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Opinião – Carlos Miguel Santos

 

Solicito, caso não seja incómodo, publicação do texto que deixo abaixo. Trata-se do texto que serviu de base a uma intervenção no programa Antena Aberta de hoje.
Sem mais assunto, os meus agradecimentos e cumprimentos
Carlos Miguel Santos
Antes de mais, gostaria de fazer uma espécie de ponto de honra a favor da classe docente. Como é habitual neste tipo de ocasiões, há sempre quem venha zurzir sobre a classe docente sem sequer saber o que é uma escola, sem saber o que é uma sala de aula, sem saber como transmitir a um aluno aquilo que é um dos maiores valores sociais: o conhecimento. Há sempre quem, ao estilo de treinador de bancada, venha destilar o seu veneno sobre uma classe profissional que deveria ser mais estimada e acarinhada. Todos nós, em algum momento das nossas vidas, dependemos de um professor. Até mesmo os senhores deputados e os doutos membros do actual executivo. Este ódio à classe docente apenas o consigo explicar por alguma espécie de recalcamento ou frustração freudiana.
Por outro lado, ninguém contestou com este aparato a greve dos estivadores, que provocou danos de centenas de milhões de euros na economia. Ninguém contesta greves de médicos que, lidando com questões de vida ou de morte, adiam operações vitais a pacientes. Ninguém contesta tanto qualquer greve de motoristas de transportes públicos. Repito: só por alguma espécie de frustração pessoal é que considero que alguém possa criticar assim tanto a classe docente.
É verdade que todos temos direito à opinião. A Constituição garante-nos isso. Também garante outras situações que estão a ser constantemente violadas, por exemplo as atinentes ao artigo 43.º. Contudo, em questões educacionais convém que a opinião seja esclarecida e fundamentada. O que não acontece na maioria dos casos.
Não vou falar das tristes figuras protagonizadas por um executivo moribundo e que quer dar, nesta teimosia infantil, uma espécie de prova de vida. Também não quero falar dos pseudo-comentadores políticos, cujas mentiras envenenam a opinião pública.
A greve, ao contrário do que se diz, não prejudica os alunos. O que está, efectivamente e neste caso, a prejudicar os alunos é esta atitude prepotente e infantil do Ministério da Educação. Hoje, enquanto uns alunos estão a fazer exame, outros não estão… Com que justiça? Como pode Nuno Crato garantir que os alunos que terão de fazer o exame posteriormente, o farão nas mesmas condições daqueles que, hoje e por questões tão arbitrárias como a inicial do nome, o conseguirão fazer? Para já, nunca há duas provas diferentes com o mesmo grau de dificuldade. A não ser que Crato queira aplicar a mesma prova e, aí, a questão é mais grave… Fosse eu pai de um aluno submetido a exame e processaria o MEC, garantidamente.
Para finalizar, há que esclarecer por que motivo os professores fazem greve e, aí, a comunicação social tem estado francamente mal e tendenciosa. Ninguém fala da falta de condições nas escolas, que chegou ao ponto de não haver sequer folhas de papel para fotocópia. Isto, enquanto Crato tem treze motoristas que ganham mais que qualquer professor. Ninguém fala do absurdo número de alunos por turma, 30, que o FMI quer, ainda, aumentar. Ninguém fala do fim das horas consagradas à direcção de turma, sendo que este cargo é a primeira face do contacto da escola com o exterior e que tantas incumbências legais tem… Basta olhar para o Estatuto do Aluno em vigor, idealizado pelo próprio Crato.
Um dia, o país vai pagar bem caro o que está a ser feito ao ensino. Talvez então se dê valor aos professores. Eu dou. Referindo que só percebe quem quer perceber, termino com uma frase de Kant exposta à porta da Escola Secundária de Matias Aires, no Cacém: “A dignidade não tem preço.”. Os professores têm sido bem dignos.
Tenho dito.
Carlos Miguel Santos