Diana Souza

Professora, escreve, reescreve, respira e quase ficciona o mundo enquanto dá aulas.

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Genéticas e heranças

 

A funcionária da portaria irrompeu pela escola adentro aos berros. Tinha levado uma valente galheta ao tentar separar dois jovens pré-adolescentes embrulhados numa briga à saída da escola.

Com o sangue a escorrer pelo roxo nariz abaixo, soluçava a sua fúria a quem a queria ouvir, que “não me pagam para isto, este bando de malandros sem educação, parecem uns animais selvagens” e avançou, pingando o átrio do pavilhão e salpicando umas quantas paredes que não se lhe desviaram do caminho.

A algazarra era tão audível que, na sala de professores, ficámos na expectativa de perceber quem seria o azarado DT que ia ter de tratar de mais este grossíssimo pincel. Azar dos azares, calhou ao Rodrigues, porque depressa se ficou a saber que os adolescentezitos eram dele.

O Rodrigues lá se encaminhou, cabisbaixo e rubicundo, a reclamar que sobrava sempre para ele, o que, felizmente, para os restantes é verdade. Calhou-lhe um concentrado de problemas ambulantes, mas, que se dane, porque cada um de nós, DTs, já tem a sua dose cármica de chatices.

Quando chegou ao portão, porém, constatou que nova animação se avizinhava, agora do lado de fora do muro.

A mãe de um dos gaiatos aproximou-se do colega briguento e tratou de exigir explicações: quis logo saber quem é que ele julgava que era para pontapear o seu honrado descendente de forma tão vil, acrescentou, resignada, que os progenitores sofriam de incompetência educativa, mandou-o de volta para o útero da infame progenitora e concluiu o pedagógico discurso com algum vocabulário do velhinho vernáculo nacional que, como todos sabem, valida sempre qualquer argumento.

Nisto, está a dita senhora junto ao muro exterior da escola com o filho agarrado à saia a incitá-la, ela a espetar o dedinho eriçado junto às narinas do outro flausino, e eis que entra em cena o pai do ofendido. Confronta a senhora, esta riposta quando, inesperadamente, no auge da cena, uma inesperada reviravolta na intriga nos apanha desprevenidos. Subitamente, o progenitor de tão genial criatura, irrita-se com o próprio filho e zááástráspás, toma lá que já almoçaste.

Não obstante a estrondosa galheta que o educando recebeu, ocorre, agora, nova alteração no enredo que nos deixou, a todos os que aguardavam o desfecho para cruzar sem perigo o portão da escola, boquiabertos.

Num breve segundo, o rapaz devolve igual ao pai, enquanto profere uns grossos adjetivos devidamente articulados.

Afinal, sempre devemos estar a fazer alguma coisa bem na escola, já que este aluno deu claras provas de brilhantismo  na articulação fonética e na extraordinária projeção de voz. Bem haja, que não houve quem não percebesse com precisão o vocabulário profusamente projetado.

O Rodrigues encolheu os ombros, deu meia volta e 1pediu para se chamar a escola segura, porque destas famílias modernitas, pouco há a saber e ninguém nos prepara para tanto.

Lá fora, um amontoado de pais e alunos prosseguiu aplaudindo a briga, agora de progenitor e filho que, entre empurrões e chapadinhas de amor, retribuía em igualdade as nomenclaturas de ternura, designando um sem fim de familiares dos quais cada um era, certamente, herdeiro.

Rapidamente me veio à lembrança a recente revelação de uma colega, numa escola secundária aqui perto, que desabafou ter sido seguida até casa pela encarregada de educação de um aluno a quem marcara falta disciplinar.

Ao fazer queixa na polícia, foi informada que de pouco lhe valeria, uma vez que só a ofensa física originava algum tipo de desenvolvimento. Pois, nada como um professorzito pontapeteado.

Depois, lembrei-me, também, da reunião que eu própria tive com o pai de um aluno da minha direção de Turma que rematou o discurso febrilmente condoído e questionando-me sobre o que mais poderia ele fazer pelo filho que não lhe obedecia, nem queria saber das suas ordens para nada. Estava, naquela altura, disposto a ir à CPCJ para se livrar de tamanho problema…

Tempos hediondos estes, em que a escola já não é um lugar de aprendizagens, mas um repositório descontrolado de emoções.

Pouco a pouco, desconfio, ainda alguém há-de legislar mais um acréscimo nas inenarráveis competências do professor do século XXI, exigindo-lhe que, além dos filhos, també eduque os pais…

 

PS – Qualquer semelhança com a realidade é puramente factual.

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A melhoria na Educação Especial?

São professores da Educação Especial? O que gostariam que mudasse? O que precisa realmente de ser mudado?

 

 

educacao-especial

 

 

O grupo de trabalho criado pelo Despacho n.º 7617/2016, de 8 junho, pretende propor “um conjunto de alterações ao Decreto -Lei n.º 3/2008, de 7 de janeiro, alterado pela Lei n.º 21/2008, de 12 de maio, e respetivo enquadramento regulamentador, incluindo os mecanismos de financiamento e de apoio, com vista à implementação de medidas que promovam maior inclusão escolar dos alunos com necessidades educativas especiais.”

Ainda ninguém sabe o que se propõe, mas era importante que o grupo de trabalho soubesse o que os professores que lidam com necessidades educativas especiais têm a dizer pela sua própria voz.

Deixem aqui a vossa opinião através de um comentário…

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A dar música…

Há quem tenha a radiofonia em direto nos corredores e há quem saia e entre na escola ao ritmo musical. De qualquer das formas, a música é benéfica e cria um ambiente saudável. Quanto às escolhas musicais, isso é que…

 

0http://www.jn.pt/local/noticias/porto/felgueiras/interior/escola-acaba-com-toque-e-usa-musica-para-chamar-alunos-5445016.html

 

 

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Discurso de Agradecimento

«Portugueses,

no dia que hoje celebramos, um dia que festeja, simultaneamente, o dealbar de uma nova realidade política e os professores, pilares da nossa sociedade, desejamos homenagear o seu papel fundamental e imprescindível no nosso país.

Sabemos que um país só pode ser tão bom quanto os cidadãos que possui. E que estes, só podem ser tão excelentes quanto os professores que os ensinam.

A formação das mentes e das atitudes das jovens gerações depende grandemente deles. E é, também, graças a estes que desafios e oportunidades mundiais estão ao alcance dos mais jovens.

É graças aos professores que é possível um ensino inovador, inclusivo e focado no essencial, que são as crianças e os jovens portugueses.1

Por isso, não exagero ao dizer que Portugal tem um compromisso solene com os professores que, com a sua profunda resiliência e espírito de abnegação, têm contribuído para o prestígio crescente do ensino português, dentro e fora do país.

Graças ao vosso esforço e empenho é possível sonhar o futuro, todos os dias.

Obrigado, professores, campeões da sala de aula, pelos conhecimentos que transmitem.

Obrigado, professores, campeões deste país, pelos quilómetros que percorrem para assegurar que esse conhecimento chega ao destino.

Obrigado, professores de Portugal, homens e mulheres de fé, que não desistem para cumprir o destino alheio.

Obrigado, professores de Portugal, pela vossa persistência, pela vossa fé, pela vossa serenidade ante a turbulência.

Um abraço aos professores de Portugal, por continuarem a acreditar, que é possível, a partir de um projeto, fazer-se cumprir um  país.»

 

Texto ficcional inspirado no Discurso de agradecimento de Marcelo Rebelo de Sousa à Seleção Nacional (11.07.2016).

 

Se fosse verdade, tinha sido bonito, não tinha?…

 

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Paralímpicos

A coisa mais dificíl de mudar é a mentalidade. Sobretudo quando é pequenina.

Tudo o resto, está comprovado, é mutável e alcançável.

 

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“Os jogos não são grotescos. Grotesca – ainda que menos visível – é a segregação que estas pessoas sofreram e sofrem tendo sido injustamente condenadas a “vidas separadas”. Grotesca é a exclusão, grotesca é a invisibilidade a que milhões de pessoas estão condenadas a ser vistas como deficientes mesmo sendo “eficientes” e muitas vezes mais eficientes dos que aqueles que se permitem chamar grotescas às suas ações.” David Rodrigues, in Público, 14-09-2016.

 

 

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A fogo e água

 

Antes de ti

havia terra

 

Havia o odor inebriante das folhas de eucalipto

O rosmaninho selvagem

A caruma quente do pinheiro

A brisa cantada dos grilos

O vôo furtivo dos falcões

O piar doce do pintassilgo

 

Havia tudo isso e muito mais

 

Chegaste, então, súbito,

como um raio ou um trovão,

um clarão devastador

uma língua de fogo

(talvez alguém te tenha dado vida enquanto sorria)

E varreste de labaredas a terra

 

Entraste pelo ecrã televisivo adentro

invadiste as redes sociais

Um espanto    um assombro de comoção incrédula – este é o meu país?

 

Mas, entre a parede de fogo1

a muralha de fumo

Ergue-se um homem

uma mangueira

tantos litros de água, lágrimas, desespero

 

Ao fundo desvanece-se

o choro de um cão

o grito fino de uma mulher desgrenhada

a tosse asfixiante da cólera

 

Entre a parede de fogo

a muralha de fumo

Ergue-se um homem

uma mangueira

desejando regressar

vivo

a casa

 

Indiferente, o país prossegue ardendo

Como todos os verões.

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TRANSPARÊNCIAS II

A Vânia disse: “vais a Arouca ter comigo e vamos juntas aos Passadiços”. E aquilo pareceu-me um bom plano de férias.

Espreitei imagens na net revelando um idílico e agradável passeio na natureza ao longo de uma robusta via de madeira. Aceitei o convite e não duvidei da minha opção ao conhecer a Vila e as pessoas.

Esqueci-me, apenas, que a Vânia é professora de Educação Física, o que significa que a perspetiva que ela tem da vida é distinta da minha.

Em primeiro lugar, porque a Vânia corre trinta minutos todos os dias. Antes de ir dar aulas às 8.30 da manhã. Não obstante tal facto, esqueci-me, igualmente, que foi dela a ideia de montar na escola uma parede de escalada.

Estes dois dados deveriam ter sido suficientes para refletir ponderadamente no amável convite. Basta dizer que sou de Literatura, não corro, nem ando que não me sente pouco depois, exausta, optando, preferencialmente, por observar o mundo enquanto permaneço tranquilamente inerte. Além disso, tenho vertigens.

E quando lemos a informação turística sobre os Passadiços não está escrito em lado nenhum que é um percurso de dificuldade acentuada para quem passa o dia com o cuzinho sentado e tem um medo de morte das alturas. Nada.

De modo que lá fui, convicta que oito quilómetros se fazem calidamente numa manhã de verão.

A coisa começou logo bem, porque o piso inicial, a subir, era de terra batida e eu comi o pó da Vânia que resolveu subir o monte em passo de corrida. Simpaticamente, esperou por mim e informou-me que agora é que começavam efetivamente os passadiços.

Para desgraça minha, pude perceber que subira no meio dos eucaliptos uma vasta área vertical, a suar as estopinhas, sendo que no topo havia a”mais bela vista possível da Serra”. Ora, se há coisa que abomino, é a vista que nos aproxima das nuvens, porque me assombra sempre o que ressurge “lá em baixo”. Os olhos bem tentam focar-se no que aparece logo à frente, mas o abismo sorve-nos num ápice.

De forma que a coisa começou a descambar lá do alto e eu percebi que aquilo ia ser mesmo duro. Mas, na verdade, ainda havia de piorar, porque os passadiços têm uma carrada de escadas. E isso também não li em lado nenhum.

Pelas minhas contas, mais de quinhentos degraus. A visão do inferno.

Julgamos que aquilo é só descer e, depois, duas coisas curiosas acontecem – o cérebro avisa que temos vertigens e as dobradiças dos joelhos começam a ceder com o esforço e a miúfa.

Portanto, o cenário de terror rapidamente se desenhou à minha frente e, em várias ocasiões, dei por mim a mandar a Vânia e os seus passadiços comer alho cru.

Por mais que desejasse apreciar a paisagem, a única coisa que vislumbrava era o abismo exposto perante as fendas dos degraus onde debilitadamente poisava cada pé e os intervalos das tábuas do corrimão a que me agarrava com unhas, dentes e furibundo desespero.

Isto enquanto tentava evitar que o coração aceleradamente exaltado, me saltasse da boca.

De modo que fui descendo com cautela, o suorzinho de miúfa a escorrer até ao longo, fundo e agreste vale, tão lá em baixo que podia jurar que só chega ao céu quem não sofre de vertigens.

Entretanto, passou por mim uma senhora escorreita e veloz, provavelmente percebendo o meu pânico interior gravado na minha contorcida face, e atirou, bem alto: “ai que estes turistas não sabem ao que vêm, julgam que os passadiços são canja…”

Eu não conseguia articular palavra, porque todo o esforço estava concentrado em agarrar heroicamente as tábuas descendentes e em não trocar os pés (e depois atravessam-nos, a nós que temos vertigens, estes pensamentos idiotas e desmotivadores – “se trocares os pezinhos estatelas-te na pedra lá de baixo e não é uma morte bonita de ter”). Mas, se conseguisse, tinha-lhe berrado com todos os pulmões que ninguém deixou aviso em lado algum sobre as contra indicações dos passadiços que amargamente descobri.

Logo a seguir, desceu todo pomposo o senhor músculos da “Herbalife – pergunte-me como”, uma freira e duas beatas significativamente céleres, um bando de emigrantes que intersecionam a língua materna e o francês a uma velocidade estonteante, mais um grupo extenso de adolescentes, dois ou três casais de namorados, um desgraçado de um cão.O34A3382

E era vê-los passar por mim, suados, mas aliviados no final e com ânimo para prosseguirem.

Percebi, então, num clarão visionário, que os passadiços deviam servir para pagar promessas. Isso sim, devia ser a sua real função, de tão penosos que se revelam para pessoas fisicamente preguiçosas como eu.

Mas eis que, estando eu embrenhada nestas ruminações, misturadas com umas quantas imprecações pelo meio, cheguei, finalmente, perto do rio.

Benzi-me incontáveis vezes, os joelhos tremelicaram de exaustão, a Vânia veio ter comigo e animou-me logo, dizendo, com um sorriso: “Agora é mais fácil. Mas ainda temos duas horas de caminho pela frente. Convém acelerar o passo…”.

Minha Nossa Senhora, mais duas horas disto????

Eu posso jurar aqui e agora que não sou capaz, que não é possível, no meu íntimo, desejo ser evacuada por um qualquer veículo motorizado, nem que seja um helicóptero dos incêndios, tanto me dá.

Mas, então, um estranho processo ocorre dentro de mim. O rio abeira-se cada vez mais e, acho que, pela primeira vez, oiço a água a correr paralela à minha passagem, o piar dos andorinhões que rodopiam num bailado sereno sob a minha cabeça, sinto o odor inebriante dos castanheiros e dos eucaliptos, observo as escarpas que desbocam num leito plácido. E sei que o meu corpo está tão exausto, mas tão exausto que o meu cérebro até se esquece que tem vertigens e deixa-me prosseguir caminho.

Por mais que me doam os músculos (que eu mal sabia que possuía), que o suor me desvende a exaustão em que mergulhei, não posso parar agora. A beleza que me cerca é pungente demais.

Sigo ao meu ritmo, observando o espaço em volta, bebericando os sons dispersos. Sobrevivo a três ininterruptas horas de passadiços e oito quilómetros (mas eu juro que foram muitos mais, porque aquelas curvinhas todas de degraus, tenho a certeza, não foram contabilizadas nos guias turísticos).

Amanhã, amanhã não vou mexer nem um centímetro do meu corpo.

Mas posso afirmar em letras garrafais: SOBREVIVI AOS PASSADIÇOS.

E isso ainda há de dar uma divertida crónica no Arlindo.

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TRANSPARÊNCIAS I

Estou de férias, ponto.

Sendo este o momento alto da minha vida, não quero saber de notícias educativas. Recuso quaisquer grelhas de Excel. Que se danem os concursos. Que o Ministério seja invadido por Argelinos em busca de refúgio. Que as pilhas de exames e testes ardam num torvelinho. Que os alunos ganhem uma viagem longínqua para Palma de Maiorca.

Estou de férias, ponto.

Por isso mesmo, limito-me a desligar todas as fichas da tomada e a usufruir do meu salário, deglutindo avidamente caipirinhas ao pôr do sol, mordiscando bolinhas de Berlim num areal extenso e, é claro, mergulhando, tal como faço neste preciso instante, numa piscina azul turquesa.

Ao meu redor uma volumosa família inglesa, dois ou três casais namoriscando e mais uns quantos diabretes chapinhando na água. Mas eu quero apenas sentir a líquida transparência cobrir-me a pele.

Flutuo com os olhos colados ao céu infinitamente azul, aspergindo as narinas com o odor dos pinheiros mansos que nos cercam. Ah, se isto é vida!! Quero lá saber dos tostõezinhos contados, da prestação da casa, do carro avariado no mecânico.

Estico os braços e flutuo como se fosse um nenúfar aspirando o sol.

Decido, contudo, dar um mergulho prolongado, sorvendo o céu projetado no fundo. Coloco os óculos, contenho a respiração e afundo-me na líquida dimensão. A plenitude deste momento é tão esmagadora, logo me transfigurando numa ágil sereiazinha que afugenta os seus maciços setenta quilos.1

Neste instante sou, apenas, a nadadora profissional de um musical de Hollywood. Ergo-me na superfície para rodopiar um bailado intrincado, projeto esguichos artísticos que desenham o arco-íris na superfície e volto a mergulhar até ao outro extremo da piscina. Serpenteio, submersa na tranquila liquidez, acelero e desacelero como se tivesse barbatanas. Aqui sinto-me plena e de uma leveza subtil.

Entretanto, vislumbro algo, pelo cantinho do olho, no mosaico luminoso da piscina. Bem lá no fundo. Eu podia ser, neste preciso momento, um mergulhador no mar das Caraíbas, descobrindo um tesouro.

Bato os pés celeremente, aproximando-se mais e mais do objeto estático que jaz no fundo da piscina. Caramba, devia ter posto as lentes de contacto, a minha miopia limita-me o meu raio de visão na mesma proporção que espicaça o meu imaginário.

Contenho a respiração um pouco mais e acerco-me para desvendar o segredo. Uma inesperada revelação faz-me disparar para a superfície como se fosse impulsionada por um foguetão.

Minha Santa Bárbara de Arronche!!! São Dionísio da Arruela!! Nossa Senhora da Agonia!! Poderei ter visto bem? Não me enganei no que percepcionei com os meus olhos míopes? Minha nossa senhora, eu engoli, pelo menos, três pirolitos desta água enquanto nadava. Por favor, alguém me diga que não é possível, que vi mal…

Olho em redor completamente em pânico.

“Pára. Flutua. Respira. Tu respira e pondera com calma.” Recupero o fôlego e decido que só me posso ter equivocado. Foi isso.

Voltemos a descer e observemos com maior tranquilidade. Aproximo-me discretamente, posicionando-me exatamente por cima do objeto. Depois, inspirando uma golfada de ar e de coragem, nado a pique até à proximidade máxima que me é possível, de modo a proceder à mais hedionda averiguação de que tenho memória. É impossível assumir agora qualquer confusão. Um robusto cilindro pontiagudo, denso e cerrado, jaz prostrado ante os meus olhos. Pior, confirmo que não está sozinho, mas tem mais dois amigos, menores, é um facto, nas imediações. E, definitivamente, não se trata de três ou quatro calhaus, mas de magníficos exemplares de fezes humanas, fibrosas e maciças.

Ejeto-me a toda a brida, com uma vontade inusitada de vomitar na borda da piscina.

São Miguel da Acha, rezai por mim. Dai-me forças, ânimo e redobrado fôlego.

Fujo numa corridinha veloz para o chuveiro mais perto, esfregando-me como se não houvesse amanhã. Todo o nojo a escorrer-me corpo abaixo e só me ocorre que engoli uns quantos pirolitos durante a minha exibição natatória.

Sorvo a água toda do duche com fúria e vou observando os desgraçados que me rodeiam. Uma daquelas bestas é o criminoso que conspurcou o paraíso.

Em breves instantes as minhas passadas nervosas levam-me dali para fora. Está um calor de morte e a piscina irá ficar miseravelmente fechada.

Assim, subitamente, se estragam umas belas férias e perdura uma inusitada memória indesejada.

Ai vida dura esta em que tenho de me contentar com um reles ar condicionado…

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Lá em cima, no 12º andar

O bicarbonato de sódio efervesce ligeiramente na água. Observo o corropio espiral das minúsculas partículas dissolvendo-se com indiferença num bailado circular, enquanto vislumbro as primeiras lágrimas a escorrer-lhe pelo rosto.

Estendo-lhe o líquido juntamente com um lenço, como se a dor da perda se colmatasse com um medicamento qualquer para a indisposição.

É fácil, tão fácil estar de fora e apenas consolar os outros. Consolar aqueles que observam o fundo do copo e o veem, ano após ano, apenas vazio.

Consolar aqueles que apostam tudo na geografia do impossível.

Consolar aqueles que se despedem dos amores com o coração rasgado ao meio.

Consolar aqueles a quem faltam moedas e sobram despesas.

Consolar aqueles que, estupidamente, sonham um dia chegar ao destino.

É fácil estar de fora, percorrer apenas nomes, números, posições e seguir caminho sem olhar para trás. E exigir muito sucesso no final das contas feitas.

Mas difícil mesmo é não perder a esperança, não deixar de amar o que se faz.

Difícil é sobreviver à injustiça de legislação que merecia, apenas, ser abundante papel higiénico de uma casa de banho pública qualquer.1

Difícil é dizer basta e tomar a decisão corajosa de criar uma escada equilibrada, estável que verdadeiramente permita uma graduação justa.

Sorte de uns, azar de outros. Pois, coisas da vida…

Isso, agora sorve o bicarbonatozinho enquanto ainda tens a possibilidade de sofrer mais uns quantos murros no estômago.

E observa como, lá em cima, no 12º andar de uma rua em Lisboa, te consideram nada mais do que uma breve formiga indiferente.

Aproveita, limpa as lágrimas, mas mantém a cabeça baixa, baixinha. Não respires demasiado alto e prepara-te para recomeçar a rastejar.

Nada mais esperam de ti, professor eternamente contratado.

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Na sala, as cabeças

Na sala, as cabeças, circunspetas e ansiosas, poisam o olhar nas determinadas provas.

Ao fundo, pela janela, mergulho o olhar na extensa planície. O som melancólico de um trator devorando palha ecoa vagamente cá dentro com a mesma morosidade do calor que invade, pouco a pouco, a sala.

Enquanto a máquina prossegue um lento bailado de motor pesado e pneus inchados, reparo nos torresmos de palha que sobejam estáticos no chão. Uma nuvem de pó aurífero e andorinhas velozes e inebriadas deixa no ar a memória vaga de um quadro de Van Gogh.conto-corredor

Que pena a perícia com que os tratores empilham os fardos nos campos não ser a mesma que estes garotos suados usam para calcular as retas paralelas ou estabelecer inequivocamente o referencial cartesiano.

Pouco a pouco, poisam as canetas, exauridos pela espera do decisivo toque, enquanto o tique-taque do relógio na parede comanda as nossas vozes.

Despedimo-nos aqui do seu longo percurso.

De ora em diante, os fios que entrelaçámos irão ser definitivamente cortados.

E há uma melancolia macia e aveludada no fundo do meu coração.

Ser professor também é ter os corredores vazios, o coração partido e perder a escola.

 

 

 

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