Diana Souza

Professora, escreve, reescreve, respira e quase ficciona o mundo enquanto dá aulas.

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Nos bastidores

Regresso à escola de onde parti há tantos anos atrás.

E é estranho regressar, pois, subitamente, deparo com muitos colegas que ainda se recordam de mim e me abraçam. Abraçam-me de uma forma tão genuína que fico comovida. Começamos o ano já atrapalhados com papéis, planificações e burocracias diversas que nos exasperam logo de entrada. Porém, neste regresso há também a cumplicidade e a promessa de que, juntos, conseguimos sobreviver às desditas que nos aguardam.

Preparo-me para abandonar o corredor dos reencontros espontâneos quando um rosto familiar embrulhado numa bata axadrezada me sorri.

– Ah! Então, é verdade! A senhora professora sempre está de volta!

É a dona Isabelinha, chefe das “assistentes operacionais”. Supostamente já devia estar reformada por esta altura, mas ainda por cá ficará muito tempo, para seu desconsolo e nossa tranquilidade.

A sua face, desde que me lembro, sempre teve este sorriso desenhado. O seu corpo, largo e generoso, cumprimenta-me com mais um abraço terno e familiar.

Lembro-me que sabia o nome de cada aluno de cor e era capaz de fazer o impossível por cada um que necessitasse de alguma coisa. Trazia comida de casa, roupa, materiais escolares, mandava controlar as refeições dos alunos complicados com olhos de águia, dava mimos aos pequenotes recém-chegados como se fossem do seu próprio sangue. Mas também era capaz de puxar as orelhas aos mais ariscos com a mesma reverência e entusiasmo com que os abraçava já adultos com os próprios filhos pela mão.

Com as suas colegas era tão rigorosa como justa com os seus pedidos, ou atritos, evidenciando uma simpática deferência para com os professores, à moda antiga. Foi várias vezes louvada pela direção, pelos colegas e por nós professores. Dizem-me que, apesar da distância e do tempo, manteve todas estas magníficas caraterísticas intactas. Mas ela queixa-se e com razão:

– Ó senhora professora, isto está tudo tão difícil, cada vez nos chegam mais meninos com fome, mal-educados… E nós somos cada vez menos, já viu? Depois mandam-nos o pessoal do IEFP sem formação… Parece que isto de trabalhar com crianças é para qualquer um…Child-holding-hands-with-adult-2

Sorrio e lanço-lhe uma piscadela de olho. Não, não é para qualquer um, só para pessoas especiais como a dona Isabelinha, cuja generosidade é tão grande que acabou de criar uma escala de funcionárias que vão mudar a fralda a uma menina em cadeira de rodas. Espantosamente, incluiu-se a si própria na tarefa, porque nenhuma das noviças que aterraram na escola queria assumir esse fardo.

A verdade é que também é graças a ela, à sua perseverança e teimosia que a escola sobrevive.

É pena que os senhores ministros da educação continuem a fechar os olhos às donas Isabelinhas das nossas escolas porque, quando elas existem, nunca fecham os olhos a ninguém. E sem dúvida, merecem muito mais do que um ministério que teima em decepar a alma da escola.

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ARMANI OU GIOVANNI GALLI?

Quando se trabalha a língua materna na escola, a oralidade ocupa, tendencialmente, um lugar secundário. O que é pena, pois sabemos que quem domina a oralidade escreve melhor, tem um sentido crítico mais apurado, melhor capacidade de interpretar os outros e de autocorreção.

Um dos exercícios mais enriquecedores desta área é, sem dúvida, a análise pormenorizada dos oradores que cruzam os meios de comunicação social. Sem que nos apercebamos, passamos, muitas vezes subliminarmente, uma mensagem que pode ser lida nas entrelinhas do nosso rosto, dos nossos gestos, da nossa postura corporal. São os elementos externos não-verbais que integram, entre outras, as competências pragmático-discursivas dos falantes.

A arte da oratória consiste, precisamente, em dominar todos estes elementos e aprende-se na escola ou, no caso de muitos políticos, adquire-se ao longo da vida com a experiência e o apoio de especialistas de imagem e da fala.

O debate de ontem ajuda-nos a refletir, precisamente, sobre alguns destes aspetos que podem, inacreditavelmente, contribuir para eleger ou derrotar alguém.

É quase como se perscrutássemos a diferença entre um f975542ato Armani ou um Giovanni Galli: se eliminássemos o som dos interlocutores, o que observaríamos? Apenas a forma, ou os elementos não-verbais – de um lado a gesticulação excessiva a partir de determinado momento, o franzir frequente da testa, o olhar cabisbaixo ou focado nos interlocutores locais, o apertar tenso das próprias mãos. Do outro um uso direcionado do olhar (inúmeras vezes focado na câmara e, portanto, no eleitor / espectador), o sorriso quase frequente, o gesticular controlado, o realce de elementos visuais reforçando ideias.

Quando nos centramos no domínio articulatório, porém, de um lado a voz clara e percetível contrastava com uma articulação, ocasionalmente atabalhoada e sem sons totalmente percetíveis, originando até deslizes caricatos como o inesperado neologismo “medidas austoritárias”. Porém, porque é do conteúdo que depende a vida dos portugueses, foi percetível um intercruzamento de discursos, o desrespeito pelo tempo de intervenção e ideias quase fugazes sobre as áreas debatidas – saúde, impostos, segurança social, desemprego, emigração, etc.

Espantosamente, durante estes 90 minutos não houve uma única palavra sobre a EDUCAÇÃO. Nada. Absolutamente nada. O que só revela que certos fatos não conseguem servir bem a todos.

É muito frequente comprar-se o livro apenas pela capa, ou optar pelo fato mais caro por uma questão de confiança, ou pelo mais económico por mera simpatia e conforto.

Mais do que nunca é essencial que ensinemos os nossos alunos de português a serem cautelosos com a utilização da competência oral e com a observação dos domínios que ela extravasa. Lastimosamente, aquilo que ela omite pode ser, sem dúvida, bem mais preocupante do que tudo aquilo que revela.

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Contratação aos pacotes

A coisa passou-se, sumariamente, da seguinte forma – o ministro, preocupado com a proximidade das eleições e a possibilidade de incumprimento de prazos previstos para as colocações de professores, convocou uma reunião exigindo que se apresentassem formas rápidas de seleção de pessoal, sobretudo para que os senhores encarregados de educação, votantes, percebessem que a competência do ministério era absoluta e irrepreensivelmente eficaz. 

Por entre a discussão de ideias que fervilhou na mesa, ergueu-se discreta e hesitante, de início, a voz gentil da casta e devota secretária do assessor do secretário do gabinete do senhor ministro. Depois, tomada por uma súbita emergia, ergueu a voz e proclamou, ante o iluminado silêncio que se fez sentir:

– Propomos às empresas externas de contratação de docentes que usem o OLX. 

De início alguém, por certo uma daquelas vozes que apenas vêem obstáculos no imparável futuro, argumentou que a legislação não permitia tal atropelo legal. Logo soou o senhor ministro, ufano com tal descoberta que abria a porta a oportunidades inigualáveis:

– Mude-se a legislação!!!!! 

Mas, como isto das ideias funciona como as cerejas maduras, come-se uma e logo se deseja trincar outra, ocorreu à iluminada cabecinha do assessor do secretário do gabinete do senhor ministro que, além do OLX, podiam ser utilizados os jornais de divulgação maciça, como o Correio da Manhã, mesmo ao lado das fotografias das meninas das massagens, pois o destaque até é maior, ou junto ao obituário do DN, tendo acrescentado alguém que a grande vantagem era que os classificados também podiam ser consultados on-line, em Portugal ou no estrangeiro. 

Entusiasmado com o tremendo progresso das ideias que despontavam, o secretário do gabinete do senhor ministro sugeriu que se alargasse a possibilidade de contratar professores, à moda americana, com anúncios bem visíveis nos pacotes de leite do dia, complementando a proposta com os pacotes de cigarros, o que concederia, assim, uma nova oportunidade de vida aos professores que fumassem.cigarettes-771950_640

O manancial de ideias, tão jactante e promissor foi, contudo, interrompido pela hora já tardia que obrigou ao refreamento das propostas sobre a mesa. Contudo, assegura quem presenciou, que saiu o ministro visivelmente satisfeito com tão profícua equipa que ali desenhou rapidamente o futuro da educação e a reeleição governamental. 

Em surdina, um minúsculo assessor ainda deixou escapar que eram ideias de tão grande excelência que bem podiam ser aplicadas aos médicos, aos advogados, aos juízes… A seu lado alguém o mandou imediatamente calar, resumindo a questão:

– Estás parvo ou quê? Queres arranjar problemas ao governo? Tem juízo, pá, tem juízo…

 

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Decisões na tábua

É difícil atingir a concórdia com tanta gente junta à mesma mesa. E cada vez era pior, sobretudo, porque o homenzinho das tabelas coloridas insistia em criticar cada decreto-lei produzido, teimava em apontar defeitos em cada lei primorosamente refletida em cada gabinete simpaticamente inspirado à beira Tejo.

Estava farto o excelentíssimo secretário de estado da educação e exigia que se desse exemplo de celeridade e competência dos serviços. Havia dias em que, em coro, lhes apetecia apenas, a todos, mandar o homenzinho das listas coloridas, enervante e intriguista, comer as tripas todas.

Não havia sossego com aquele tipo sempre a imiscuir-se nas tarefas alheias. Por isso, a excelentíssima diretora dos serviços gerais ordenou à respetiva secretária assessora que trouxesse consigo já uma solução definida para acelerar os procedimentos.

Determinada a cumprir o pedido, ponderou numa ideia visionária para resolver os contentos. Largamente dada às espiritualidades, pareceu-lhe, até, bastante óbvio o caminho. Por isso, logo no início da reunião, apresentou uma tábua de ouija que assentou sobre o centro da mesa.

Os presentes entreolhararam-se com uma efervescente curiosidade e escutaram a sua interlocutora que explicou com uma aquática clareza as regras, ponto por ponto.

– Meus senhores, para evitar detenças e assumirmos com eficácia e confiança as decisões aqui tomadas, há que escutar o que nos diz a tábua. Cada um coloca suavemente o dedo sobre o indicador móvel. Repito, suavemente, para não se aldrabarem as respostas. A questão é lida e o indicador seguirá para a resposta mais adequada a cada caso. Não há cá dúvidas, ok? É o que a tábua manda, certo?tabuleiro-tabua-ouija-madeira

Um burburinho de entusiasmo apoderou-se do conselho, que ninguém gosta de chegar tarde a casa, e todos assentiram. Depois, posicionaram-se ordeiramente sobre o tabuleiro e o representante do conselho jurídico começou a ler a listagem de questões com voz bem sonante.

– Então, vamos lá a saber, podem os professores colocados no MI permutar?

E, ligeirinho e célere, o indicador desenhou um simpático sim.

Os presentes sorriram e registou-se a resposta dada para integrar num decretozito seguido de uma notinha informativa que esclarecesse quaisquer dúvidas sobrantes.

– Os permutantes devem ser os de 1ª prioridade?

E, ligeirinho e célere, o indicador desenhou um simpático sim.

– E os de 2ª prioridade também podem permutar?

E, ligeirinho e célere, o indicador desenhou um “depende”. Os presentes entreolharam-se, espantados e o representante jurídico prosseguiu:

– Os de 2ª prioridade que ficaram colocados permutam?

Logo ali surgiu um “sim” esplenderoso.

– E os que não ficaram colocados?

E, ligeirinho e célere, o indicador desenhou um enfático “não”.

A excelentíssima diretora dos serviços gerais engoliu em seco, porém a respetiva secretária assessora, apossada de um poder irrefutável pela hierarquia ali presente, rematou quaisquer dúvidas que subsistissem.

– Pronto, agradeçam e despeçam-se. A tábua nunca falha, nunca se engana.

E, assim, pela primeira vez na história dos serviços administrativos da educação houve consenso absoluto e uma reunião de breves 10 minutos em que tudo se decidiu a contento de todos e todos seguiram para lanchar ainda em casa.

 

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Aylan

Não era sobre isto que queria escrever, mas, por mais que tente, não consigo libertar da caneta uma palavra sequer sobre o nojo que é a BCE, ou o vómito que representa a contratação das AEC, ou a nódoa sanguínea que continua a representar o desemprego de inúmeros professores com idade para estarem numa sala de aula, em vez de esperarem sentados no Centro de Emprego, ainda à espera do futuro.

Por mais que tente, falha-me a respiração a cada linha, rasgam-se as palavras, mergulhadas numa penumbra dolorosa e sufocante. Chega-me, a cada momento, apenas a espuma do mar,

apenas a espuma do mar,

impregnando-se os vocábulos enraivecidos na areia densa e pastosa.

E, por isso, hoje não consigo pensar no resto do mundo em volta daquela praia.

É apenas lá que ele subsiste. Perdura ali, inerte, jazendo num banho doce de medo e horror, fixando os dedos imóveis, rechonchudos e ternos nessa mesma linha em que o milagre se desfez.

Aquelas mãos eram como as mãos do meu filho quando tinha apenas 3 anos. Aqueles pés, eram como os pés do meu filho com aquela idade. E eu, sempre que podia, mordiscava-os e beijava-os naquela terna ânsia que cada mãe tem de trincar cada filho com um amor incomensurável para o obrigar a crescer devagarinho.

Deixem-me apenas respirar, por favor.1

Este menino dorme num colo de areia e, por isso, desculpem, mas não posso, não consigo afastar-me da espuma que o cobre. E apetece-me apenas o silêncio das coisas simples e domesticadas.

No entanto, quando, finalmente, se vê isto, já se sabe quase tudo o que a humanidade tem para dar.

E é por isso que Aylan perdurará naquela praia, tanto, mas tanto, tanto tempo que dentro das pálpebras de cada homem nascerão lâminas de picos que impedirão que feche os olhos e finja que não vê.

Porque este menino não era filho de alguém.

É filho de todos nós.

 

 

 

 

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Cenários de verão IV

Bolas. Bolas. Bolas. Bolas.

Estou deitada, o sol a varrer-me o rosto até se derreterem as bochechas, a areia quente a morder-me de prazer os costados, mas só consigo pensar nas bolas.

Nem dieta, nem gastroentrite, nem a comida que trago na cesta de piquenique, nem o mar a pedir-me mergulhos. Só me apetecem as bolas.

Mal chego à praia já me imagino a trincar uma, ainda quente: as pepitas de açúcar desfazendo-se lentamente no meu palato, o doce creme solar escorrendo na garganta, a fofa massa mordiscando-me calorosamente a língua, enquanto tudo em meu redor se sustém quieto durante aquele maravilhoso instante de prazer quase orgásmico.

E apesar de serem vários os vendedores que por aqui pululam, só as bolas de um me são absolutamente irresistíveis. É já um homem sexagenário. Traz a pele tão tostada pelo sol que, creio, é impossível qualquer maleita sobreviver ao casco duro e inflexível em que cada poro se transformou. No rosto desenham-se as linhas da sua vida, como caminhos fundos, irremediáveis, surpreendentes.

Todos os anos marcamos encontro aqui, neste areal feito de gente, céu e mar. E todos os anos lhe confesso fidelidade absoluta. À minha volta a tentação é, por vezes, excessiva: bolas de Berlim de chocolate, de maracujá, de ananás. Enfim, tenta-se reinventar o impossível. Mas bolas a sério, bolas que são mesmo bolas só mesmo as do senhor Zé e unicamente aqui.

Não consigo imaginar trabalho mais árduo num dia de verão do que carregar em cada mão uns quilos pesarosos de massa levedada, embebida lentamente no óleo quente.

Porém, estas bolas trazem mais do que os ingredientes que revelam. Quando o senhor Zé se aproxima, sentamo-nos os dois como velhos conhecidos, a trocar breves histórias de vida, enquanto ele delongadamente me devolve o troco.

A sua voz rouca arrasta o diálogo enquanto cuidadosamente embrulha a minha bola favorita em todo o mundo, no papel subitamente pintalgado de óleo doce. Sorri com a minha curiosidade anual em saber da sua vidinha no inverno (é pescador), confessa-se:NM1155_BolasBerlim

– Ó menina, antes aqui que lá (aponta para o mar)… O mar de inverno engole a gente, menina. Aqui na areia ninguém nos bota a mão.

Depois, vagarosamente, prossegue o seu caminho depositando pegadas fundas na areia escaldante. E eu reparo que a sua planta dos pés, apesar da tez morena daquele homem, é de um branco salino. Ele ri-se e diz que calça uns “Luís Vitons especiais para praia”. Insubstituíveis.

É nestes momentos que nos sabemos privilegiados, não por trincar esta bola, esta maravilhosa bola irresistível, mas, sobretudo, por ela representar realmente um momento de alegria para quem a oferece – segundo o senhor Zé, cada caixa de bolas que vende dá-lhe direito a mais uns dias extra de vida, longe do mar tempestuoso. E é por isso que, quando como esta iguaria, percebo que a vida me é preciosa no palato e no coração.

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Cenários de verão III

 

O areal estende-se a perder de vista. O azul manso beijando o doirado doce, a suave brisa vinda do pinhal, o cheiro encorpado e denso do carume. Que local lindo para beijar o mar.

Bem perto de mim, porém, observo, curiosa, uma tribo considerável de pessoas, todas saídas diretamente de uma revista pronta a consumir, gente de casta distinta: corpos bem torneados, calçõezinhos às riscas, cestazinhas de vime, bronzeado intenso e o ar saudável da absoluta despreocupação. Ao redor dos adultos, um grupo de miúdos de idades diversas e estonteantemente loiros enleia-se em brincadeiras à beira-mar, construindo castelos. sand-465724_640

De olhos debruçados no mais novo, uma jovem rapariga, cuja pele castanha e aveludada se destaca no enquadramento, acompanha cada gesto com terna paciência. A voz de uma quarentona platinada, desliza até ali:

– Guilherme Maria, venha secar os calções!

E o garoto, miniatura daquela gente grande, corre em bicos de pés até ao grupo de adultos, todos com o “você” pendurado na boca como um irrefutável anzol.

Reparo numa breve troca de palavras entre as duas mulheres, a provável mãe e a possível ama. Então, a primeira agarra no pequenote pela mão e quase passa por cima de mim, quebrando a linha invisível que nos separa, numa espécie de estranha urgência.

Para à beira do mar, debruça-se sobre o menino e ajuda-o a desenvencilhar-se dos calçõezinhos também às riscas. É uma bela imagem em contraluz, confesso, quase dá vontade de lhes roubar o retrato.

Quando volto a observar aquele minúsculo enquadramento no extenso areal, reparo, surpresa, que, dos dois figurantes, apenas sobrou um pequenino e perfeitíssimo pináculo castanho e espiralado, apontando diretamente ao céu, ainda fumegante.

A platinada mãe e o seu Guilherme Maria arrumam agora as coisinhas da praia, juntamente com o resto da tribo, enquanto a doce mulata segue o rasto do grupo, carregada de brinquedos, toalhas, cestinhas de vime e minúsculas cadeirinhas, mais o menino, aquele doce menino angelical, preso na sua mão.

Definitivamente, há paisagens que não merecem as pessoas que as habitam.

 

 

 

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Cenários de verão II

A luz da cidade conflui aqui como um rio. É tão forte e explosiva a claridade que tenho de cerrar os olhos.

Agrada-me a ideia de uma praia citadina. Porém, quando o elevador do Lavra me eleva a esse pedaço de ansiado céu, surpreende-me a minha própria expetativa: o areal está confinado a um espaço exíguo e a fonte tenta simular uma piscina. Miúdos ansiosos teimam em mergulhar, enquanto um ou outro adulto passeia a água pelos joelhos.

Não era de esperar outra coisa, qual o espanto? Lisboa para ser moça tem de se cumprir menina. Sinto uma estranha inveja da despreocupação risonha de cada miúdo que chapinha afugentando o calor.IMG_3572

Do alto do jardim, os curiosos debruçam-se surpresos ou deliciados com as brincadeiras infantis lá em baixo.

Reparo, então, num turista que, encaixado num discreto muro, não larga a máquina fotográfica, nem desvia a objetiva da mesma direção.

Tem um aspeto polido, homem provavelmente cinquentão. Debruço-me para tentar perceber o foco do seu interesse. Passam alguns minutos e prossegue compenetrado no seu afazer. Como não arreda pé daquele canto, decido, discretamente, contorná-lo para tentar vislumbrar o seu interesse fotográfico.

É, então, que o meu coração me entope a garganta. No seu ecrã digital são visíveis, mesmo a alguma distância, fotografias dos jovens banhistas. Pior, não só os fotografa com o zoom no alcance máximo, como o faz com requintado pormenor, selecionando partes do corpo.

Um vómito súbito aflora-me a boca e sinto uma vertigem de raiva. Lá em baixo um polícia passeia confortavelmente pelo breve areal.

Tenho vontade de lhe berrar que suba, que suba depressa, que venha arrancar este nojento detrás dos arbustos, que lhe arranque as vísceras e as pendure no corrimão ao longo do jardim.

Mas os meus pés petrificaram naquele lugar, horrorizada com a minha própria descoberta.

Tento respirar fundo, encaixar o coração no sítio, afastar-me silenciosamente, tal como aqui cheguei. Desço as escadas com a maior rapidez que consigo, alcanço o agente e, enquanto lhe explico tudo, o meu olhar percorre o caminho inverso até se cruzar com o daquele verme feito de cuspo.

Infelizmente, dei o alerta de forma óbvia e vejo-o desaparecer silenciosamente enquanto o polícia sobe apressadamente as escadas e chama pelo rádio outros colegas, tarde demais.

Cá em baixo os miúdos prosseguem chapinhando felizes, mas eu sinto, simplesmente, a tristeza dura e fria de uma indesejável tarde de verão.

Que miséria de mundo este em que nem na infância nos sabemos seguros.

 

 

 

 

 

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Cenários de verão I

Arrasta-se ao  longo do areal com a face transfigurada de raiva. O miúdo, pequenino, moreno atarracado, o pescoço colado aos ombros e a cabeça quadrada, berra com os dois pulmões  presos na boca.

Lá do fundo chegam também aqui os ecos de uma voz feminina, possante, também ela nitidamente zangada, que se sobrepõe ao mar, ao calor, ao ruído marinho das outras pessoas::

– Ó Simão! Ó Simão Filipe! Viens ici!!!!

O garoto prossegue mais alguns metros indiferente, pontapeia a areia com desprezo.

– Ó Simão, ó Simão Filipe, anda cá, pá!!!!!!

Inconsolável com alguma contrariedade, o garoto regressa ao colo materno, rodeado pela sua tribo que trinca consoladamente pastelinhos de bacalhau e croquetes de carne, ainda a pingarem de fritura, deixando oleosos os  dedos, as toalhas e a areia em volta pintalgada de salpicos de gordura. 1

A mãe, ocupando todo o espaço do guarda-sol, agarra o Simãozinho por uma mão, mas este gira furibundo, berrando que não quer, o que quer que seja que tem mesmo de ser, gira proferindo impropérios, misturando línguas numa intrincada dança furiosa de palavras. Continua a girar e gira tanto que, inesperadamente, a mãe, esse gigantesco naco de mulher mal passada debaixo do guarda-sol, também começa a girar, e gira o guarda-sol e gira a tribo toda, de tal forma que um vendaval terrífico e espiralado se forma mesmo ali, fazendo voar chapéus por todo o lado, enquanto a areia faz remoinhos dolorosos em torno dos incautos banhistas inesperadamente chicoteados por grânulos velozes.

O Simão Filipe ainda berra com todos os pulmões que “não e não e não!”, e eu podia jurar que a culpa de toda esta ventania era dele, do pestezinha que rodopia ainda preso por uma mão num turbilhão de berros e ar. Então, um súbito buraco fundo ergue-se na areia, como o olho de um tufão enegrecido, que imediatamente engole tudo até a praia se tapar e acomodar de novo numa líquida tranquilidade feita somente de oiro, sal e azul.

Respiro fundo e deito-me na toalha agora que a paz regressou ao meu pequeno pedaço de paraíso.

Então, como nas catacumbas do inferno erguendo-se do chão, oiço outra vez:

– Ó Simão, Simão Filipe, viens ici, pá! ‘Tás aqui ‘tás a manger!!!

 

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Coisas estranhamente mundanas – minutas de Café

O dia está soalheiro e sinto-me cheia de energia. Entro numa pastelaria que abriu recentemente perto de mim. O espaço é agradável, está, aparentemente, bem organizado, é espaçoso e cheira ainda a novo. Dirijo-me ao balcão e peço um café com um bolo que cobicei na montra dos doces.

O senhor, cordialmente, questiona-me se já pedi a minuta.

Franzo a testa, nunca ouvi falar em semelhante coisa e ele clarifica a óbvia surpresa que o meu silêncio evidencia.

– Aquando do seu pedido tem de nos entregar a respetiva minuta.

Às vezes as coisas óbvias são tão irremediavelmente estranhas que se torna difícil dissimular o espanto que nos causam.

– Mas qual minuta?

– Depende, menina. Se só quiser café, pede ali naquele balcão a minuta 1, 2 e 3. Se também pedir bolo sãos as 3 seguintes.

O homem diz isto com tanta convicção e profissionalismo que é difícil não o levar a sério. Porém, permaneço incrédula. Como ele se apercebe da minha resistência e a fila atrás de mim se começa a impacientar, resume-me a questão:

– Vejamos, na minuta 1 deve referir o tempo de experiência que tem a beber café, em dias. Não se esqueça que deve comprovar esse dado com o seu médico de família.

A minha testa franze-se de tal forma que o meu rosto deve ter recriado uma nova forma humana. Mas ele prossegue impassível:

– Na minuta 2 deve referir o seu nível de envolvimento com a cafeína e a justificação da importância da mesma na sua vida. O médico de família deve também atestar esses dados. Na terceira minuta, por favor, refira o tipo de café em que se tornou especialista e comprove o grau de envolvimento que possui nessa especialidade. O Presidente da Junta de Freguesia da sua área de residência deve atestar a sua declaração.

– Mas eu só queria um café e aquele bolo…coffee_wallpaper_black_and_white_968

– Pois, mas para o bolo já necessita das três minutas seguintes. Na primeira refere qual a experiência em degustação daquele bolo em particular, contabilizada em dias. E para as seguintes o mesmo que referiu para o café, mas relativamente ao bolo que selecionou. Compreendeu? Contudo, cuidado!, porque se optar pelo mil-folhas, deve acrescentar a minuta número 7, por causa do elevado colesterol…

–  Sim, mas não percebo por que razão não basta a primeira minuta que comprova há quanto tempo bebo café, ou porque não posso apresentar esses dados online, na minha ficha de cliente, por exemplo, era mais rápido…

– A menina, por favor, não complique !!!! Além disso, cada minuta tem de vir assinada pelo seu médico de família e pelo Presidente da Junta de Freguesia da sua área de residência. Próximo!!!!!

Retiro-me da fila maldizendo o anseio atroz que me fez arrastar até ali… (#$%&*!!!!). As pessoas atrás de mim têm já várias folhinhas na mão com carimbos e declarações intrincadas que apresentam ao glorioso empregado do café.

Sinto-me cabisbaixa e com o olhar enegrecido de ódio. O dia lá fora escureceu, as nuvens ganharam espaço no céu, estou inexcedivelmente exaurida de fúria.

Subitamente acordo deste inesperado pesadelo que me acometeu em plena noite. Estou alagada num suor fininho que me envolve todo o corpo.

Sorrio ante a minha própria estupefação e respiro de alívio.

Felizmente, na vida real estas coisas não nos acontecem, não é?

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