Blog DeAr Lindo

As 57 sombras da minha docência

A Lei de Murphy refere que “se alguma coisa tiver de correr mal, ela corre.” E aplica-se às mil maravilhas nesta linda escolinha suburbana. E, sobretudo, aplica-se maravilhosamente a mim.

Como se não bastasse a pilha de testes que tenho em cima da mesa, fui chamada pelo excelso senhor diretor esta tarde.

Pragmaticamente, informou-me que irei ser corretora de exames. Ora, tal coisa não me espanta de jeito nenhum, por ser já tradição profissional, desde que dou aulas, independentemente dos anos que leciono. Basicamente a regra costuma ser: és contratada? Dás português? Então fazes as atas e corriges os exames. E a “gente” acata porque o contrato tem prazo e não convém levantar ondas porque o nosso barco é mesmo frágil.

Mas, por norma, a decisão é mais ou menos discreta, uma ou outra colega que se safa, mas, no conjunto, as caras dos exames já se cumprimentam de cor.

Aqui a surpresa foi eu perceber que, entre 4 professoras que lecionam 9º ano, eu sou a única parvalhona que tem a cabeça posta a prémio. Explico isso mesmo, com jeitinho e elegância, à minha coordenadora de grupo, em jeito de desabafo e incompreensão de tamanha injustiça:

– Além de todas darem 9º ano como eu, as três colegas já lecionaram no ano transato.

– Pois, mas bem vê que duas dão vocacional, não se justifica…

– Então e só uma pessoa do agrupamento é que é indicada?

– Não, não, a Isabel também foi (a Isabel é uma contratada como eu que tem horário incompleto e dá uma combinação de 7º, 8º e 6º ano, com outros vocacionais à mistura). Além disso, estamos todas no júri de exames, já viu a complicação?

O sorriso sarcástico da minha coordenadora de grupo deixa-me sem mais argumentos, sobretudo quando remata com força:

– Colegaaaaaa, o senhor diretor é que decide… E oiça, nem vale a pena abordar mais o assunto, ainda faz com que a colega que a vai avaliar se aborreça consigo.

É tão bonito quando nos colocam no canto da sala com orelhas de burro, não é?…

 

PS – Qualquer semelhança com a realidade é pura… semelhança.