Blog DeAr Lindo

Uma aula modelo na Escola Pública Portuguesa (para conhecimento de muitos)

O professor, apressado entra no corredor do primeiro piso daquele pavilhão de salas de aula, acabou de percorrer seis quilómetros, durante o tempo de intervalo dos alunos, entre a escola onde deu a sua última aula e a onde entrou há um minuto.
À sua espera estão os alunos de um curso profissional, amontoados à porta da sala de aula, agitados, alguns distribuem encontrões “sociais”, falam alto, quase gritando, vociferando o calão habitual por três vezes em cada duas palavras. Ao verem o professor, quase em uníssono, fazem-se ouvir manifestações de desapontamento, estão sempre à espera que o professor não consiga vencer o transito ou, inesperadamente, adoeça, permitindo-lhes uma hora de ócio pelo espaço exterior da escola.
O professor, entre um e outro quase empurrão, lá consegue abrir a porta da sala e entrar com o seu “séquito”, lentamente, atrás de si. Dirige-se, imediatamente, ao computador, que se encontra sobre a sua secretária, para abrir a aplicação onde vai redigir o sumário da aula antes que o segundo toque soe pelos corredores e lhe seja marcada falta. Isso faria com que tivesse de se ir justificar à secretaria da escola onde perderia, certamente, uns quinze a trinta minutos até que o Sr.º Diretor desse a ordem para que lhe fosse retirada a falta.
Entretanto, os alunos vão entrando na sala de aula, entre risos, que se ouvem para lá das finas paredes da escola, e diálogos inflamados, sempre acompanhados pela linguagem calão, sobre um qualquer assunto de extrema importância que não poderia ser tratado depois da aula. Começam lentamente a sentar-se, distribuindo-se aleatoriamente pelo espaço disponível, uns arrastam, ruidosamente, as cadeiras para nelas colocarem os pés enquanto se sentam nas mesas a conversar com o colega mais próximo, ainda de pé, outros, quase em corrida, tentam alcançar as mesas do fundo da sala para poderem estar o mais longe possível do olhar do professor. O professor pede para que se sentem e acabem com as conversas para que possam dar início à aula. Um dos alunos que, ainda, se encontra sentado em cima de uma mesa, responde-lhe que já está sentado desde que entrou à espera que a aula comece. O professor pergunta-lhe se em sua casa também se senta em cima das mesas quando está a conversar com os familiares. O aluno, exaltado, vocifera que a vida familiar dele não é para ali chamada sentando-se, de seguida, na cadeira correspondente àquela mesa com os braços cruzados e ar ameaçador. A turma acalma por momentos e o professor começa a escrever o sumário no quadro branco aparafusado na parede com a caneta que trouxe no bolso do casaco, logo recomeça o burburinho atrás de si, com aviões a voar em direção ao quadro e alguns dos alunos mais calmos a serem vítimas de arremesso de folhas amachucadas. O professor vira-se para a turma, explica, resumidamente, o que acabou de escrever enquanto vai ouvindo os lamentos dos alunos que não têm caderno onde escrever ou caneta para o fazer, esqueceram-se do material, do manual, ficou em casa, na sua ou da vizinha.
Entre um e outro solavanco a aula lá começa com uns a dormir, devido às altas horas a que se deitaram, outros em conversas cruzadas e a “mandar” umas “bocas” de quando em quando e os que mantêm o interesse a esforçar-se por ouvir o que o professor vai explicando e expondo as suas dúvidas para o momento de avaliação que decorrerá na próxima aula.
Quando, finalmente, soa o toque de saída, qual debandada em África, vai tudo à frente, mesas, cadeiras e até alguns colegas. Na sala fica o professor, sozinho, que aproveita para se sentar e respirar fundo pela primeira vez em cinquenta minutos. A aula, hoje, até nem correu mal.