Desabafo que me chegou de uma colega que pediu a divulgação do seguinte texto.
Caros(as) colegas,
Sou professora de inglês, 330, e português, 300.
Fiz a formação para lecionar no grupo 120, numa Universidade, sempre sabendo que não me daria garantias de obter um horário, mesmo extremamente reduzido. Fiz, porque achei que o deveria ter feito. Fui surpreendida hoje por um comentário surreal, numa escola primária onde estou novamente a lecionar AEC (sem saber se devo estar contente ou não com a maravilhosa vaga, por estar de novo metida neste mundinho ensarilhado e confuso das precárias e famosas AEC. Sucedeu-se o seguinte:
A senhora funcionária dirigiu-se a mim, de forma extremamente simpática e delicada, e disse-me eu estava em direção à sala errada, que a minha turma era a do 4º e não a do 3º, porque o inglês do 3ºano era curricular e tinha de ser dado por uma professora especializada, com outras habilitações.
Tais palavras estalaram dentro de mim com tamanha força que quase deixei cair as folhas que carregava ao chão, perante tamanho cenário absurdo e deformado em que me encontrava. Arregalei os olhos e preparei-me para responder à senhora que eu também tinha tirado um curso no preço de vários salários AEC para dar o inglês curricular, mas a disfuncionalidade do sistema tinha permitido que tal se concretizasse apenas em mais uma formação a acumular no CV, para ocupar espaço.
Comecei a balbucionar a primeira sílaba da minha resposta, mas rapidamente estanquei os lábios, enquanto a senhora funcionária se inclinava ligeiramente para a frente, para ouvir o que eu lhe ia dizer. Parei antes de dizer a primeira sílaba. Rapidamente percebi que responder-lhe apenas iria tornar a minha situação ainda mais ridícula, no meio de um corredor de uma escola primária, igual a tantas outras, onde nitidamente escalonam professores, onde claramente estava na posição de ensino mais baixa, onde claramente poderia estar a dar inglês curricular, onde claramente estava a ser vista como a professora de segunda categoria, sem habilitações para uma disciplina curricular, onde claramente estava a ser menosprezada, por ter experiência e canudo, mas ser vista como animadora.
Despedi-me com um abafado “até logo” e engoli em seco. Esperava-me uma turma de meninos curiosos, extasiados por estarem livres, por aquele dia, do peso das matérias curriculares. Sorri-lhes, eram meus naquele momento. Respirei fundo e disse-lhes que estava ali para os ensinar e deles só queria o aprender. Quietos e calados, permaneceram a olhar para mim, com ar assustado. Senti-me pronta para começar, não como professora de inglês curricular, nem como professora de inglês AEC, apenas como professora de inglês.
Tudo o resto são meros títulos…E a qualidade de um professor não se mede nem por um canudo, nem por uma afortunada colocação no almejado grupo.
Boa sorte a todos(as).