Da insanidade e do desprezo
O senhor Diretor não sabe dizer que não. E entre a figura política que almeja e a liderança justa, opta sempre pela primeira.
Mas, verdadeiramente, eu nada sei, pois como cheguei agora à escola, descubro de tudo um pouco por portas traseiras. Porém, observar os colegas de Educação Especial passearem nos corredores com as meninas de cadeiras de rodas, fingindo que a inclusão chegou aqui, é, no mínimo, confrangedor.
Não é a missão que guia estes professores, mas o medo da punição profissional. Entre dentes rangem impropérios, mas quais ovelhas mansas, cumprem a determinação mandada. De professores, passaram a tarefeiros, com o cabresto das represálias veladas.
As alunas, de corpo feito, mas condenadas a uma cadeira permanente, deambulam acompanhadas por estes colegas por um espaço amplo de escadarias impossíveis e salas improvisadas, pois a escola, tão moderna na ambição, acolhe pela primeira vez jovens com estas características.
E eu não acho mal, sobretudo porque, em apenas um fim de semana vindouro, terão uma casa de banho feita à medida só para si e plataformas que permitem às cadeiras ascender. A modernidade chega, num ápice imposto, a esta escola secundária.
Mas a sua situação é mais complexa. Ela exige um acompanhamento permanente de um adulto, atuação especializada para tudo, incluindo comer e ir à casa de banho.
Uma das colegas explica-me que, aos 55 anos, nunca se imaginou baby sitter do penico. É que, à falta de funcionárias (que, nas escolas por onde passei, recebem formação específica para estes casos) são os colegas da Educação Especial que lhes dão comida e vão com elas à casa de banho. Isso mesmo: professores que lhes limpam o rabo.
Acho maravilhoso que a sua formação académica seja tão absolutamente abrangente que se reformule numa pedagogia de sanita, higienizante e honrosa para a profissão.
Pasmai e vislumbrai, professores, como toda uma nova realidade se promove neste tão significante gesto.
Não há decreto-lei, nem despacho, nem qualquer Pós-graduação de fim de semana que promova mais ou melhor dignifique a nobre profissão de limpa rabos do que este extraordinário Agrupamento .
Se esta semana uma escola ganhou o selo de Proficiente no ensino de Ciências e Tecnologias, temos aqui uma séria candidata ao Prémio Europeu do Penico da Inclusão.
É caso para considerar que, a esta escola, já ninguém a tira do pódio, certo?
Ou será que temos por este país fora mais higienistas disfarçados de professores que ainda estão por desvendar?…
PS- qualquer semelhança com a realidade é mera ficção.