Blog DeAr Lindo

A propósito do artigo de opinião de Felisbela Lopes, “Greve no dia 21?Não!”

 

A professora Felisbela Lopes costuma fazer leituras muito sensatas e certeiras nos artigos que escreve no vosso jornal (JN) e nos comentários que faz na televisão. Porém, no artigo de opinião do passado dia 9 de junho, parece ter feito uma leitura excessivamente apressada, facilitista e, por que não dizê-lo?, algo populista  da situação dos professores em Portugal.

Na realidade, o diagnóstico inicial está correto: a profissão de professor não traz atualmente qualquer tipo de gratificações, os vencimentos são baixos, a carreira docente é desmotivante, os alunos carecem das mais elementares regras de educação, a indisciplina grassa nas escolas e a profissão, sendo central na formação de sucessivas gerações, anda à deriva… Mas isso, diz a articulista, “não justifica uma greve no dia de exames. Os professores não podem desestabilizar de modo tão profundo os estudantes”.

E, então, pergunto eu, o que é que justifica uma greve dos professores? E, já agora, em que data é que convém marcar essa greve?(Imagino que, preferencialmente, no mês de agosto ou no decurso das pausas letivas!) Mas existe alguma greve, “um direito de todos os trabalhadores” como afirma, que não ponha em causa serviços e que não dificulte a vida dos utentes e dos  cidadãos ? Haverá alguma greve de médicos  ou de enfermeiros que não ponha em causa a saúde dos pacientes que aguardam cirurgias, consultas e tratamentos? Ou alguma greve de transportes que não ponha em causa os utilizadores que adquiriram passes e títulos de transporte e que fizeram reservas de viagens com meses de antecedência?

Na opinião da professora FL, “todos os direitos devem ser repensados quando colidem brutalmente com os direitos de terceiros” e, curiosamente, apesar da assunção de que as coisas não vão bem no reino da educação e de que há reivindicações justas, a hipótese de se delinear um regime especial de reformas antecipadas para docentes é incompreensível porque existem muitas outras profissões de desgaste rápido. É verdade que existem, mas parece-me que, em vez de se afirmar categoricamente que “não se legitima qualquer exceção a esse nível”, era preferível repensar cada uma dessas profissões, pesar os prós e os contras e avaliar os custos e os benefícios de manter profissionais no ativo que já não estão em condições plenas de cumprir as suas funções, arrastando-se penosamente em rotinas e rituais profissionais em que já não conseguem dar o melhor de si aos outros.

Gostava de referir que sou professora há cerca de 25 anos, que já me dessindicalizei há muitos, que não vou fazer greve no dia 21 e que questiono o “timing” dos silêncios e das aparições sindicais nos “media”; sublinho ainda que já vi voltas e reviravoltas no ensino, nos currículos, nos regimes de avaliação, nas equipas e nas burocracias ministeriais, mas ainda, ainda, não atingi a saturação e continuo a acreditar naquilo que faço… infelizmente, vejo todos os dias colegas mais velhos à beira da exaustão física e psicológica, no limite das suas forças, frequentemente sob medicação ou em situação de baixa médica, a contar os dias para a reforma. Parece-me que professores assim não podem cumprir cabalmente a sua função; parece-me que, perante este cenário, todos – alunos, professores, comunidade educativa, escola, sociedade em geral – ficamos a perder e que a existência de um regime especial de aposentação não é uma bizarria injustificável.

Sugere a articulista que “Ser professor pode ser desgastante”: esclareço-a, com experiência no terreno, que é imensamente desgastante nos dias que correm! Refere que “Difícil será o papel dos docentes que, neste tempo, motivam a estudar com afinco”: esclareço-a que é dificílimo motivar os alunos para o estudo seja em que altura for porque a escola não é só a época dos exames e a pauta de avaliação! Diz que “Não é fácil aceitar a data desta greve”: acrescento que não é fácil aceitar a data de nenhuma greve seja ela qual for!

 

Helena Maria Paio