“NUNCA MAIS COMEÇA A ESCOLA!!! E SE NÃO COMEÇASSE?”
Perdi a conta das vezes em que ouvi, nos últimos 2 meses, este desabafo em jeito de aflição e ansiedade expresso por pais e alguns avós.
Incomoda-me particularmente ser esta expressão indício de algo que alastra, cada vez mais, à proporção da área ardida, como um incêndio sem controlo.
E que diz respeito a todos nós.
A nossa comunicação social, ao sabor de um inqualificável vazio de conteúdo, é praticamente nula na sua abordagem.
Ao mesmo tempo, a sociedade em geral parece completamente alheia ao que surge como cada vez mais evidente aos olhos de todos.
E que observa na sala de aula, no espaço escolar, em nosso redor: a criança como centro do seu mundo, com todos os direitos e nenhuns deveres, com todas as liberdades e nenhuma responsabilidade, com toda a permissividade e nenhuma regra.
Estes “reis e rainhas do seu reino” são, não podemos esquecer, adultos em potência, e os cidadãos do futuro.
No entanto, são muitas vezes as próprias famílias que se demitem da sua primordial responsabilidade de educadores.
Ouso afirmar que o DIREITO À EDUCAÇÃO lhes está a ser subtraído, na medida em que é conferido às instituições e seus profissionais numa medida em que extrapola o âmbito das suas funções.
Não, a escola não existe para suprir lacunas de criação e educação.
Não, a escola não é um depósito espacio-temporal de crianças e jovens.
E, fundamentalmente, os professores não são apenas tramissores de conhecimentos em certa área disciplinar: são também maridos e esposas, filhos e filhas, pais e mães, avôs e avós; antes de mais são seres humanos, falíveis, com as suas peculiaridades, motivações, expectativas e desilusões.
No imaginário coletivo, os professores surgem como um misto de
- Profissional de entretenimento com paciência de santo;
- Privilegiado que não faz mais do que é a sua obrigação.
Na realidade:
- A escola é um espaço de aprendizagem, não de educação/ criação;
- Quando muito, os professores consolidam a educação para o saber-estar entre pares, em grupo;
- O saber-estar em família, em comunidade, em sociedade é desenhado, como um mapa em branco, pelos progenitores;
- A escola é um dos recursos da comunidade que conduz cada criança a “pintar” esse mapa com as cores que vão consubstanciar a sua visão do mundo e a sua maneira de SER;
- Sem este trabalho prévio, que se vai sistematizando em parceria, a criança na escola vai “pintar por fora”, sem limites, sem orientação, sem rumo.
Somos menos pais se incutirmos regras claras e rotinas estáveis nas nossas crianças, o respeito ao próximo e às instituições da comunidade? Não.
Somos menos pais se confiarmos, com boa-fé, nos profissionais que são remunerados para lhes transmitir conhecimento e validar os seus conhecimentos? Não.
Somos menos cidadãos se colocarmos a tónica na aprendizagem e na aquisição de novos saberes (fundamentais para uma presença ativa em sociedade), ao invés de uma obrigação moral, legal, um espaço-tempo de depósito por falta de melhor alternativa?
Com certeza que não.
Interrogo-me o que diriam estes pais e familiares se a escola que tanto almejam iniciar rapidamente…
Não começasse. Literalmente.
Se os profissionais desmotivados e exauridos, simplesmente, tomassem uma posição de força.
E NEM UM ÚNICO SE DESLOCASSE À ESCOLA no primeiro dia de aulas.
Nem no segundo.
Nem no terceiro.
Até quando?
Até ao dia em que o Ministério, a sociedade, os pais, tomassem verdadeiramente consciência.
Da realidade de uma classe profissional vilipendiada e desvalorizada por uma sociedade que a deveria respeitar e acarinhar.
(Sociedade que somos governo, instituições, famílias, pais e alunos)
É tempo de ACORDAR. Está em causa o nosso futuro coletivo.
Estou certa que irá acontecer, num futuro próximo, um movimento em massa que mostre o poder que a classe docente tem, quando unida sob o mesmo desígnio.
(Quanto mais denso o silêncio mais audível será o grito).
Uma escola pública de qualidade, no pleno respeito pela dignidade dos seus profissionais, feita com o contibuto de TODOS, e para TODOS.
09-09-2018
Graça Pereira Araújo
Autora de manuais pedagógicos e formadora de professores