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Francisco Louçã: Opinião – É tão fácil ser liberal quando o Estado paga a tença

Estou muito contristado com a malfadada sorte que desabou sobre os liberais do meu país. Eles queriam levar-se a sério, tinham livros publicados, crónicas avulsas, ideias bastantes, propostas pensadas, mas eis que a zaragata dos colégios privados os lançou num ápice nas mãos dos estatistas ou até os tornou exemplos do pensamento “soviético”, para citar um deles: tudo o que querem agora é o dinheirinho do Estado para financiar a “iniciativa privada”. De repente, ei-los que passam a adorar o Orçamento de Estado, sem ele não há mercado, passam a estimar as verbas que o monstro público distribui, desde que lhes caiba o quinhão, e proclamam que, sem os cabedais do Estado, o liberalismo fenece para todo o sempre e a liberdade esvai-se.

A ideia liberal colapsa assim no apelo para continuar a mordomia, a proposta liberal fica-se pela tença, o programa liberalizador reduziu-se a uma mão estendida para a renda. Um dos liberais, aliás dos mais intervencionistas nesta matéria de bons usos e costumes, indo sempre mais longe do que os seus correligionários, entende que o Estado deve mobilizar-se acima de tudo para pagar a educação religiosa aos devotos, pois a considera a única formadora do gentlemanship adequado. Um Estado ao serviço de uma religião, eis a que chegaram os nossos liberais na sua idade madura.

Pode-se dizer, em sua defesa, que para aqui chegarem fizeram muito caminho. Em 2005, o governo PSD-CDS, cinco dias antes das eleições que viria a perder, despachou benefícios para um novo grupo, que vai pelas letras expressivas de GPS, e onde imediatamente assentou consultoria o secretário de Estado signatário da prebenda. No último ano e meio, o GPS terá recebido 52 milhões, a fazer fé na imprensa, pois já tem 26 colégios e 50 empresas, sempre chefiado e protegido por ex-deputados e governantes do PS e PSD (no ano passado a PJ foi lá fazer buscas para investigar uma alegada apropriação ilícita de bens públicos, mas isso são acidentes de percurso). Como esses, outros colégios entendem no seu melhor critério que o seu negócio deve ser financiado pelo Estado, que tem 222 milhões para lhes oferecer e que se queixa de não ter mais. Por isso, como seria de esperar, a armada liberal levantou-se em sua defesa.

Os liberais, que acarinharam em tempos a ideia do cheque-ensino, ou da “liberdade de escolha”, de modo que o Estado pagasse às famílias a colocação das crianças nos colégios privados – e portanto conduzindo ao fim do gasto com as escolas públicas, porventura extravagante na sua límpida visão orçamental – desistiram de tudo. A manigância exigia muito dinheiro, além de obrigar a fazer as contas, uma maçada, e podia ser que os mais remediados percebessem quanto iam pagar por esta educação da “iniciativa privada” e do gentlemanship. Tudo ficou simplificado com esta desistência, nem cheque nem liberdade de escolha, agora os liberais só querem mesmo é renda. Que o Estado abra os cordões à bolsa, esse é todo o programa da direita para este ramo de negócio.

Triste fado, são isto os nossos liberais: converteram-se em fiéis teocratas, tornaram-se apoiantes do estatismo mais agressivo, a restrição orçamental já não interessa porque o preço do liberalismo anda pela hora da morte, o Estado que financie o mercado e que pague às famílias mais afortunadas que querem partilhar connosco o preço da educação dos seus filhos. Se acrescentarmos ao chapéu na mão umas citações de Hayek, o grande filósofo que tanto estimava Salazar e Pinochet, ficamos como retrato da angústia do liberal no dia em que se constata quanto custa a sua fantasia.

Parece que chegámos a esse dia de acertar contas.