, autónomos e solidários, estaremos a promover uma cidadania proativa, a qual se repercutirá positivamente no sistema educativo, no percurso académico e no seu sucesso escolar.
De uma forma esclarecida, é nosso dever procurar minimizar o impacto negativo de uma pandemia que está a alterar substancialmente o “modus vivendi” e o “modus operandi” tradicionais. E não poderá ser com ansiedade, insegurança e pânico generalizado que conseguiremos criar as condições necessárias para um regime alternativo de ensino.
O ensino à distância estará condenado ao fracasso se imperar o medo e a incerteza e se a principal estratégia adotada passar pela quantidade descontrolada de recursos e trabalhos enviados aos alunos. Alguns poderão realizar (com ou sem ajuda), outros irão procurar copiar e um número indeterminado irá certamente ignorar, por não terem acesso aos meios tecnológicos, por desmotivação, opção individual, falta de apoio ou de controlo familiar.
Os resultados expectáveis de uma eventual sobrecarga de trabalhos, a realizar em contexto extraescolar, poderão ser inversamente proporcionais à dimensão dos mesmos. Além de se poderem reproduzir desigualdades socioculturais, com que critérios se irão avaliar estes trabalhos ou a falta dos mesmos?
A prioridade deverá ser a de assegurar que, num ambiente de indefinição e preocupação permanentes, os alunos consigam aprender a superar as adversidades, a serem persistentes e a manterem-se bem informados (procurando distinguir a boa da má informação), cumprindo as recomendações da Direção-Geral de Saúde e do Governo. Ao mesmo tempo, ajudá-los na gestão das emoções (é fundamental manter abertas as linhas de apoio psicológico), na organização do trabalho, no aconselhamento da prática da leitura, assim como no despertar da curiosidade por uma modalidade de ensino e aprendizagem à distância, que deverá ser garantida para todos (como pretende a recente comunicação da Área Governativa da Educação e da Presidência sobre a intervenção educativa para crianças e jovens em situação de vulnerabilidade). A não ser assim, estaremos a negar os pressupostos de uma escola pretensamente inclusiva.
Com a divulgação de uma multiplicidade de recursos, disponibilizados em plataformas digitais, os alunos serão motivados para aprendizagens lúdicas de conteúdos dos programas de diferentes disciplinas.
Sob a supervisão do Ministério da Educação e a coordenação das direções escolares, das associações de pais e encarregados de educação e dos diretores de turma, o sucesso desta modalidade alternativa de ensino à distância dependerá de professores preparados (se necessário, disponibilizando-lhes formação específica online), de encarregados de educação disponíveis e de uma efetiva adesão dos alunos.
Aproxima-se mais um momento de avaliação sumativa interna. Com uma interrupção abrupta do 2.º período letivo, que terá inviabilizado a realização de alguns instrumentos de avaliação, previstos nos critérios gerais e específicos das escolas, talvez fosse sensato e oportuno equacionar a possibilidade de o Ministério da Educação determinar o caráter semestral das avaliações internas (seria uma antecipação e experimentação de uma proposta alternativa já apresentada), remetendo para o 3.º período, a avaliação final do semestre. E na eventualidade de não ser possível regressar à normalidade das nossas escolas, no próximo período letivo, os professores saberiam, antecipadamente, que esse momento de avaliação corresponderia ao final de ano ou de ciclo de estudos e ponderariam todas as implicações de uma avaliação sumativa interna, com caráter excecional.
A realizarem-se as avaliações sumativas internas neste final de 2.º período, seria recomendável que as propostas de avaliação tivessem um caráter provisório (poderiam ser finais se não houvesse novo momento de avaliação), as quais voltariam a ser analisadas, ponderadas e ratificadas em conselho de turma, no final do presente ano letivo, independentemente de as aulas terem ou não sido retomadas.
Na expectativa de que esta situação seja rapidamente ultrapassada, para voltar à normalidade e às rotinas diárias das nossas escolas, apresento os melhores cumprimentos.
Atenciosamente.
Ponte de Lima, 21 de março de 2020
Prof. Teodoro da Fonte