Na sala, as cabeças, circunspetas e ansiosas, poisam o olhar nas determinadas provas.
Ao fundo, pela janela, mergulho o olhar na extensa planície. O som melancólico de um trator devorando palha ecoa vagamente cá dentro com a mesma morosidade do calor que invade, pouco a pouco, a sala.
Enquanto a máquina prossegue um lento bailado de motor pesado e pneus inchados, reparo nos torresmos de palha que sobejam estáticos no chão. Uma nuvem de pó aurífero e andorinhas velozes e inebriadas deixa no ar a memória vaga de um quadro de Van Gogh.
Que pena a perícia com que os tratores empilham os fardos nos campos não ser a mesma que estes garotos suados usam para calcular as retas paralelas ou estabelecer inequivocamente o referencial cartesiano.
Pouco a pouco, poisam as canetas, exauridos pela espera do decisivo toque, enquanto o tique-taque do relógio na parede comanda as nossas vozes.
Despedimo-nos aqui do seu longo percurso.
De ora em diante, os fios que entrelaçámos irão ser definitivamente cortados.
E há uma melancolia macia e aveludada no fundo do meu coração.
Ser professor também é ter os corredores vazios, o coração partido e perder a escola.