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Diana Souza

Professora, escreve, reescreve, respira e quase ficciona o mundo enquanto dá aulas.

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Saí de casa e fui caçar

Saí de casa e fui caçar.

Era madrugada, pelo que considerei que a hipótese de ter outros predadores por perto seria menor. Armei-me com luvas, máscara, chapéu, óculos e álcool e coloquei o pé fora da porta.

Porém, mal o fiz, já a minha vizinha me chamava da janela. Encarecidamente, pediu-me que lhe trouxesse umas coisinhas, já que ia às compras. Tive de assentir, percebendo agora a razão da velhaca, que nem sequer está no grupo de risco, me ter oferecido limões na semana passada.

De modo que não tive alternativa a não ser dizer-lhe que me enviasse a lista para o telemóvel.

Mal cheguei ao local avistei apenas outros quatro caçadores e animei-me com a perspetiva de a manhã decorrer tranquila.

Contudo, sorrateiramente, posicionaram-se atrás de mim, matreiros e expectantes, outros dez caçadores ávidos de presas. Para piorar o cenário, recebi a lista de compras da vizinha.

Não eram umas comprinhas, era um tratado de bens que me obrigaria de revirar todas as prateleiras, marca por marca.

Respirei profundamente, tentando memorizar as necessidades que me levavam ali e aguardei pacientemente a abertura de portas, a 3 metros de distância do caçador da minha frente. Na minha imaginação, a coisa resolver-se-ia desde que eu organizasse o percurso sem recuos ou detenças.

Abriram-se, então, as portas e seguimos ordeiramente.

Primeira secção: frutas e legumes. Atiro nas maçãs, pêras, perscruto as mangas encomendadas pela vizinha e eis, então, que um desgraçado se cola a mim para revirar as laranjas uma por uma. Dou um salto para trás com o susto da excessiva proximidade e reposiciono-me na zona das batatas.

Respiro fundo, mantenho-o debaixo de olho, e volto a disparar nas cebolas que caiem certeiramente no meu carrinho.

Inexplicavelmente, uma mulherzinha cola-se em perigosa proximidade ao meu corpo, raios parta isto, nem tem máscara, nem luvas, nem o diabo, sinto-lhe o bafo a menos de um metro, vai dar-me uma síncope cardíaca!

Ai deus do céu, se me fino nos legumes já não chego aos congelados…

Arranco dali disparada com o carrinho, perscrutando os intervalos dos transeuntes para passar incólume, como se isto fosse uma corrida de obstáculos.

E é, porque mal chego aos iogurtes, deparo com um casal entretido a lamber rótulos e a discutir animadamente qual a marca que deve levar. Agarro velozmente os primeiros que o meu olhar alcança e sinto o suor a escorrer fininho pela testa.

Prossigo para as bolachas, a cabrona da vizinha quer umas de chocolate branco da marca “Cupita”. Perscruto à esquerda e à direita das prateleiras: uma selva de bolachas, é o que isto é. Há bolachas da marca branca, marca azul, com pepitas, sem pepitas, com recheio duplo e duplicado, bolachas roscas e bolachas espalmadas. Há tudo, tudo, menos as p#€@s das bolachas da marca “Cupita”.

Aproxima-se um repositor, dou três passos para trás, vai de retro que nem máscara, nem luvas, tens sorte ó desgraçado que és chavalo e de ti não quer o Coronavirus saber. Grito-lhe da outra ponta do corredor se me sabe dizer onde encontro as “Cupitas”. Aponta com um dedo simpático e arranco a toda a brida para as agarrar numa penada, antes que chegue o senhor obeso que tem ar de quem vai açambarcar a prateleira toda.

Sigo para o leite, agarro numa embalagem e perscruto a vizinhança. Está livre, posso passar, avanço para as bebidas alcoólicas. Na lista da outra estão três garrafas de vinho do Douro. Três garrafas de vinho do Douro! Não pode ser alentejano, nem ribatejano, é fina na pinga que toma, a desgraçada. Nova selva de garrafas. Vejo tudo menos o Douro.

Da esquerda, aproxima-se uma mulherzita a tossir. Ainda vem longe, dá tempo de encontrar o Douro, o meu olhar saltita, mas o suor abunda e, agora, fiquei com os óculos todos embaciados. Não vejo nem o norte, nem o sul, apenas um vulto que se acerca a tossir. A tossir, mãe do céu!!!! O Coronavírus a andar sobre pernas, meu Deus, vou morrer aqui e agora toda contaminadinha, é agora que vou encomendar as minhas últimas preces.

Agarro uma garrafa qualquer, álcool é álcool, a p#€@ da vizinha nem sequer pode reclamar que eu estou a arriscar a minha vida nesta caçada, e atiro-a com vigor e de forma certeira no carrinho, acelero, o carro desliza.

Está tudo bem, estamos bem, a gaja que tosse ficou nas minhas costas, tiro os óculos para os desembaciar.

Carago, acabei de mexer na cara.

Acabei de mexer na cara.

ACABEI DE MEXER NA CARA!!!!!!

Perscruto no bolso a micro embalagem de álcool que me há de salvar a vida, besunto as lentes, besunto as luvas… f#€@-se!! A embalagem escorregou-me para o chão: eclipsou-se debaixo da última prateleira. Corro desalmadamente para os produtos de higiene, vasculho o álcool, onde está o álcool? Agarro na última garrafa com vida, despejo-a em cima de mim, mais valia imolar-me aqui e agora, p#€& que pariu esta m#€&@ toda!!!!

Regresso ao carrinho, conduzo-o velozmente para a caixa de pagamento, consigo miraculosamente ficar numa fila veloz, e atiro energeticamente toda a caça para o tapete rolante.

Olho em redor, todos aqueles rostos, com e sem máscara, com e sem luvas, um deles, um deles vai estragar esta gaita toda, um deles, vai tocar, vai tossir, vai conspurcar isto tudo… Benzo-me com mais um pouco de álcool, a menina da caixa sorri, até me enerva com tanta simpatia, esfrega álcool à sua volta como se se estivesse a embrulhar numa bolha e eu fujo dali para fora à velocidade máxima com o carrinho a abarrotar de nervosismo.

Mais álcool no puxador do carro, toca a despejar tudo lá para dentro, sento-me quietinha ao volante, respiro fundo. Lentamente recupero a tranquilidade, cheguei inteira, o vírus ficou do lado de fora, se entrou já o suei em pinga.

É, então, que começo a descalçar as luvas e, estupefacta, reparo: tenho um rasgão na luva direita.

TENHO UM RASGÃO NA LUVA DIREITA!!!!!

Despejo mais álcool nas mãos, meto álcool na embalagem de álcool que também deve estar contaminada, mais álcool outra vez no volante que deve estar contaminado, mais álcool no banco porque a roupa está contaminada, mais álcool nas calças porque toquei com as mãos que tinham luvas rasgadas nas calças, mais álcool… . Não pode ser… acabou-se a embalagem. Caraças, pá!! Que chumbada! Saí de casa, fui caçar e esqueci-me de encher a caçadeira??????

Nota – o presente texto, de caráter irónico não pretende iludir a gravidade dos acontecimentos que vivemos presentemente. Acima de tudo, deseja que o leitor adquira consciência e não saia de casa apenas por um pacote de batatas fritas, avaliando os bens que são supérfluos ou de primeira necessidade.

Fica, igualmente, aqui o profundo agradecimento aos funcionários deste e de todos os serviços que asseguram o nosso bem-estar no presente momento.

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Ficar a ver os tomates crescer

 

Da lastimosa prestação de um ministro zombie à estadia abrupta em casa, tudo me parece subitamente acometido de uma lástima e caos pesarosos, que se instalam dentro de mim de uma forma excessivamente ruidosa e perturbadora.

Confesso, ainda estou, internamente, a tentar organizar tudo isto e a reorganizar-me.

Esta segunda-feira dei com a minha caixa de Mail entupida de mensagens – desde a direção que diz para ficarmos em casa, mas que estamos de sobreaviso caso alguém na frente de batalha precise de apoio para os filhos, às colegas que agradecem ao email de um com todos em cc, aos pais dos alunos que enlouquecem com os filhos a respirar ao pescoço e exigem fichinhas, já!

Depois temos, também, colegas que confessam estar em contra-relógio na formação online para perceber como podem gerir profissionalmente a fisionomia da desgraça súbita. Isto numa terra em que uns nem sequer querem saber, outros não precisam e outros não têm.

Mais alguns telefonemas e outras colegas desabafam o desespero de também serem mães e não se poderem livrar, nem dos filhos, nem dos alunos. Por fim, a última mensagem do dia: parceira de escola e querida amiga, informa que entrou em quarentena porque o colega que assistiu às suas aulas foi, no mesmo dia em que ela celebrava um aniversário com a família, internado.

A voz dela afunda-se e tenta irremediavelmente fazer o percurso dos acontecimentos. A dado momento, desfaz-se num pranto.

Na minha cabeça faço rewind a estes últimos dias. Que loucura absoluta nos acomete enquanto humanidade? No momento em que temos, finalmente, tempo para ser, em que já não temos desculpa para dizer “não tenho tempo”, parece que o próprio tempo nos traiu.

O inimigo está em toda a parte, invisível, lancinante e ferozmente impiedoso. Estamos ainda a definir-lhe o mórbido contorno.

Mas o inimigo também somos nós, de nós próprios. A velocidade abismal e impagável a que tudo isto se processa devia forçar-nos a parar, a reduzir. A respirar fundo, a largar os mails, as redes, a estarmos connosco próprios e com aqueles que amamos sem a exigência de uma velocidade que nos supera. Pela primeira vez, podemos ter tempo. Sem desculpas, sem desvios.

Então questiono-me, porque urge responder a tudo em vez de o fazermos com a plena consciência de nós? Que tempo sobrará para apenas sermos neste caos? Serão horas, minutos, dias até entrar pela porta adentro e nos tolher de foice. Mas também pode acontecer que, a cada passo, apenas o estejamos a convidar a entrar porque o nosso receio é maior do que o próprio rosto da morte.

Há tantas questões ainda por resolver, porque não tentamos fazê-lo com alguma serenidade? Prosseguimos em frente sem detenças porque é a nossa forma de lutar ou pelo esforço desesperado de ocultar o nosso próprio pânico?

Peço-lhe que usufrua dos que ama. Apenas isso. O que tiver acontecido, aconteceu. Não se pode mudar o passado, mas podemos respirar o presente.

“Protege-te. Protege os teus e, olha, lê o Ricardo Reis que é remédio prodigioso para os tempos que correm:

“Este é o dia,

Esta é a hora, este o momento, isto

É quem somos, e é tudo.”

Desligo o telefone. Também eu estou em casa. Isolada com os meus filhos, buscando agora o impossível equilíbrio entre o trabalho que se prolongará no tempo e ser mãe. Mas preciso, também, de ser, ainda, mulher, pessoa, ser humano.

Por isso, este final de tarde, depois de cortar os últimos tomates para a salada, separei as sementes. Um amigo aconselhou-me sabiamente: “semeia as sementes e terás vitamina C”.

Pareceu-me um bom plano: alguns minutos por dia, vou afastar-me dos miúdos, do computador, das redes, da paranoia, do medo, da gritaria, das exigências impagáveis e, enquanto durar o meu cigarro à janela, vou, apenas, ficar a ver os tomates crescer…

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Khrushchev, acknowledged One Day within the expected life of Ivan Denisovich, their initial book.

The subject of mass communication is one which is relatively unknown to the specialization academia. Mental illness is among the greatest theories the media has altered because of the bulk of the media presents. Mass media are media sorts produced to achieve the biggest audience possible. The media influence isn’t usually unfavorable, however. The movie occurs in a mental institution. Continue a ler

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Da insanidade e do desprezo (… do penico)

 

Da insanidade e do desprezo

 

O senhor Diretor não sabe dizer que não. E entre a figura política que almeja e a liderança justa, opta sempre pela primeira.

Mas, verdadeiramente, eu nada sei, pois como cheguei agora à escola, descubro de tudo um pouco por portas traseiras. Porém, observar os colegas de Educação Especial passearem nos corredores com as meninas de cadeiras de rodas, fingindo que a inclusão chegou aqui, é, no mínimo, confrangedor.

Não é a missão que guia estes professores, mas o medo da punição profissional. Entre dentes rangem impropérios, mas quais ovelhas mansas, cumprem a determinação mandada. De professores, passaram a tarefeiros, com o cabresto das represálias veladas.

As alunas, de corpo feito, mas condenadas a uma cadeira permanente, deambulam acompanhadas por estes colegas por um espaço amplo de escadarias impossíveis e salas improvisadas, pois a escola, tão moderna na ambição, acolhe pela primeira vez jovens com estas características.

E eu não acho mal, sobretudo porque, em apenas um fim de semana vindouro, terão uma casa de banho feita à medida só para si e plataformas que permitem às cadeiras ascender. A modernidade chega, num ápice imposto, a esta escola secundária.

Mas a sua situação é mais complexa. Ela exige um acompanhamento permanente de um adulto, atuação especializada para tudo, incluindo comer e ir à casa de banho.

Uma das colegas explica-me que, aos 55 anos, nunca se imaginou baby sitter do penico. É que, à falta de funcionárias (que, nas escolas por onde passei, recebem formação específica para estes casos) são os colegas da Educação Especial que lhes dão comida e vão com elas à casa de banho. Isso mesmo: professores que lhes limpam o rabo.

Acho maravilhoso que a sua formação académica seja tão absolutamente abrangente que se reformule numa pedagogia de sanita, higienizante e honrosa para a profissão.

Pasmai e vislumbrai, professores, como toda uma nova realidade se promove neste tão significante gesto.

Não há decreto-lei, nem despacho, nem qualquer Pós-graduação de fim de semana que promova mais ou melhor dignifique a nobre profissão de limpa rabos do que este extraordinário Agrupamento .

Se esta semana uma escola ganhou o selo de Proficiente no ensino de Ciências e Tecnologias, temos aqui uma séria candidata ao Prémio Europeu do Penico da Inclusão.

É caso para considerar que, a esta escola, já ninguém a tira do pódio, certo?

Ou será que temos por este país fora mais higienistas disfarçados de professores que ainda estão por desvendar?…

PS- qualquer semelhança com a realidade é mera ficção.

 

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BRINDE UNIVERSAL, SELETIVO E ADICIONAL: AO NATAL!

 

ASSESSOR 1: Que maravilha de almoço natalício, Sr. Ministro!

ASSESSOR 2: Sim, sim! Que maravilha!

ASSESSOR 3: Aproveitemos para lhe fazer um brinde, Sr. Ministro!

ASSESSOR 4: Sim, sim! Um brinde ao nosso jovem e genial Ministro!

JOVEM E GENIAL MINISTRO: Ora, ora, não é preciso exagerar… (cofiando a barba com um sorriso) de que outra forma podemos nós celebrar esta época e o elevado sucesso do nosso Ministério, caríssimos?

ASSESSOR 3: Não seja modesto, Sr. Ministro! Olhe que eu estou cá desde 1987. Já muitos outros passaram pelo seu lugar, mas nenhum teve tanto sucesso como o nosso jovem e genial ministro…

ASSESSOR 2: Já muitos, já, Sr. Ministro!

ASSESSOR 1: Ui, um porradão deles desde 87, que eu também sou desse tempo!

ASSESSOR 4: Sim, sim! O Sr. faz História e Jurisprudência!

ASSESSOR 2: Jurisprudência e História, Sr. Ministro!

ASSESSOR 3: É que estamos, finalmente, a mudar a escola portuguesa!

ASSESSOR 1: A imprensa confirma: os alunos estão esgotados, exaustos e fartos dos professores à moda antiga! Precisam de desafios…

ASSESSOR 3: Precisam de usar as tecnologias.

ASSESSOR 2: Precisam de decidir o que querem aprender.

ASSESSOR 1: Precisam de um perfil à sua medida.

ASSESSOR 4: E não esqueçam: precisam de uma educação que os complemente tanto como um Fortnite!

ASSESSORA MUITO PRÓXIMA DO JOVEM E GENIAL MINISTRO: Os colegas têm razão, o Sr. Ministro é bestial, é um portento de criatividade educativa, é uma brasa… (Abana suavemente a mão sobre o roliço rosto ruborizado).

JOVEM E GENIAL MINISTRO: Ai, que exagero, não se esqueçam que metade dessas ideias todas nem foi minha, foi do meu querido amigo Johny. Ter um secretário de Estado desta categoria é um brilharete! É que ele acredita a sério na possibilidade de mudança! E depois tem aquele sorriso que desarma! Não há professor que não goste dele. E viaja mais do que eu, sempre numa roda viva a ouvir as escolinhas todas… que descanso!

ASSESSOR 4: Pode ser, pode ser, mas o Sr. é que manda! Enviar todas estas mudanças ao mesmo tempo para a escola, isso sim é que é um descanso!

ASSESSOR 2: Isso é que foi de génio.

ASSESSOR 1: Cansou bem os professores.

ASSESSOR 3: Sim, sim, andam bem cansadinhos. Foi brilhante: o 54, mais o 55, mais o 75, mais os semestres…, que maravilha! Nunca trabalharam tanto e tão bem!

ASSESSOR 1: E tão bem!

ASSESSOR 2: A escola agora tem futuro!

ASSESSOR 1: Tem futuro, olaré!

ASSESSOR 4: As sondagens confirmam que o Sr. Ministro não dobra, não abana, nem com o Bigodinhos a acenar bandeirinhas debaixo da ponte.

ASSESSOR 1: É só bandeirinhas…!

JOVEM E GENIAL MINISTRO: É que aquele tipo até enerva! Como é que ainda não percebeu que já perdeu a guerra? Os professores estão fartos de o ouvir. Querem é descanso.

ASSESSOR 3: Ui…, e como querem descanso… A inclusão das universais, das seletivas, das adicionadas, mais as flexibilizadas, as semestrais, as autónomas estão a ser milimetricamente cumpridas. Um mimo! Já ninguém quer bandeirinhas.

ASSESSOR 2: Já ninguém quer saber da condensação descongelada!

ASSESSOR 1: Mas não iremos ter alguma celeuma depois do Natal?

ASSESSOR 4: Qual quê? Os professores este Natal até foram todos reposicionados e ultrapassados, um mimo!

ASSESSOR 1: Um mimo!

ASSESSOR 3: Os professores são, na maioria professoras. E são quase todas avós! A única coisa que querem é que ninguém as chateie e que possam passar os próximos dias com os netinhos. Depois do trabalho todo que lhes demos, querem lá saber de bandeirolas na rua…

ASSESSOR 2: Até houve uma que me enviou um mail a perguntar se não podíamos fazer medidas universais, seletivas e adicionais só para professores, diz que acha que parece que também precisam…

JOVEM E GENIAL MINISTRO: Ora aí está uma brilhante ideia para o ano que vem: mande aí um fax à DGE, o Pedrinha Boss que trate do assunto! Então, aqui está mais uma razão para brindar!!!

ASSESSORA MUITO PRÓXIMA DO JOVEM E GENIAL MINISTRO: Brindemos, pois: que o nosso querido jovem e genial Ministro prossiga a construir a escola do futuro mais 9 anos!

ASSESSOR 2: E Mais 4 meses!

ASSESSOR 1: E ainda mais 2 dias!

JOVEM E GENIAL MINISTRO (em surdina para a Assessora muito próxima do jovem e genial Ministro): Ouve lá, é impressão minha ou já ouvi esta contagem em algum lado?…

 

 

QUALQUER COINCIDÊNCIA QUE ESTE TEXTO APRESENTA COM A REALIDADE É… PURA COINCIDÊNCIA.

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Futurologias desmistificadas

– Isto assim não pode ser! Não se admite!

– Não se admite, não, Sr. Ministro.

– Qual de vocês fez porcaria? Quem foi?

– Sr. Ministro, se me permite… Bom, averiguada a situação perniciosa, acho que as coisas foram assim: o assessor das graduações inseriu os dados, estes foram transferidos para serem geridos pelo assessor das colocações que, feito o levantamento global, os transmitiu ao assessor que trata das reclamações, o qual, por seu lado, já tinha lançado as exclusões, depois passaram tudo para o assessor da informática que introduziu no programa as variantes para, depois, o assessor que compila ficheiros inserir no programa os ficheiros com as listas definitivas de tudo. De toda a gente, está a ver, os internos, os externos, os extraordinariamente integrados, todos, todos.

– E são muitos, Sr. Ministro!… São tantos, benz’ aos Deus, uma catrefada de professores que temos de colocar em alguma parte, em parte alguma e sobram uns quantos, que também são muitíssimos, em parte nenhuma.

– De forma que estava tudo previsto para amanhã.

– Mas, de algum modo, alguma coisa, algures correu mal. Não é possível precisar, isto são situações que…

– Que nos ultrapassam, que nos superam, que nos obliteram…

– Caramba! Ainda por cima já lançámos a notícia das colocações, as listas saem um dia antes, são retiradas para sair um dia depois… Que baralhada, isto simula uma situação de grave incompetência. Tem de rolar uma cabeça…

– Concordo consigo, Sr. Ministro. Proponho que mande regressar à escola o Zé Carlos, do atendimento presencial.

– Sim, se é para mandar alguém embora, alguém que tem culpas, a culpa é do Zé Carlos que nunca está no posto de trabalho, não pica o ponto, não atende telefones, não clarifica as dúvidas dos professores.

– Seja. Tratem disso. E as listas?

– Sr. Ministro, as listas, obviamente, saem amanhã. Dizemos que houve um “bug”, um ataque informático, qualquer coisa que justifique esta grave falha, obviamente de origem não humana.

– E com novidades?

– Não, fica tudo na mesma. De qualquer modo, os professores podem matar a ansiedade no blogue do Arlindo, parece que o tipo sacou as listas antes de as eliminarmos de vez. Sempre serenam os ânimos 24h…

Na outra ponta da sala a discreta empregada de limpeza finaliza os retoques no pó da estante ministerial. Percebe o nervosismo do Ministro, a ansiedade geral

da equipa de assessores. Escuta a conversa e pondera, por que razão o informático tem a mania de beber café junto ao computador. Ela não tem culpa de ter entornado o líquido no teclado esta tarde, enquanto fazia diligentemente o seu ofício. Se é para assumir culpas, o Zé Carlos que as assuma. Afinal, nunca pica o ponto, não atende telefones, não clarifica as dúvidas dos professores.

Caramba, se não queriam que as listas saíssem, quem lhes mandou pedir a limpeza das secretárias à hora do almoço?…

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FESTA NO 12º

O gabinete do Ministro reuniu-se no 12° andar com urgência.

Era uma situação tão caricata e inusitada que, ao ser informado dela, o jovem Ministro recusou acreditar. Tinha de ser claramente ponderada e averiguada a situação.

– Senhor Ministro, eu juro. A fonte é segura.

– Seguríssima, que eu atesto.

– Uma prima do nosso assessor Zé é grande amiga de um amigo que, afiliado no partido, está no Conselho Geral daquela escola e jura.

-Jura a pés juntos.

– Isto é uma bomba!

– Isto é do melhor!

-Já não tínhamos notícia de uma coisa assim desde,… desde…

-Ui, desde que o Guinote se eclipsou!

-É verdade, Sr. Ministro, atesto, porque eu estou cá desde 87 e isto é uma notícia insuperável!

-Bom, se tiverdes a certeza… Mas, não lhe sobrará tempo para ir remexer o teclado?

-Ui, nem pensar, senhor Ministro.

-Repare, uma escola é uma escola e a gestão de uma escola é o diabo!

-Sim, porque uma coisa são uns graficozitos sobre uns concursos, umas coisas…

-Outra bem distinta é gerir os professores…

-Os alunos…

-O pessoal não docente…

-E os pais, senhores! E os pais que têm a mania de cilindrar os diretores de escola sempre a pedir coisinhas…

-Ai que vai ser tão bonito!!! Vamos andar tão sossegados, benz’ao deus!

-Mas, olhai, e se mesmo assim lhe sobra tempo, porque há sempre gente que faz tanta coisa em paralelo…

-Senhor Ministro, não se apoquente. Todos nós já pensámos nisso. É fácil de resolver…

-Preparamos uma folhita de informações para reforçar o papel dos diretores…

-Sim, metemo-los, pessoalmente, a averiguar as habilitações do corpo docente.

-E do não docente!

-Acrescentamos pedidos de validação de…

-umas tretas quaisquer…

-Isso, isso!!!

-Temos, por exemplo, a possibilidade de exigir que averiguem, pessoalmente, as vacinas dos professores em dia. Sim, porque a saúde pública é fundamental… E os diretores têm um papel nisso.

-Pedimos mais umas quantas estatísticas dos agrupamentos (e isso, normalmente, ocupa logo o verão inteiro).

-E se não bastar, senhor Ministro, mandamos lá a inspeção que pode prolongar o trabalho largos meses.

-Não se preocupe que o Arlindo bloguista morreu! Está morto e defunto!! Agora que é diretor de escola, nem vai ter tempo para se coçar!!!

O jovem Ministro observou a mesa pululada de assessores oriundos de todas as legislaturas. Se alguém sabia de educação, sem dúvida, eram eles. Cofiou largamente a barbinha e, depois, assentiu.

-Nesse caso, temos de celebrar!

-Senhor Ministro, tomámos a liberdade de vir preparados para tão honroso evento. O dia em que o Ministério da Educação se livra do Arlindo é um dia memorável!

O assessor de 87 poisou sobre a mesa os copos e, logo de seguida, os restantes colegas fizeram saltar, com magistral mestria e profano entusiasmo, as rolhas voluptuosas do champanhe.

Uma das assessoras desapertou um botão da blusa ensopada em suor nervoso ao mesmo tempo que outra soprou num tubo de confeti luminoso, esvoaçando ligeiro sobre a cabeça dos presentes.

Do outro lado da sala, o assessor tecnológico colocou o mp3 a tocar e iniciou uma sensual dança, roçando-se discretamente no colega lateral.

Alguns dos assessores, em coro, titubearam um karaoke ao som da guitarra improvisada do jovem ministro.

Sobre a mesa e sobre o chão, uma profusão de álcool e papelinhos vidrados refletiam a frenética euforia do evento.

Talvez tivessem exagerado nas garrafas, pois a reunião perdurou em alegre harmonia noite fora, o 12° andar iluminado por uma bola de espelhos que alguém fizera questão de trazer e pendurar no teto, porque celebração destas tem de ser a rigor!!

Eram sete horas da manhã quando a senhora da limpeza testemunhou um amontoado de corpos embriagados e quebrados sobre a mesa e sobre o chão, garrafas espalhadas por toda a sala de reuniões, o soalho pegajoso e empapado de baba e álcool.

Foi a custo que os ergueu, um por um, e espetou com eles todos nos repetivos gabinetes.

Ora, onde já se vira semelhante coisa? Emporcalhar desta forma a sala que tinha limpo copiosamente no dia anterior???

Havia de ligar ao primo a contar, como tantas vezes o fizera antes, quando o assunto era importante. Aquela gente, aquela gente havia de ver…

E havia, pois o Ministro ia tendo um colapso quando, recuperado da noite anterior, nessa mesma tarde, abriu o computador e um breve aviso noticioso, oriundo do blogue de Arlindo, noticiou:

“Fonte do Ministério da Educação confirma: festa privada no 12° andar a noite toda.”

Para piorar, o texto vinha com uns gráficos pormenorizados da quantidade de assessores envolvidos no evento, por idade e por sexo!!!!

-Por amor de Deus, mas este homem nem assim desaparece???????

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APELO

Os bombeiros apelam ao donativo de água, fruta e peúgas (permitindo trocar de meias entre combates e descansar os pés da fornalha das botas ardentes).

Faça a sua parte para que eles façam a deles.

 

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CONGRESSO NO PORTO

Quem estiver por perto e tiver interesse em neurodesenvolvimento, dias 26 e 27 de maio.

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LIVRO LIVRE – CONVITE

A apresentação do projeto Livro Livre terá lugar no Museu do Aljube, terça-feira, 9 de Maio de 2017, às 18h.

Contamos com a sua presença, sobretudo se é professor de Português e/ou de História. Contudo a temática abrange também a educação para a cidadania.


Trata-se de um projeto educativo dirigido a crianças e jovens, a partir do 4º ano de escolaridade, o qual convoca o jovem leitor a participar numa atividade criativa, como co-autor do livro.
Desafia-o a resgatar as memórias de quem viveu este período e registar estas experiências. Através de breves enquadramentos históricos, ilustrações sugestivas e propostas de atividade diversificadas, este livro constrói um espaço para a reflexão sobre o significado do 25 de Abril.
Centrando-se no legado do 25 de Abril de 1974, o LIVRO LIVRE promove o diálogo intergeracional, a identidade local, a preservação ou resgate da memória e a coautoria, através da sua implementação alargada na comunidade escolar. 



Saiba mais sobre o livro aqui: http://lupadesign.pt/?p=40428
 
Agradecemos confirmações para: claudia@lupadesign.pt (+351 914 063 390)
 

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