620 páginas depois. E ainda não acabei.
Por Júpiter, a pilha continua a olhar para mim.
E, como se não bastasse ler pérolas enervantes, como “o Gil foi o rei do teatro português porque escreve boas peças” ou “modificador do compelemento direto”, tenho aqui ao lado o meu filho a estudar.
E é feriado.
É feriado e eu tento desesperadamente acabar de corrigir estes impossíveis testes e o meu filho era suposto estar a estudar porque vai, ele próprio, ser avaliado.
Mas, em vez disso, a cada suspiro meu, coloca uma questão, já se levantou trinta vezes para fazer xixi, mais trinta vezes teve comichão no rabo, outras trinta deixou cair a caneta e, tudo isto, enquanto eu folheio e risco umas trinta páginas de disparates que me deixam sobremaneira tão irritada que, a dado momento, começo a sentir uma urticária raivosa crescer-me no corpo.
A cada folha que roubo da pilha, o miúdo lá prossegue o desvario de evitar os próprios livros, beliscando distrações disparatadas onde parecem ser impossíveis de encontrar.
E sinto, portanto, a urticária a subir-me das pernas ao pescoço a cada mexida dele na cadeira, enquanto continuo a ler, a riscar as palavras tão pouco sábias dos outros, a Barca do Inferno a querer entornar-se na mesa, e a pilha de folhas que parece não diminuir e, então, observo-o, aqui ao meu lado da secretária. E o que está ele a fazer? A observar o estojo muito atentamente.
Mordo os lábios, antevendo um rubor eletrizante e, muito pausadamente, pergunto:
– O que é que foi agora?
– O estojo tem um buraco, mãe. Vês? Aqui.
Eu vejo. Vejo, sim, que não está lá nada e, de repente, sinto um coice cerebral tão forte que me ergo repentinamente e lhe agarro o estojo, contorço-o com requintes de exacerbada malvadez, estico-o e encolho-o rapidamente até assumir o formato inesperado de uma concertina, atiro-o repetidas vezes contra o tampo da secretária como se derrubasse o meu pior inimigo no tapete da luta livre e, finalmente, atiro-o para cima da mesa com desmedido desprezo.
Suspiro.
– Ah! Agora sim, tem um buraco, vês?
E estico o dedo indicador, apontando o defunto estojo, enquanto ajeito o meu cabelo ligeiramente desgrenhado.
O meu filho observa o objeto inerte, incrédulo e responde, sucintamente:
– Mãe, acho que acabaste de matar as minhas canetas, o lápis, o transferidor e o compasso que estavam lá dentro.
Encaro-o, incrédula comigo própria.
Meu deus!, 620 páginas depois, transformei-me numa inesperada assassina…