Eis chegada aquela altura do mês.
Sob a minha secretária uma torre de folhas empilha-se num equilíbrio precário. Observo-as, primeiro, à distância. Na minha cabeça os números avolumam-se – 5 turmas, 30 alunos, 6 páginas. Como um predador, rodeio a mesa farejando o fim da pilha. Por onde começar?…
A missão tem de ser levada a cabo no fim-de-semana. Nem ouso adiar o tormento, com aulas e reuniões a aproximarem-se vertiginosamente. Durante dois dias, porém, enclausuro-me e isolo-me da minha própria vida. Ao mesmo tempo que me torno numa católica ferverosamente praticante: “Meu Deus!”, “Valha-me Deus!”, “Minha Nossa Senhora!” e “Jesus, Maria e José!” são algumas das expressões que marcarão as minhas inesgotáveis horas de tortura.
Respiro fundo para encher o peito de coragem e agarro com força nas armas de arremesso – caneta vermelha, caderneta, excel, computador. Comecemos…
Na verdade, os erros ortográficos não são o pior. Mordem-me com particular frequência a ponta dos dedos, apanhando-me sempre desprevenida, os miseráveis. Quando acho que é impossível uma palavra ter uma redação diferente, ela surge em toda a sua esplendorosa deformidade – “Lesíadas”, em vez de “Lusíadas”, “arranjão”, em vez de “arranjam”, enfim, a criatividade adolescente não tem limite.
Porém, é a sintaxe que me derrota por completo, aquelas frases torcidas e desdobradas em linhas infinitas, onde a pontuação voa ou os verbos se desatarracham do seu sujeito que, murcho e impotente, ficou largado muitos quilómetros de linha lá para trás. Obviamente, isto tem implicações no sentido que tropeça, ele próprio, num enegrecido vácuo.
E isto, sim, é uma verdadeira tragédia capaz de me causar uma síncope cardíaca que me deixa quase em estado comatoso e da qual tenho muita dificuldade em recuperar.
Entretanto, a pontuação vai vingando, quadrícula a quadrícula, e a pilha baixando até, em exaustão, eu própria já não saber onde me encontro, passado que foi o fim-de-semana submergido em dolorosas folhas de papel.
Quando regresso à escola, porém, reparo que existem outros zombies que, tal como eu, se arrastam penosamente até uma sala de aula, para, uma por uma, devolverem as provas da sua sobrevivência à catástrofe.
Infelizmente, os nossos jovens alunos esquecem-se, inúmeras vezes, que não escrevem apenas para si próprios ou para uma determinada nota, mas para um leitor real. Que sofre a sério com a penosa tarefa de procurar sentido naquilo que, inúmeras vezes, não tem sentido nenhum.