Diana Souza

Professora, escreve, reescreve, respira e quase ficciona o mundo enquanto dá aulas.

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FONTE

Secaram-se teus olhos

de um tempo antigo

O passado nada mais é que um nome

O que vejo hoje,

Mãe,

tuas mãos docemente poisadas sobre o colo

Teu rosto

Teu rosto estelar

fitando ternamente

minha face

e dizendo

Vem sentar-te aqui

Como quem puxa

o fio de teia

para sempre preso

a meu coração

Então, reparo

de mulher

mingo-me de novo menina

Aninho-me em teu colo

O mundo ao nosso redor suspenso

em teu peito

como se tudo retomasse seu início

outra vez

E apetece-me chorar

por ter a pura felicidade

espelhada no teu rosto

vibrando fortemente

dentro de mim

 

http://trigger.photoshelter.com/image/I0000xX1fykcm8i4

 

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Avé Maria…

Juro: o meu coração caiu-me aos pés.

Eu tinha lido a legislação de fio a pavio, consultado os blogues, deambulado por entre os corredores cibernáuticos da DGAE. Não me enganara ao submeter a candidatura.

Mas agora, com letrinhas bem explícitas, lá estava: “invalidada”.

Percorri os dados com a minuciosa lupa da clarividente dúvida: nada me parecia incorreto.

Corri num ápice ao gabinete da excelentíssima senhora diretora, aguardei pacientemente que a porta permanentemente cerrada abrisse e procurei esclarecimentos.

– Não sei qual é o espanto, tu tens horário incompleto, não reúnes condições para vincular. Tens de corrigir isso.

Tentei contra argumentar, a legislação, as letrinhas douradas na portaria 129, mas ela revelou-se inflexível, que visse isso com a chefe da secretaria que tinha mais que fazer.

Saí porta fora com um nó apertado na garganta. A excelentíssima senhora diretora sentada na sua poltrona, alheia de canseiras e aborrecimentos, aguardando o beija-mão das eleições que se avizinham, e eu ali especada, o coração caído aos pés, com dezassete anos de aulas a palpitarem-me no peito, o bilhete para o último comboio na mão e o aviso súbito de cancelamento.

Estarrecida, corri para o computador, imprimi a dita portaria e foi munida de armas que arremeti contra a secretaria.

Sem desviar os olhos do portátil, o abutrezinho burocrático abanou logo a cabeça na minha direção:

– Olhe, professora, só faço o que me mandam.

– Mas, repare, diz aqui: “à exceção do ano escolar 2016/2017”.

Estiquei bem o dedinho nervoso a apontar as letrinhas douradas, caramba, a minha vida presa numa linha, por que razão tenho eu de passar por isto?

E na minha cabeça, a bombear-me o sangue nos miolos, o pensamento avassalador de toda esta injustiça de quem não quer saber.

Não basta o governo fazer da precariedade dos outros a sua bandeira, continuar a olhar para nós, professores, como uma classe marginal, ainda tenho de gramar esta neblina de desesperança que a minha própria escola me estende.

Desprezando a minha angústia e desalento, rematou o discurso com um “fale com a senhora diretora”.

E, então, estamos nisto, a diretora de porta outra vez fechada, as horas a contar, e eu pedindo por socorro ao deus da DGAE que, lá por detrás das teclas do seu computador, teima em ignorar a desesperança dos pequeninos.

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“Somos repórteres!” – quando a escola abre novos horizontes aos seus alunos…

O livro que hoje apresentamos abre espaço a uma reflexão que nós, professores, devemos instigar.

No momento em que se pondera a fusão de disciplinas, o trabalho focado na transdisciplinaridade, nos projetos, assente num perfil de aluno que o prepare verdadeiramente para o século XXI, chega-nos notícia de um livro original.

Original na medida em que todos os seus autores são alunos de uma escola que, através de um trabalho de pesquisa conjunto ou individual, mobilizou a aprendizagem da sala de aula para a escrita com um objetivo específico e palpável: assegurar que aquilo que o discente produz chega a um público concreto, chega a um leitor.

Este projeto partiu, sem dúvida, de um intrincado trabalho de equipa entre professores e alargou-se para além do universo da escola com os jovens a tomarem opções distintas, expressando, através de inúmeras reportagens, os seus próprios pontos de vista.
Pessoalmente, não conheço forma mais bonita de motivar o gosto pela escrita.

Aqui ficam os parabéns do blogue a docentes e alunos do 8º ano do Agrupamento de Escolas 4 de Outubro, exemplo claro de que, na sala de aula, se aprende mais quando implodimos o espartilho de aprendizagens petrificadas…

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O melhor do lado tecnológico – parte III

Este futuro que se f****.
P**** para isto. Mas que m**** vem a ser esta?

O Jonas está outra vez com o telemóvel na mão depois de lhe ter pedido para o guardar? Grande palerma… Ninguém me paga o suficiente para aturar as m******* destes imbecis que temos de gramar antes de entrarem nas instituições de correção juvenil.
Aproximo-me de mansinho, pois se aquele tolo julga que a mesa me inibe a visão de raio-x está bem enganado, o estafermo.
Contudo, apercebo-me que afinal tem, não um, mas dois telemóveis nas mãozinhas de traficante de tecnologia móvel, mais um potencial utente do belíssimo sistema jurídico português, este PCAzito do caraças.

– Ouve lá, Jonas, eu não te pedi para guardares o telemóvel? Ainda não acabaste a tarefa e queres que eu me aborreça contigo?

Cá por dentro fervo em lume denso, mas, com este grupo de estroinas delinquentes, a fala tem de ser calma, mansinha e ponderada.

O puto, no seu 1m80 de escuridão temerosa, mas adocicada, sabe-o e, no seu típico sotaque feito de candura e africanidade dengosa, retorque, tranquilo:
– ‘Storinha, relaxa, já acabei esta parte, mas deixe-me exp´rimentar isto agora para ver se o p’ograma funciona.
– Ouve, tu andas a traficar telemóveis? – inquiro com um sorriso afoito.
– Hé, ‘storinha, nada dessas cenas! Olha aqui, é o telemóvel da Leónia.
O meu olhar atravessa o outro lado da sala onde a morena sorridente acena ao robusto namorado.
– Explica lá isso melhor…
Então, o diabo em pessoa, mascarado de adolescente empreendedor e motivado para competências tecnológicas, clarifica-me tudo.
– Profess’ora, tu vês? O meu telemóvel está ligado ao da Leónia. Eu tenho acesso às cenas dela só pelo telemóvel. Descarreguei este p’ograma e dá p’a ‘tarmos sempre ligados. Eu protejo a minha dama. É o amor…
É amor o caraças, meu grande bruto, porque, logo a seguir, não satisfeito com o seu enormíssimo ato de empreendedorismo, revela-me ainda o que deixara oculto, enquanto poisa ambos os telemóveis na carteira.

Com o telefone da Leónia desligado, acede, a partir do seu, ao olho bem aberto do telemóvel dela e vê, na privacidade daquele espaço, o teto da nossa sala.
Sorri, numa candura sem limites que me ofusca o juízo, enquanto eu contra-argumento com questões de privacidade cujo significado tenho de trocar por miúdos.
Depois desisto e viro-me para ela, a potencial vítima ou enormíssima burra.
– Leónia, mas tu não percebes que ele tem acesso a TUDO o que tens guardado no teu telemóvel? Pior, sem saberes, está a ver a tua intimidade e pode partilhá-la com quem lhe apetecer sem que saibas de nada.
– Não, professora, o Jonas não é desses, ele só quer me proteger-me.
Não bastando tamanho argumento de idiotice, estas incorreções gramaticais atiram-me ao tapete.
P**** que pariu esta m****. Alguém me explique como gerimos estes energúmenos futuristas. Eu não consigo, eu não aguento tanta, tanta estupidez humana…

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O melhor do lado tecnológico – parte II

Discreto cinéfilo caseiro, o Rúben aprimorou a arte de, com elevado pormenor no grande plano a pêlos púbicos e pénis erectus, filmar momentos de elevada intimidade que, ao que parece, não era suposto partilhar com mais alguém.

Infelizmente, um grupo de colegas da turma, fez-lhe a gentileza, não só de desviar o telemóvel para parte incerta, como aceder aos ficheiros de .mov que ele, adolescente cinéfilo embrenhado na sua narcísica abordagem corpórea, mantinha numa pasta virtual.

Durante algumas semanas, a privacidade invadida foi apenas do conhecimento da escola quase toda, com os ficheiros a circular alegremente de telemóvel em telemóvel, as boquinhas ordinárias e tabefes de frases de urinol entregues com inadequada elegância e cortesia ao adolescente irresponsável.

Por fim, uma mãe, mais atenta e controladora, apercebeu-se que, nas mensagens privadas do Facebook, a sua filha recebera, não um ramo virtual de flores de algum amiguinho ocasional, mas um opulento pénis adolescente em estado de quase graça.

Com os parentes estatelados na lama, indagou a fundo a ocorrência e devolveu à escola a aterradora descoberta.

A única coisa de que os professores se tinham apercebido era que o Rúben se isolara subitamente, permanecia mais calado e introspectivo do que o normal, andando sempre solitário e com um aparente ar deprimido.

A própria família, embrenhada nos seus afazeres, não notara a mínima alteração naquele jovem, à exceção de expulsar a mãe do quarto com agressividade mais agravada do que a costumeira.

Ninguém, nenhum adulto, até àquele instante, se indagou com a mudança, estranhou a cumplicidade aviltada da turma que lhe encostava, orgulhosamente e de forma ostensiva, um punhal de desprezo e escárnio à garganta.

Se porventura algum professor referia estranheza no comportamento dos adolescentes, logo outro colega, mais sapiente e atento, comungava da opinião de serem todos “farinha do mesmo saco”, agora zangados, logo a seguir tão amigos, sem nunca questionar, sem nunca querer saber, sem nunca se inquirir a si próprio onde acaba a tristeza e começa o sofrimento alheio.

Talvez seja apenas uma espécie antiga de “bullying”, disfarçada com roupagens novas e mais apelativas.

Talvez o Rúben seja o único culpado por atrair a si próprio a consequência dos seus atos, ou toda a turma seja a verdadeira culpada por propagar lixo e o mastigar sem compaixão.

Feitas as contas, ninguém sai impune. Porém, vale a pena questionar: como ensinamos os nossos jovens a parar e refletir os seus atos?

Como conseguimos nós, pedagogos e pais, lidar com este futuro narcísico que se desvenda, antropofágico de emoções e valores?

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Pontes para o futuro

 

Uma escola com ideias que fluem por entre paredes amovíveis.

Uma escola que trabalha, antes de todos, à frente do seu próprio tempo.

40 anos depois, uma escola de futuros.

Uma escola de pontes.

José Pacheco, o seu mentor, explica como se faz. Compareçam!!!

 

 

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O melhor do lado tecnológico – parte I

O futuro é uma coisa linda.

Estamos a dar aulas, sonhamos um dia ter a sala de aula virada para uma janela de virtualidade ultra digital e eis que, finalmente, esse dia acontece.

Subitamente, em todos os computadores de todas as salas, uma pen misteriosa e um programa especial que descarregamos para o nosso próprio telemóvel permite, através dessa mágica rede de radiação eletromagnética a que chamam “uaifai”, partilhar conteúdos diretamente no quadro interativo.

A minha euforia suplanta todos os limites e arrisco, como nunca antes fiz, rebentar de vez com as aulas expositivas, optando pela “flipped classroom” naquilo que tem de melhor: trabalho prático, investigação em equipa, e o meu telemóvel a apresentar o “planning” do trabalho que me demorou dois entusiasmantes dias a delinear.

Subitamente, então, no meio da minha eufórica partilha de motivação borbulhante, um coelhinho branco comedor de relva irrompe no ecrã do quadro interativo.

Carrego no teclado do telemóvel com estranheza, perscruto o computador e as respetivas ligações, clico em todas as teclas de comandos ao meu alcance, mas o diabo do coelhinho prossegue impassível ruminando a relva, fazendo refém todo o meu trabalho de um par de dias.

Pela sala irrompe um burburinho divertido, parece que esta rapaziada acha mais piada ao coelhinho do que ao cenário virtual de aprendizagem e as gargalhadas só sossegam quando desligo tudo e regresso à aula à moda tradicional.

Quando os alunos saem, peço ajuda ao Rafael, o cromo informático da turma, para tentar perceber o que se passou.

Com o rosto ruborizado, tenta ocultar um sorriso maroto, mas confessa:

–  Professora, a culpa não é sua. Todos temos acesso à rede Wi-Fi e houve pessoal que descarregou um programa que interfere com a projeção. Não fique zangada, foi só uma brincadeira e prometo que não repetimos.

Incrédula, regresso à sala de professores onde uma colega colericamente ruborizada e com um nítido instinto matador escreve, furibunda, uma participação disciplinar contra uma turma inteira de um PCA com índole de potencial utente do sistema criminal português, mas, pelos vistos, bastante criativa.

Pelas entrelinhas do seu discurso enervado, percebo que, afinal, tive muita sorte na minha inesperada interferência: a ela os alunos interromperam a projeção com um inusitado gif de uma cena porno. Em “loop”…

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CARNAVAL

O desfile decorre sob os auspícios de um dia de sol.
Os grupos sucedem-se com a luminosidade sobre os ombros, incrustada nas lantejoulas e purpurinas, nas cabeleiras acrílicas, nos sintéticos tecidos moles, acabados de estrear. Ao redor, uma turba de pais e familiares, uivando e obturando de êxtase e felicidade, acenam freneticamente.
Vejo passar os pókemons, as Princesas da Disney, Ladybugs, piratas e palhaços coloridos.
No entanto, vou observando o rosto das crianças, por entre a guarda de honra da multidão circundante. Espantada, vislumbro infantis frontes cerradas, faces rubras de desinteresse, irritação clara de descontentamento e enfado.
À minha memória surge, então, como um raio tempestuoso, uma memória há muito oculta, dos meus próprios tempos de gaiata. As máscaras eram um luxo, era o Carnaval muito antes de existirem lojas do chinês ou dos 300. A televisão tinha apenas 2 canais, em inúmeros lares, a preto e branco, e a diversão pura passava pelas telenovelas brasileiras, os jogos sem fronteiras, o festival da canção, a feira popular, os passeios de domingo que pediam roupa a preceito, por vezes ainda exalando o mofo dos fundo dos armários.
Ser pequena era a expetativa de um mundo de possibilidades e não as possibilidades de um mundo na nossa mão.
E o Carnaval era o momento em que todas as pequenas dimensões ao nosso redor se entretelavam, se tornavam quase possíveis.
Todos os anos eu pedia uma máscara diferente a meus pais. Todos os anos a resposta era a mesma, aviltando o desperdício de gastar tanto dinheiro só por um dia. E todos os anos minha mãe descia as escadas, batia à porta da solícita vizinha que, gentilmente, emprestava o vestido de espanhola que as filhas, agora adultas, tinham desprezado numa velhinha caixa de sapatos.
Com displicência e frustração, lá ia eu composta para a escola com um conjunto gasto de horríveis castanholas e um par de chinelas negras de salto meio alto, cobiçando as minhotas, as chinesas e, até, os cowboys.
Detestava umbilicalmente aquele traje vermelho coçado pelo tempo. Um ódio visceral que me fazia odiar o Carnaval por saber que, lá em casa, ninguém gastaria um escudo para que eu desfilasse com outra fatiota que não aquela, emprestada.

O Carnaval era um luxo, não uma necessidade ou um benefício adquirido por usucapião.
Contudo, tive de esperar diligentemente que a bainha que vinha até aos pés me chegasse ao joelho e que os cotovelos soçobrassem à renda. Só então consegui a pequena vitória de me ser prometido novo fato para o ano seguinte.
Um dia, pelo correio, uma emigrada tia, distante e desconhecida, ofereceu-me aquele que fora, talvez, o presente mais ansiado da minha ainda jovem vida e que me permitiria ir à escola e desfilar no Carnaval com o peito feito de orgulho: um vistoso vestido de princesa. O tecido de cetim azul cerúleo, decorado com linhas de lantejoulas fulgurantes, tule de teia e pérolas postiças desenhando o peito, multiplicavam o encanto.
O meu entusiasmo ampliou-se na expetativa da ansiada celebração. Contudo, no dia seguinte, depois do orgulhoso percurso para a escola, algo inusitado e terrível ocorreu. Sentada na carteira, insuflada pelos folhos e pelos tules, desmultiplicada pela rodinha acetinada, ergui-me do meu assento para seguir o cortejo. Mas, uma feroz e inusitada farpa, juro que regurgitada de propósito das entranhas do diabo da cadeira, prendeu-me o tule, o cetim e, numa dentada lancinante, rasgou-me, para sempre, a saia ao meio e o orgulho.
Depois disso, acabou-se o Carnaval, foi o vestido para o lixo e nunca mais me mascarei.
Volto a observar os garotos das fatiotas sintéticas cintilantes que prosseguem a marcha, arrastando nos pequenos pés confetis, palmas robustas e baba de avós embevecidas. O seu rosto impassível e indiferente, quase de um tédio primaveril, ignora tempos em que, de facto, a oportunidade de desfilar numa rua era, para inúmeras crianças, um pequeno luxo. No ano vindouro, renovarão o trajamento, desfilarão, talvez, com renovada displicência, enquanto os adultos regurgitarão eufóricos urras à sua passagem, invejando, todos eles, ter tido um momento como aquele nas suas vidas.

Mais atrás observo, porém, os mais pequeninos, todos numa fila de mãos dadas, pequeninas abelhas feitas de material reciclado: sorriem com os olhos tinindo de luz.
Sinto-me subitamente embevecida com a simplicidade das coisas palpáveis. Por vezes, complicamos tanto a vida onde ela não tem complicação nenhuma… Memórias e sonhos nebulosos que não levam a parte alguma.
A felicidade, sábia e fugaz, sabe esconder-se certeira em momentos inesperados.

Talvez o Carnaval seja apenas uma desculpa para lhe podermos espreitar o rosto feito de sol.

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QZP11: Marte

O Ministro da Educação e respetivo séquito reuniram com a NASA, no início de novembro.

Trata-se de uma informação absolutamente sigilosa, a que o Blog deArlindo teve acesso graças a um insuspeito infiltrado o qual revela tudo publicamente, arriscando a própria vida. Aqui ficam transcritas as escutas resultantes desta operação secreta. Para que saibam que não é inocentemente que agora se propõe a alteração ao DL 132 nos moldes sobejamente conhecidos…

Início da Gravação:

(Diretor da NASA com sotaque norte-americano):
– Necessitamos do vosso ajuda. Sabemos que vós ter mão-de-obra altamente classificada. Muito bons professores no desemprego. Precisamos ficar com a vossa excedência para missão especial. Nós saber, Portuguese teachers são do best!
(Jovem Ministro da Educação cofiando a barbinha):
– Oiça, é só dizer o que necessita, estamos cá para isso.
(Coro de Assessores do jovem Ministro da Educação cofiando a barbinha):
– Cá para isso…
(Diretor da NASA com sotaque norte-americano):
– O proposta é simples – queremos mandar muitas professores vossos para Marte.
(Jovem Ministro da Educação cofiando a barbinha):
– Bom, isso, parece-me um bocadinho complicado, pois, bem vê, temos tentado mandá-los para outras profissões e eles não querem de modo nenhum. São cá d’uma raça…
(Coro de Assessores do jovem Ministro da Educação cofiando a barbinha):
– D’uma raça!…
(Diretor da NASA com sotaque norte-americano):
– Mas é um proposto irrecusável. Vão ser pioneiros na conquista de Mars, vão em nome da Terra fazer colonization.
(Assessor 1, voz baixa denunciando aparte):
– Sr. Ministro, se me permite, creio que isto nos resolvia um sem número de problemas. Vejamos, têm deslocação e hospedagem gratuita.
(Assessor 2):
– Já para não falar nas refeições!! Tudo à borla: dobrada desidatada, cozido à portuguesa desidratado, pastéis de nata desidratados, enfim, gastronomia típica do melhor!
(Assessor 3):
– E podem dar aulas como antigamente na telescola, tudo à distância.
(Assessor 4):
– E já estão habituados a muita quilometragem e a que os mandemos para todo o lado…
(Diretor da NASA, com sotaque norte-americano, profusamente entusiasmado):
– Sim, sim, sem custos para vocês no Ministry of Education. Only good publicity!
(Jovem Ministro da Educação cofiando o bigodito):
– Então, mas, como é que isso se operacionaliza?
(Assessor 2):
– Ó senhor Ministro, isso é o mais fácil! Alteramos o diploma dos concursos. Introduzimos mais prioridades, aumentamos o tempo de serviço para se integrar a carreira, vinculamos extraordinariamente poucochinhos…
(Assessor 4):
– E temos também os do quadro que podem ir para mobilidade se tiverem horários de 8 horas. Vai tudo é pró espaço, senhor Ministro. Vai tudo é pró espaço se quiser trabalhar!!!

2 (Jovem Ministro da Educação cofiando o bigodito):
– Ah! Brilhante! Então, mas, e os sindicatos?…
(Assessor 1):
– Ora, ora, deixe-os por nossa conta. Reunimos com os 150 sindicatos de professores, sempre com propostas piores do que esta. Qualquer coisa, tipo, aumentamos ainda mais a quantidade de prioridades na contra-proposta e o tempo de serviço necessário para vincular, remetemos as vinculações extraordinárias para entrada em vigor em 2020. Vai ver se eles não aceitam logo a primeira versão proposta…
(Diretor da NASA, profusamente entusiasmado):
– Yes, yes, nice tactics! Very intelligent people you have, Mr. young minister… meanwhile, eu publico anúncio com irrecusável proposta da NASA – uma prioridade, uma lista de graduação, pagamento de all expenses, mobilidade reduzida a horários de 3 horas. Vai ver se não vão querer todos ir para Mars…
(Assessor 3):
– É mandá-los para Marte, senhor ministro, é mandá-los para Marte! Acabou-se o excedente de professores, as críticas dos sindicatos e o orçamento da educação ainda estica!
(Assessor 3):
– Além disso, se há alguém que consegue lidar com marcianos, são os professores portugueses. Por esta altura, já estão preparados para tudo: toneladas de legislação às costas, violência de pais, indisciplina na sala…
(Jovem Ministro da Educação cofiando a barbinha):
– Bom, agora que colocam as coisas dessa maneira… Combinado, senhor Diretor da NASA. Sempre é menos um problema no meu mandato… além disso, não é a mesma coisa que mandar os professores emigrar, certo?…
(Coro de Assessores do jovem Ministro da Educação cofiando a barbinha):
– Certoooooo!!!

(fim da gravação)

 

PS –  Qualquer semelhança com a realidade é pura… semelhança.

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