O que fazer para não levar um pontapé nos testículos e um murro no focinho
Um professor de 63 anos foi agredido a soco e pontapé por um aluno de 12. O pontapé foi nos testículos e o murro, para glória do aluno, foi no “focinho”.
Aconteceu no Porto, na Escola Básica Francisco Torrinha, há uma semana.
Basicamente, o aluno entrou na sala de aula a jogar à bola e, consequentemente, partiu uma lâmpada do teto. Um caso clássico de chamada de atenção.
E aqui começam os problemas. Para o professor, pois claro.
Erro número 1: admoestar o aluno e iniciar o confronto tão habitual no dia a dia de uma criança problemática e já sinalizada na Comissão de Protecção de Crianças e Jovens.
Erro número 2: sabia o professor que a criança estava sinalizada? A Direcção da escola sabia? E se sabia, informou o professor? E qual o significado de estar sinalizado? Alguém sabe? Eu digo-vos: no caso deste aluno significa, muito provavelmente, ser vítima de maus tratos em casa, físicos, emocionais, falta de comida e roupa, falta de condições de habitação, pais separados, pais desempregados, toxicodependência entre outros factores de risco para uma criança que precisa de ser protegida. Por quem? Desde logo, pelo professor, coisa que o mesmo não fez.
Mas o professor não tem culpa. Não sabia e, por conseguinte, reagiu como sempre reagiu ao longo de 40 anos de ensino diante de um caso de mau comportamento: confrontou o aluno, e ao confrontar o aluno entrou no único território que o aluno conhece, a agressão.
Erro número 3: e assim, os erros continuam, pelo que vou deixar de enumerá-los. O professor tirou a bola ao aluno. Esqueçam a bola, partir uma lâmpada é melhor que partir o focinho.
Erro número 3.5: afinal tenho de continuar a contar, para organizar o raciocínio, e este é um erro do sistema, não do professor. Antes disso, o aluno já tinha ligado ao pai, sabendo muito bem que o uso do telemóvel é proibido em sala de aula. Proibido porquê, quando lá fora os manuais escolares já incluem o uso de telemóveis na resolução de exercícios? Porque é que tudo o que não compreendemos e aceitamos tem de ser proibido? Ui, que medo, pensou o aluno, estou a usar o telemóvel na sala de aula! O aluno a puxar os cordéis e o professor a dançar.
Erro número 4: o professor “dominou” o aluno quando o mesmo tentou retirar-lhe a bola. Desconheço o sentido da palavra “dominou” neste contexto, mas receio que o professor tenha fisicamente imobilizado o aluno. Este foi o seu maior erro. Ao imobilizar o aluno, o professor agrediu-o, retirou a liberdade de movimentos ao aluno, prendeu-o, subjugou o aluno e, provavelmente, aleijou o aluno.
A resposta foi imediata e fez notícia nos jornais.
Nunca, desde que o aluno entrou na sala aos pontapés à bola até ser entregue à Directora de Turma, nunca ninguém perguntou ao aluno o que se estava a passar. Aconteceu alguma coisa? Queres falar? Estou aqui para te ouvir. Não me ouves? Vou pedir ajuda, espera um pouco, já volto, estou aqui para ti. Queres jogar à bola? Vamos lá para fora, eu jogo à bola contigo, estou aqui para ti. Sou teu professor, mas também me preocupo contigo.
Nunca. Em vez disso, o castigo, a admoestação, o confronto, a falta de empatia, a agressão física. Não toquem num aluno, nunca toquem num aluno, quando tocamos num aluno, tudo pode acontecer. E aconteceu. Neste caso, aconteceu.
Lamento imenso o sucedido. Lamento imenso o professor no chão em dores depois de um valente pontapé nos ditos e um murro na cara.
Infelizmente, tais casos não se resolvem com sanções e disciplina. O caso foi entregue à polícia. A polícia chegará cedo à conclusão que na noite anterior houve problemas lá em casa. Isto se o aluno dormiu em casa, em último caso na rua, longe de outros pontapés e murros.
No meio disto tudo, não sei onde estão os Assistentes Sociais, o apoio às famílias, o Centro de Emprego e a Comissão de Protecção. “A criança já estava sinalizada”, será a sua resposta, até que um dia acontece alguma coisa.
Já aconteceu, um professor foi agredido violentamente. E enquanto não se intervir e enquanto não apoiarmos alunos em risco, será apenas uma questão de tempo até que mais alguma coisa aconteça, desta vez ao aluno. Não basta sinalizar.